A história da Hot Wheels
Qual a marca que vendeu e vende mais carros na história? Se você disse Volkswagen, Fiat, Chrysler, Ford ou Chevrolet, errou longe. Se somar todas elas, continua errando. Há quase 60 anos, em 1968, 16 carrinhos com a marca Hot Wheels chegaram às prateleiras das lojas de brinquedos, principalmente dos Estados Unidos. Hoje estima-se que cerca de 9 bilhões desses carrinhos estão espalhados pelo mundo todo, e pelo menos 10 milhões são fabricados e distribuídos por semana pela Mattel, detentora da marca. Isso significa que a Hot Wheels é não só a marca de carros mais vendida da história, como também a de rodas e pneus: cerca de 36 bilhões de rodas e pneus fabricados desde 1968, 40 milhões por semana…
por Ricardo Caruso

Antes de irmos fundo na história da Hot Wheels e na trajetória desses sedutores carrinhos de brinquedo, é preciso voltar no tempo. Para a “New York Toy Fair” de 1968, a Mattel convidou um executivo da rede de lojas e supermercados Kmart para uma visita à sua sede em Los Angeles, California, para uma prévia de seu produto mais recente. A fabricante de brinquedos esperava atingir a meta de garantir 5 milhões de encomendas de varejistas. Depois de ver a réplica em escala mais ou menos de 1:64 de um muscle car percorrer uma pista de plástico e correr pelo chão, o executivo encomendou 50 milhões de carrinhos na hora, 10 vezes mais do que a fabricante de bonecas Barbie esperava para todo o mercado.

Ao combinar modelos de carros existentes com alguma excelência técnica e o significado cultural para os americanos, estes brinquedos tornaram-se sucesso imediato. E embora a história da Hot Wheels tenha começado há mais de meio século, esses atributos fizeram com que os brinquedos em miniatura fossem tão populares hoje como sempre foram. Existiam muitas marcas surfando nessa escala, como os imbatíveis Matchbox (Inglaterra), Corgi (também Inglaterra), Siku (Alemanha), Majorette (França), Tomica (Japão), Roly Toys (Brasil) e Schuco (Alemanha), entre muitas outras.

A verdade é que o automóvel em muitos casos sempre foi mais do que apenas um meio de transporte. É algo atraente, que inspira admiração. Até pouco tempo, antes da globalização e massificação, o automóvel era algo relevante: uma das primeiras coisas que os meninos ainda fazem é admirar o Fusca e a Kombi, aprender os nomes dos carros e identificá-los no trânsito. E, muitas vezes, elas recebem essa “educação” por meio dos carrinhos em miniatura.

Carrinhos de brinquedo (ou “carrinhos de ferro”, como se dizia no Brasil de antigamente), como vimos, não eram nenhuma novidade naquela década de 1960. Dezenas de milhões de exemplares, incluindo modelos britânicos da Matchbox, Husky e Budgie, já eram produzidos anualmente. O mercado estava tão deliciosamente saturado que, quando Elliot Handler, cofundador da Mattel, sugeriu que a marca de brinquedos produzisse sua própria linha de carrinhos, foi recebido com muita desconfiança e oposição por seus colegas. Até mesmo sua esposa Ruth Handler, que era a vice no comando da Mattel, torceu o nariz.

Mas Elliot viu algo que os outros não viram. Mais precisamente, enxergou o que não estava lá. Os carrinhos de brinquedo da época puxavam mais para réplicas em miniatura de automóveis, voltadas para colecionadores, do que para brinquedos baratos para as crianças se divertirem. Elliott sabia que não havia espaço para mais um carrinho de brinquedo semelhante aos que já existiam nas lojas de todo mundo, então decidiu criar um mais barato e voltado para o público norte-americano. Seu sonho era fabricar um carrinho de brinquedo, porém com aparência realista e que pudesse se mover com maior rapidez.

Sabendo que o sucesso desses novos carrinhos dependia de seu desenho e funcionalidade, Elliot recrutou talentos de fora do mundo dos brinquedos para ajudar no desenvolvimento. Isso incluiu Harry Bentley Bradley, desenhista da General Motors, e Jack Ryan, engenheiro de sistemas de mísseis formado na Yale University. Eles se tornaram mais dois membros do grupo de funcionários já excepcionalmente diversificado da Mattel.

A empresa era conhecida por contratar os melhores e mais brilhantes em cada área, independente de sexo, raça, religião, preferência política ou origem. Nesse sentido, A Mattel era uma exceção na segunda metade do século passado. Mas formavam uma força de trabalho diversificada, que trazia novas ideias e perspectivas inovadoras à empresa, exatamente o necessário caso a fabricante de brinquedos quisesse criar um produto que o mundo nunca tivesse visto.
Elliot incentivava seus funcionários a adotarem e explorarem suas próprias ideias para resolver problemas. Essa filosofia deu à equipe responsável pela Hot Wheels a liberdade criativa para buscar inspiração na cultura automotiva popular. Carros rápidos, coloridos e divertidos eram a grande sensação dos anos 1960 no mundo real. O Ford Mustang e o Chevrolet Camaro nasceram assim. Steve McQueen corria pelas ruas de San Francisco no filme “Bullitt”. Os Beach Boys dominavam as rádios com homenagens a seus cupês, Thunderbird e motores 409. Elvis estava voltando aos palcos como um cometa e, nesse contexto cultural, os desenhistas se concentraram no crescente mundo dos hot e street rods do sul da Califórnia. Esses carros fora do comum não só tinham a estética chamativa que a Mattel buscava, como também eram construídos sob medida para o mesmo objetivo que a fabricante de brinquedos buscava para seus carros: velocidade.
Para superar a concorrência, a Mattel queria que seus carrinhos não apenas fossem capazes de se mover, mas também se mover com velocidade. Algo que a Matchbox já havia feito com sucesso com sua linha Superfast.
Engenheiros se puseram a trabalhar na construção de um carro em miniatura que pudesse ser colocado numa pista plástica (descendente ou com auxílio de um disparador) como a velocidade de um carro de tamanho real. Isso foi alcançado com uma série de ajustes de desenho, incluindo pneus largos, rodas leves e “suspensão” de barra de torção que proporcionava absorção de impactos e amortecimento das rodas. Os projetistas também desenvolveram um conjunto roda/eixo de baixo atrito, o que exigiu um pouco mais de engenhosidade. Para que as rodas girassem livremente, o eixo foi feito de uma corda de bandolim, que tinha uma pequena superfície de rolamento para criar menos atrito com a roda. Ele foi acoplado a buchas feitas de Delrin, material plástico de baixo atrito desenvolvido pela DuPont apenas alguns anos antes.

O resultado final foi um carrinho de brinquedo que podia atingir a velocidade real de 5 km/h (em escala, 320 km/h). Quando Elliot viu pela primeira vez uma demonstração de um desses carrinhos cruzando sua sala em alta velocidade, sua reação foi simples, mas acabou se tornando marcante: “Esses carrinhos são demais”!

O Hot Wheels “Custom Camaro” chegou às lojas em maio de 1968. Rapidamente, foi seguido por outros 15 modelos: Beatnik Bandit, Custom Barracuda, Custom Corvette, Custom Cougar, Custom Eldorado, Custom Firebird, Custom Fleetside, Custom Mustang, Custom T-Bird, Custom Volkswagen, Deora, Ford J-Car, Hot Heap, Python e Silhouette. Esses 16 carros da primeira edição ficaram conhecidos como os “Sweet 16”. Consistiam em versões repaginadas de muscle cars mais famosos da época, além de desenhos personalizados inspirados em hot e street rods da vida real.

Cada um recebeu a pintura metálica “Spectraflame” da Mattel e rodas com filete em vermelho, estas últimas se tornariam uma característica marcante dessa primeira leva, conhecidas como Redlines.

Uma curiosidade: esses moldes em algum momento foram furtados da Mattel e apareceram na Argentina, com os carrinhos vendidos como Esdeco Muky. Mas adiante, os moldes reapareceram no Brasil, e os carrinhos foram batizados como Muky Superveloz. Tinham carrocerias em metal, e no final, eram de plástico. Desapareceram misteriosamente e nunca mais se soube deles.

Pistas de corrida flexíveis de plástico, com o icônico looping, eram vendidas na mesma proporção que os carrinhos Hot Wheels. Juntos, eles formaram um brinquedo que, como Elliot previu, se tornou extremamente popular. Mais de 16 milhões de unidades foram vendidas no primeiro ano. As vendas só aumentaram com o passar dos anos. A Mattel fabricou seu bilionésimo Hot Wheels em 1991. Hoje, ele reina como um dos brinquedos mais vendidos de todos os tempos e continua tão popular quanto sempre.

A pergunta é: vale a pena colecionar Hot Wheels? Pode apostar que sim. Não é fácil carrinhos Hot Wheels individuais alcançarem valores de centenas e até milhares de dólares, fora do Brasil. Mas isso é muito raro. Pelo volume de produção, não existe nada em termos de HW que seja considerado raro. Mas existe um vasto mercado de colecionadores disputando a oportunidade de colocar as mãos nesses carrinhos em miniatura. Como no Brasil a distribuição é falha, alguns modelos podem aparecer numa região e não em outra. Mas vale a diversão. Colecione para se divertir, e não pensando em lucro. Na própria Mattel e nas lojas, as miniaturas mais interessantes são desviadas antes mesmo de chegarem às prateleiras.

O sonho de todo colecionador de Hot Wheels é o modelo mais valioso da história da marca, a Kombi “Pink Beach Bomb” (imagem abaixo). O valor desta Kombi, com duas pranchas de surfe saindo pela traseira, deriva de sua raridade. Durante o desenvolvimento, a Mattel descobriu que colocar as pranchas na traseira desequilibrava o carrinho e impedia seu funcionamento adequado nas pistas Hot Wheels. Assim, a fabricante de brinquedos voltou à prancheta, redesenhando a Kombi com as pranchas nas laterais. Como resultado, apenas duas unidades com carregamento traseiro das pranchas e usadas em teste de cores, foram produzidas. A que está em melhor estado de conservação, é avaliada em cerca de US$ 175.000 hoje. Para efeito de comparação, essa mesma quantia nos Estados Unidos poderia comprar cinco Volkswagen Jetta novos, e ainda sobraria dinheiro.

Com bilhões de carrinhos Hot Wheels circulando pelo mundo, discernir quais miniaturas são valiosas pode ser difícil para quem não tem nenhum conhecimento da história da Hot Wheels. Se você não sabe nada sobre figurinhas de futebol e alguém colocar uma figurinha do Pelé na sua frente, como você vai saber que ela é valiosa ou não?

Os colecionadores sérios da marca -infelizmente nenhum do Brasil- oferece algumas dicas. Assim como os diamantes têm como referência “corte, clareza e quilate”, os Hot Wheels têm “condição, fundição e ano”. Se a condição for impecável (mint e na embalagem lacrada), e for do ano certo, do modelo certo, da cor certa e com o interior certo, então você fez um achado. Em relação ao ano, quanto mais antigo, melhor. Os Hot Wheels “Redline” são particularmente valiosos. Os colecionadores sérios da marca -infelizmente nenhum do Brasil- oferece algumas dicas. Assim como os diamantes têm como referência “corte, clareza e quilate”, os Hot Wheels têm “condição, fundição e ano”. Se a condição for impecável (mint e na embalagem lacrada), e for do ano certo, do modelo certo, da cor certa e com o interior certo, então você fez um achado. Em relação ao ano, quanto mais antigo, melhor. Os Hot Wheels “Redline” são particularmente valiosos. Lembrete: itens de coleção são sempre imaculados e lacrados na embalagem original; sucatas ou modelos restaurados valem, no máximo, um dólar.

Mesmo algo tão objetivo quanto a idade da miniatura, no entanto, pode ser difícil de definir. O ano impresso na parte inferior de cada Hot Wheels na maioria das vezes não indica quando o carrinho foi fabricado. Esse número corresponde ao ano em que a Mattel produziu aquele molde e o colocou nas lojas pela primeira vez. A fabricante é conhecida por reutilizar os mesmos moldes por muitos anos, e o ano de fabricação vem estampado na parte de trás da embalagem.

Se você tem um Hot Wheels potencialmente valioso, a melhor opção é utilizar o melhor guia gratuito disponível: o site eBay. Para ter uma ideia de quanto seu modelo pode valer, use suas habilidades de detetive e compare as rodas, os padrões, a cor, decoração, cor dos vidros e outras características com os modelos à venda. A questão é que o poder de compra de outros países costuma ser muito maior que o do Brasil, e por isso é difícil aqui acompanhar o preço internacional.

Entre a imensa maioria de modelos comuns, no Brasil os preços praticados estão entre R$ 16 e R$ 20 reais, um pouco mais ou um pouco menos. Nos Estados Unidos, por exemplo, em qualquer supermercado ou farmácia você encontra Hot Wheels por US$ 1 ou pouco menos.

Também é possível ganhar algum dinheiro (pouco) com os carrinhos Hot Wheels encontrados nas prateleiras das lojas de brinquedos hoje em dia. Esses modelos se dividem em duas categorias. A primeira é conhecida como Treaseure Hunt (TH) e Super Treasure Hunt (STH), versões produzidas em menor escala da Mainline, com pintura especial, rodas diferenciadas, identificadas por um símbolo prateado ou dourado na embalagem por trás dos carrinhos. Não deixam ninguém rico e até chegam a ser desprezadas, mas dão um up em qualquer coleção. Valem três ou quatro vezes o preço de um mainline normal. São carrinhos de edição limitada, inseridos aleatoriamente em caixas de distribuição, que geram algum lucro rápido. Custando no máximo R$ 20, eles geralmente podem ser revendidos por pelo menos R$ 40 ou 60.

O segundo tipo, mais difícil de encontrar, são os carrinhos com defeito (ou “Factory Error”). Como qualquer outro fabricante, a Mattel comete erros por conta da ampla escala de produção. Pegue um Hot Wheels na direção errada (no blister sempre apontam para a direita), na embalagem errada, com a pintura defeituosa etc, e você terá um produto que pode valer um pouco mais. Conforme o erros, podem representar até algumas centenas de reais em valor. Mas cuidado, os falsificadores já estragaram esse mercado.

Resumindo, os Hot Wheels não são exatamente miniaturas de coleção, a não ser em determinadas linhas mais caras e bem acabadas, e séries especiais. São brinquedos que agradam adultos e crianças pelo baixo preço e grande oferta. A reclamação é que produzem muitos carros-fantasia ou com decorações exageradas, mais ao gosto de Las Vegas como vasos sanitários motorizados ou modelos disformes e muito coloridos. Mas esses agradam as crianças, da mesma forma que os da série “Batman” agradam os adultos.

A Matchbox, marca que pertence à Mattel há tempos, é mais cuidadosa e faz reproduções mais fiéis de carros de produção. Entre uma e outra, o que vale é a diversão e a sensação de estar levando para casa um pedaço da história do automóvel.

