Ford Ranger II Concept Truck 1966: a picape do futuro, há 60 anos
Apresentada no Salão Automóvel de Detroit de 1966, o picape conceito Ford Ranger II chamou atenção na época por duas características principais: a cabine com abertura frontal e bipartida, e pelo compartimento de passageiros expansível, que trocava o espaço da caçamba por mais espaço interior, com um banco traseiro para dois passageiros adicionais.
por Ricardo Caruso

Criada pelo desenhista Syd Mead, que tinha visões futuristas em suas obras — inclusive para o cinema — a Ranger II foi projetada para ser construída sobre o chassi de uma antiga wagon de tamanho normal. Na configuração final, esta picape Ford usava o chassi de uma picape F-250 da marca. O protótipo era equipado com um motor 390 V8 acoplado a uma transmissão automática Ford SelectShift Cruise-O-Matic de três velocidades.
Na configuração para dois passageiros, a Ranger II ostentava uma generosa caçamba de 2,4 metros de comprimento. Esta caçamba apresentava piso de madeira, em nogueira, com trilhos de alumínio, caixas de roda acolchoadas e laterais revestidas de vinil. Para acomodar dois passageiros extras, o motorista da Ranger precisava apenas apertar um botão. Acionado, o pequeno compartimento traseiro do teto da Ranger II deslizava para trás em 45 centímetros, e um par de bancos individuais emergia do piso, assim como painéis laterais com janelas.
A Ranger II, bem equipada, contava com rádio AM/FM e ar-condicionado “SelectAire” da Ford. Como vimos, a picape futurista era impulsionada por um motor Ford FE 390V8 (6,4 litros) com três carburadores. Esta versão com três carburadores gerava 330 cv de potência a 5.000 rpm e 58 mkgf de torque a 3.200 rpm, máximos. O mesmo motor, em uma configuração ou outra, foi usado em vários modelos da Ford entre 1961 e 1971, incluindo algumas versões do Ford Mustang.

Numa primeira análise, seria fácil descartar a Ranger II Concept como apenas uma interpretação extravagante da então em produção picape Ranchero da própria Ford. Mas é preciso reconhecer o mérito da equipe de desenho conceitual da Ford por estar muito à frente do seu tempo, ao perceber que os americanos estavam começando a aceitar picapes como veículos de uso pessoal, e que o espaço para mais de dois passageiros —três, na verdade, já que a maioria das picapes vinha equipada com banco inteiriço nos anos 1960— se tornaria mais adequada ao consumidor no futuro próximo.
A questão é que não encontramos hoje nenhuma evidência de que a cabine com expansão automática realmente era funcional. Parece que a Ford simplesmente transportava protótipos com dois e quatro lugares para os Salões e eventos, e permitia que uma pequena extensão da cabine substituísse a transformação em si de maneira manual.
A picape conceito Ford Ranger II de 1966 tinha visual muito futurista, com para-brisa aerodinâmico bipartido, imensos faróis retangulares de alta intensidade e acabamento da pintura em “Clearwater Aqua”.


Syd Mead criou este projeto com a convicção de que não entraria em produção, mas traria algumas boas ideias para o segmento.
“Este veículo foi projetado para ser montado inicialmente no chassi de uma wagon Ford Galaxie Country Squire de 1963. Era totalmente funcional, com ar-condicionado, rádio e capota conversível. A pequena cabine traseira deslizava para trás, um banco traseiro se desdobrava e uma seção com janela se elevava. Isso significava que, sacrificando o comprimento da caçamba, o veículo se transformava eletricamente de um modelo com banco inteiriço para três passageiros em um sedã/picape compacto para cinco passageiros. O veículo foi usado em eventos por cerca de dois anos“.

De acordo com o press release da empresa: “A Ranger II da Ford é uma picape ultramoderna, com um compartimento de passageiros projetado sob medida. Apresentada como um veículo de dois lugares na foto acima, a Ranger II se transforma em uma picape de quatro lugares (abaixo) com um simples toque. A parte traseira da cabine se move 45 centímetros para dentro da caçamba, enquanto uma seção do teto se eleva e dois bancos individuais adicionais se encaixam. O para-brisa ultra-aerodinâmico da Ranger II é feito de um tipo especial de vidro temperado. Ela também apresenta faróis de alta intensidade com desenho retangular, grade de alumínio extrudado e piso de madeira de nogueira na caçamba“.

O para-brisa ultra-aerodinâmico de vidro temperado especial, os faróis exclusivos de alta intensidade com desenho retangular, o para-choque incorporado, a grade de alumínio e a pintura em “Clearwater Aqua” conferiam ao veículo um visual realmente futurista.

Na configuração “picape para dois passageiros”, a caçamba tinha 1,82 metros de largura e 2,43m de comprimento, o tamanho padrão da caçamba da F-250 daqueles tempos.

O interior totalmente funcional apresentava bancos tipo “concha” e uma série de recursos, incluindo direção hidráulica, volante com ajuste de inclinação, transmissão automática, rádio AM/FM e ar-condicionado SelectAire.

A Ranger II tinha 1,44 m de altura, 5,48 m de comprimento, 2,13 m de largura e 3,04 m de distância entre- eixos. Quando se analisa a história do automóvel, obrigatoriamente pensamos em picapes dos anos 1960, veículos utilitários e robustos, verdadeiros “tratores” que serviam fielmente aos seus donos. Isso foi até o surgimento de picapes como a Dodge Little Red Express (veja aqui), quando elas deixaram de ser vistas apenas como veículos utilitários, sem muita preocupação com conforto ou desempenho.
Em 1966, no entanto, com esta Ranger II, Syd Mead, artista responsável pelos visuais de filmes como “Tron” e “Blade Runner”, entre outros, projetou este conceito de picape para a Ford, completamente maluca e com um visual único.

Depois de suas viagens pelos Estados Unidos, a Ranger II desapareceu para sempre, provavelmente desmontada ou esquecida em algum galão, mas não antes que alguns de seus elementos de desenho fossem incorporados aos futuros modelos Ford Ranchero.
Cultura inútil: o nome Ranger foi usado pela primeira vez pelas Ford na versão de entrada do Edsel (o Edsel Ranger), em 1960. Dez anos antes, a Marmon Herrington, empresa especializada em modificar modelos Ford, tinha uma versão da picape F1 batizada de Ranger. A picape Ford Ranger moderna foi lançada em março de 1983 já como modelo 1984.

