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Aposta política de Musk empurrou a Tesla para o abismo

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Você é o sujeito mais rico do mundo, com um patrimônio estimado em mais de US$ 700 bilhões. Controla empresas como a Tesla e a SpaceX, não tem problema algum na vida e está em casa maratonando alguma série da Netflix. De repente, o diabo sopra alguma ideia no seu ouvido: “Vá fazer alguma bobagem e perder muito dinheiro”. E assim foi. O envolvimento político de Elon Musk nos primeiros meses da presidência de Donald Trump, bem como o apoio público a partidos de extrema-direita europeus, desencadeou uma reação negativa entre os consumidores e prejudicou as vendas da marca e seu próprio futuro. Tudo bem que ele tem muito dinheiro para perder e continuar bilionário, mas…

da Redação

Imagem: Led By Donkeys/X

A Tesla, durante mais de uma década, foi líder incontestada do mercado europeu de veículos elétricos, e agora atravessa uma das fases mais difíceis da sua história naquele continente. O envolvimento político de Elon Musk nos primeiros meses da presidência de Donald Trump no ano passado, bem como o apoio público a partidos de extrema-direita europeus, desencadeou uma reação negativa que está penalizando seriamente as vendas da marca.

Depois de anos dominando o segmento dos veículos 100% elétricos, a Tesla registrou uma queda significativa em 2025. O recuo é explicado por uma combinação de fatores, entre os quais o desgaste da imagem de Musk junto dos consumidores, a crescente pressão de dabricantes chineses e uma linha de modelos considerada desatualizada, que se renova em espaços muitolongos de tempo.

Os resultados financeiros confirmam a dimensão da queda. No quarto trimestre de 2025, os lucros da empresa diminuíram cerca de US$ 1,4 bilhões, o que representa queda de 61% face ao mesmo período do ano anterior. Em toda a Europa, incluindo o Reino Unido, as vendas da Tesla caíram 26%, para pouco mais de 238 mil unidades, de acordo com dados da associação europeia da indústria automotiva. Em termos globais, as vendas anuais da Tesla caíram 9% em 2025, totalizando 1,63 milhões de veículos, contra 1,79 milhão em 2024. 

Na Europa, onde ela era muito forte, a análise por mercados locais revela um cenário ainda mais preocupante. Na Alemanha, as vendas da Tesla afundaram 48% em 2025, apesar do mercado de veículos elétricos naquele país ter crescido cerca de 50% no mesmo período. Nos Países Baixos, a previsão aponta para uma queda de 44%.

A dimensão da retração contrasta com o investimento feito pela própria Tesla na Europa. O forte crescimento do mercado levou Musk a investir cerca de US$ 5,9 bilhões na construção de uma gigafábrica nos arredores de Berlim, inaugurada em 2022. Atualmente, surgem relatos de demissões nessa unidade, sinal de que a crise já tem efeitos operacionais.

A queda no mercado europeu contribuiu para uma redução de 3% na receita global da Tesla em 2025, a primeira descida anual da história da empresa. A confiança de muitos investidores começou a se deteriorar quando Musk se tornou conselheiro-chave de Trump e assumiu a liderança do projeto DOGE, criado com o objetivo declarado de cortar custos da administração federal americana. O afastamento posterior de Musk da Casa Branca, após o agravamento da relação com Trump, não foi suficiente para travar o impacto negativo na imagem da marca.

Assim, enquanto a Tesla perde terreno, os concorrentes avançam. A Volkswagen registrou crescimento de 66% nas vendas de veículos elétricos em 2025, depois de anos de investimentos pesados para se tornar competitiva no segmento. As marcas chinesas estão também ganhando espaço, com a BYD aumentando as vendas na Europa em 268% em 2025, aproximando-se rapidamente dos números da Tesla.

A situação da Tesla piorou após Musk ter discursado num comício de um partido de extrema-direita na Alemanha, onde afirmou que aquele país deveria “superar” a sua culpa histórica. Na sequência dessas declarações, o ministro dos Transportes da Polônia apelou a um boicote à marca.

Na França, um grupo de proprietários de veículos Tesla entrou com uma ação judicial contra a empresa, alegando que o vandalismo sofrido pelos carros e a associação pública à marca violavam o princípio legal do “uso pacífico” dos bens adquiridos.

O impacto foi particularmente duro para empresários como Mark Schreurs, que apostou exclusivamente na Tesla ao criar uma empresa de leasing de veículos elétricos nos Países Baixos (Bélgica, Holanda e Luxemburgo). Em 2025, acabou encerrando o negócio. “O comportamento de Musk foi a tempestade perfeita”, resumiu.

Além da política, a Tesla enfrenta críticas pela falta de inovação e renovação. O último modelo convencional lançado foi o Model Y, em 2019. Desde então, a marca limitou-se a atualizações do Model 3 e do Model Y e ao lançamento da Cybertruck, alvo de críticas e piadas, apesar de suas qualidades.

As promessas de um modelo acessível e de veículos totalmente autóòomos continuam na fila. A tecnologia de “Condução Autónoma Total”, como é designada pela empresa, está envolvida em processos judiciais e investigações regulatórias, inclusive nos Estados Unidos, onde as autoridades analisam dezenas de denúncias de infrações rodoviárias.

Apesar disso, Musk anunciou recentemente a suspensão da produção de dois modelos para redirecionar investimentos para robôs-táxi e robôs autônomos, defendendo que os proprietários poderão lucrar ao integrar os seus carros numa futura frota autônoma.

Especialistas mantêm-se céticos quanto à chegada dessa tecnologia no curto prazo, devido às exigências regulatórias de cada mercado. Ainda assim, os investidores continuam confiantes e as ações da Tesla subiram cerca de 2,5% nas negociações pré-mercado após a divulgação dos resultados.


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