ESPECIAL: Fittipaldi Motor Show 1972/1973
No início da década de 1970, o Brasil vivia um momento singular no automobilismo. O País ainda digeria o impacto de ter pela primeira vez um campeão mundial de Fórmula 1 —Emerson Fittipaldi, em 1972 — e o esporte a motor começava a extrapolar o espaço dos autódromos para ocupar o imaginário popular e frequentar acaloradas discussões.
por Ricardo Caruso e Rubens Caruso Junior, fotos de Rogério P.D. Luz

Foi nesse contexto de euforia, orgulho nacional e curiosidade técnica que surgiu o “Fittipaldi Motor Show“, evento que marcou época em São Paulo no final de 1972 e ajudou a redefinir a relação do público brasileiro com o automóvel de competição. O evento se repetiu no início do ano seguinte no Rio de Janeiro (RJ) e Curitiba (PR), em menor escala.



Realizado entre 1972 e 1973, com registros divergentes, o Fittipaldi Motor Show não foi apenas uma exposição de carros ou uma exibição promocional. Foi, acima de tudo, um espetáculo automobilístico, pensado para aproximar o grande público da tecnologia, da performance e do glamour do automobilismo internacional da época, algo ainda raro no Brasil naquele período.






Os registros fotográficos são raros, e um dos mais interessantes que sobreviveu ao tempo foi feito pelo então jovem fotógrafo Rogério P.D. Luz, de São Paulo (SP), apaixonado por automobilismo, que gentilmente autorizou a publicação em AUTO&TÉCNICA. Mais do que simples fotos, é importante documento da trajetória do automobilismo e dos irmãos Fittipaldi no Brasil.


O Brasil de Emerson Fittipaldi
Para entender a importância do evento, é preciso voltar ao impacto que Emerson causou no País. Sua ascensão meteórica na Fórmula 1, culminando com o título mundial pela Lotus em 1972, o transformou instantaneamente em herói nacional. Mais do que um piloto vitorioso, Emerson simbolizava modernidade, competência técnica e a ideia de que o Brasil podia competir —e vencer— no mais alto nível da engenharia automobilística mundial.




O sobrenome Fittipaldi passou a carregar peso institucional. Emerson e seu irmão Wilson Fittipaldi Júnior —junto com José Carlos Pace — antes mesmo da chegada à Fórmula 1 já eram figuras centrais no automobilismo brasileiro, e a criação de um evento com a assinatura dos irmãos era quase um passo natural. O Fittipaldi Motor Show nasceu, portanto, como uma extensão desse prestígio, unindo espetáculo, educação técnica e celebração esportiva.


Um evento inédito para o público brasileiro
O Fittipaldi Motor Show, realizado em São Paulo —em espaço da recém inaugurada Praça Roosevelt— tinha uma proposta ousada para a época. Emerson havia conquistado o título da Fórmula 1 em setembro daquele ano, e em março, Interlagos havia recebido uma prova extra campeonato, o primeiro GP do Brasil da categoria. Na verdade um teste da pista, vencido por Carlos Reutemann. Em vez de limitar-se a corridas formais, o evento apostava em exibições de carros não só de Fórmula 1, mas de diversas categorias, que até então, só eram vistos em revistas estrangeiras.


Monopostos de Fórmula 1 e Fórmula 2, carros de competição nacionais, protótipos e veículos especiais dividiam espaço com uma pista de Autorama. Para a quase totalidade dos visitantes, era o primeiro contato ao vivo com um carro de Fórmula 1. Não apenas estáticos, mas também vez por outra em funcionamento, com o som, o cheiro da gasolina queimada e a agressividade mecânica que nenhuma fotografia conseguia transmitir.


Técnica, espetáculo e pedagogia
Um dos diferenciais mais marcantes do Fittipaldi Motor Show era seu caráter didático. Emerson, Wilson e outros pilotos explicaram ao público conceitos de pilotagem, aerodinâmica, frenagem, “vácuo” e comportamento dinâmico de forma acessível, algo absolutamente inovador no Brasil daqueles anos 1970.


O público aprendia, por exemplo, por que um carro de Fórmula 1 fazia curvas em velocidades aparentemente impossíveis, como funcionavam os pneus slick, a importância do acerto de suspensão e o papel do piloto como parte ativa do conjunto mecânico. Era sem querer uma aula prática de engenharia e física aplicada, apresentada como entretenimento.


Esse aspecto ajudou a formar uma geração inteira de entusiastas, engenheiros, mecânicos e pilotos amadores e profissionais que passaram a enxergar o automóvel não apenas como meio de transporte, mas como máquina de precisão e desempenho. Nessa sequência, Emerson conquistou os vice-campeonatos de 1973 e 1975, o segundo título em 1974, pela McLaren; Wilsinho criou a equipe Fittipaldi de Fórmula 1 e Carlos Pace despontou como eventual campeão. O resto é a maravilhosa história que conhecemos.
Um espetáculo além das pistas
Mais do que os carros, o evento também explorava a personalidade dos pilotos. Emerson Fittipaldi -sempre atencioso e educado, então no auge da fama, aparecia como protagonista absoluto, mas dividia espaço com outros nomes do automobilismo nacional e internacional que por lá passaram. O contato direto com o público, os autógrafos, as entrevistas improvisadas e a proximidade física quebravam a distância entre ídolos e fãs.


Em uma época sem redes sociais, sem lives e com cobertura televisiva limitada, o Fittipaldi Motor Show funcionava como uma janela nunca vista antes para o mundo do automobilismo profissional. Para muitos brasileiros, aquele evento foi o momento em que o automobilismo deixou de ser algo distante, europeu, e passou a ser concretamente brasileiro.
O legado do Fittipaldi Motor Show
Embora o evento não tenha se tornado uma tradição anual consolidada, seu impacto foi profundo, ajudando a pavimentar o caminho para uma cultura automotiva mais madura no Brasil, antecipando conceitos que hoje são comuns em eventos promocionais de grande apelo.



Mais do que isso, o Fittipaldi Motor Show consolidou a imagem de Emerson Fittipaldi como o principal destaque do automobilismo brasileiro, alguém que ia além do cockpit e entendia o esporte como ferramenta cultural, educacional e até industrial. E ainda como um grande negócio.



Em retrospecto, o evento pode ser visto como um retrato fiel de uma era: um Brasil confiante, recém apaixonado por velocidade, disposto a aprender e orgulhoso de seus heróis. Um tempo em que o ronco de um motor de Fórmula 1 ecoando em São Paulo simbolizava algo maior do que performance: simbolizava pertencimento à elite do automobilismo mundial.



