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MINAS GERAIS – Embarque com A&T numa jornada pelas riquezas das Alterosas

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Viajar por Minas Gerais é realizar uma das mais bonitas transições temporais que o turismo brasileiro pode oferecer. Em um roteiro que conecta o coração do Ciclo do Ouro à vanguarda das artes visuais, ladeiras de pedra seculares abrem caminho para espelhos d’água modernos, provando que o Estado sabe acomodar passado e futuro na mesma bagagem.

por Rubens Caruso Junior

A Trilha do Ouro e da Fé

Nossa jornada começou em Belo Horizonte (BH, para os íntimos…). O plano era alugar um VW Tera —carro ainda inédito em nossas páginas, por razões alheias à nossa vontade — e aproveitá-lo para uma avaliação. Quis o destino que o modelo não estivesse disponível no aeroporto de Confins, e acabamos optando por um Renault Kardian, concorrente direto do VW. Mas o tal destino sempre apronta alguma, mais adiante contaremos essa.

Do aeroporto seguimos  direto para Ouro Preto, antiga Vila Rica, onde a névoa matinal molda o contorno do maior acervo barroco do mundo. Caminhar por lá exige fôlego e boas pernas, mas a recompensa está na riqueza de detalhes como na Igreja de São Francisco de Assis, obra de Aleijadinho. “Tem muitas descidas que ajudam”, dirão. Sim, claro. Mas é importante lembrar que, na volta, essas reconfortantes descidas se tornam subidas íngremes e cansativas.

Ouro Preto e suas belas paisagens

Aqui, pedimos licença aos leitores para uma breve digressão, tratando de um assunto especial para nós: a história da nossa família. Para quem não sabe, somos descendentes de grandes artistas pintores, que fizeram história no século passado e cujo talento é amplamente reconhecido inclusive internacionalmente; a história dos nossos tios e avós está contada no site Pintores Caruso. Confira clicando aqui.

Um deles, nosso saudoso tio Salvador Caruso, cumpriu em 1945 e 46 jornada de um ano vivendo em Ouro Preto, retratando em telas, com pincéis e tintas, as principais maravilhas da cidade, o que lhe valeu o título de “O Pintor de Ouro Preto”. Exatas oito décadas depois tivemos a oportunidade de estar nos mesmos locais em que ele colocou o cavalete e gravou sua arte para sempre, em belíssimos tons e perspectivas.

Salvador Caruso retratou a Basílica Matriz de Nossa Senhora do Pilar em 1945.

Anos mais tarde, outros dois saudosos tios, José e Waldemar, também estiveram em Ouro Preto e, num gesto de carinho e saudades do irmão Salvador, que morreu muito cedo, também deixaram alguns registros em tela. Abaixo você confere mais algumas imagens, comparando a pintura original com os locais atualmente. Obrigado!

Aquarela de José Caruso, anos 1970, Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.
Aquarela de José Caruso: Capela do Palácio dos Governadores e Praça Tiradentes ao fundo, anos 1970.
Reprodução preto e branco da obra Chafariz de Marília, de Salvador Caruso. O local vai ser restaurado em breve.
Capela do Bom Jesus das Flores, Salvador Caruso.
José Caruso registrou a Capela de Nossa Senhora do Rosário de Padre Faria, que se encontra em restauração (abaixo).
Óleo sobre tela de Waldemar Caruso

De volta ao volante: bem ao lado de Ouro Preto está Mariana, primeira capital e cidade mais antiga do Estado, convidando a um ritmo ainda mais desacelerado. O grande destaque fica por conta da Praça Minas Gerais, onde as igrejas gêmeas de São Francisco e Nossa Senhora do Carmo dividem a atenção com o imponente casario colonial.

Igrejas “gêmeas” em Mariana

E foi em Mariana que nosso Renault alugado saiu de cena: com pouco mais de 30 mil km apontados no odômetro, o comando de trava das portas (e alarme) na chave parou de funcionar. Não fechava, não abria e trancar direto na chave não resolvia. Levamos o carro à filial da Localiza, que gentilmente tentou resolver trocando a bateria da chave, mas não deu certo. A alternativa foi trocar o carro e — surpresa! — só havia um VW Tera! A versão TSI High saiu-se bem nas antigas e escorregadias ladeiras (“ladeira acima”, não “abaixo”), graças, claro, ao turbo.

Igreja de São Pedro dos Clérigos, em Mariana. Nosso Renault quebrou e ficou por lá.

Sabará revelou-se um tesouro por vezes esquecido pelas grandes rotas. A cidade surpreende pela singularidade da Igreja de Nossa Senhora do Ó, uma pequena joia com influência oriental (as famosas “chinesices”, comuns hoje, nem tanto no século 18) em sua pintura interna. Contemplando o altar, chamou nossa atenção uma certa “falta de esquadro”, tudo parecia meio desalinhado. O zelador explicou: como a igreja não tinha janelas laterais, um padre resolveu mandar abrir uma na parede. Além de destruir algumas obras de arte, afetou a estrutura da igreja, que teve que ser reforçada para não ruir. Dizem por lá que três coisas acabam com as igrejas: os cupins, a água e os padres. A igreja do Ó continua de pé, e sem janelas!

Nossa Senhora do Ó, em Sabará: a riqueza do ouro é constante nas igrejas históricas.

A rota histórica ganha contornos monumentais ao alcançar Congonhas. É lá que a fé popular e a genialidade artística se encontram no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos: a visão dos Doze Profetas esculpidos em pedra-sabão por Aleijadinho, que guardam a entrada da basílica com o pano de fundo das montanhas mineiras, é daquelas imagens que marcam para sempre. Ainda em termos religiosos, em Congonhas nasceu e está sepultado o médium José Pedro de Freitas, o “Zé Arigó”.

Congonhas e os Profetas de Aleijadinho

Salto para a Modernidade

Para quem tem mais tempo, o roteiro pode — e deve — ser estendido para São João del Rey, Tiradentes, Caraça, Barão de Cocais, Brumal e outras localidades, mas isso é motivo para uma próxima viagem

Depois de dias imersos no Brasil dos séculos XVIII e XIX, optamos por uma ruptura estética fascinante ao pegar a estrada rumo a Brumadinho, já na região metropolitana de BH. Ali está o Instituto Inhotim, o maior museu a céu aberto do planeta.

Nas rodovias, um aspecto do VW Tera (também na casa dos 30 mil km rodados) incomodou: sempre usando etanol, nas acelerações mais fortes, como em ultrapassagens, o motor apresentava invariavelmente uma “rajada”, que remetia aos motores antigos em fim de vida ou àqueles carburadores ajustados com mistura pobre. Outro tormento foi a luz indicadora do TPMS, que insistia em apontar falta de pressão no pneu traseiro direito, apesar de devidamente calibrado e sem vazamentos.

Voltando ao passeio, o contraste em Inhotim não poderia ser mais nítido: as igrejas barrocas dão lugar a pavilhões de concreto e vidro assinados por grandes arquitetos; os altares recobertos de ouro são substituídos por instalações artísticas no mínimo provocativas. Tudo isso perfeitamente integrado a um jardim botânico monumental, projetado sob a influência conceitual de Burle Marx.

Inhotim mistura natureza exuberante e obras disruptivas. No detalhe ao alto, os Fuscas “Troca-troca“.

Caminhar pelas trilhas de Inhotim, onde a arte contemporânea brota em meio a palmeiras imperiais e lagos de um verde surreal, funcionaria como um respiro vanguardista para fechar o circuito. Mas tinha mais de Minas Gerais pela frente.

Belo Horizonte: O Coração Vibrante entre a Tradição e o Horizonte


Nenhum roteiro pelas riquezas mineiras estaria completo sem a devida reverência à “Capital das Ladeiras e dos Botecos”.

A imersão na capital Belo Horizonte ganhou contornos de nobreza na emblemática Praça da Liberdade. Ali está o Palácio da Liberdade, antiga sede do governo com sua imponente arquitetura eclética e escadaria belga de ferro fundido. Caminhar sob a alameda de palmeiras imperiais é testemunhar o exato momento em que a Minas colonial se voltou para a modernidade para inaugurar sua nova capital no fim do século XIX.

Palácio da Liberdade

Se o Palácio evoca a história institucional, o Mercado Central traduz a identidade do povo mineiro em sua forma sensorial. Cruzar os corredores desse imenso formigueiro cultural é ser bombardeado por aromas que misturam queijo canastra, doces de tacho e ervas medicinais. O Mercado é um templo da “mineiridade”, onde a parada para bebericar uma boa cachaça artesanal (sem dirigir depois, claro) é quase um ritual obrigatório.

Depois, as linhas sinuosas e quase poéticas das margens da Lagoa da Pampulha, destacando o reflexo das curvas da Igreja de São Francisco de Assis nas águas da lagoa revelando o modernismo brasileiro. O espaço foi concebido em 1946 por Niemeyer, com paisagismo de Burle Marx e painéis de Candido Portinari. O Conjunto Arquitetônico da Pampulha é reconhecido como Patrimônio Cultural da Humanidade, tal como o centro histórico de Ouro Preto ou o santuário de Congonhas, já citados.

Pampulha: impossível não se impressionar com a beleza das linhas.

Para encerrar BH, subimos ao Mirante do Mangabeiras. Situado aos pés da Serra do Curral, o local descortina uma vista panorâmica avassaladora. Ver o sol se despedir atrás das montanhas e do mar de prédios, enquanto a iluminação urbana começa a desenhar o contorno das avenidas, deixa claro por que a cidade recebeu esse nome. Como disse o Papa João Paulo II, “mas que belo horizonte!”

Belo Horizonte: o nome faz todo sentido

Minas Gerais, afinal, entregou nessa viagem duas versões grandiosas de si mesma: a que esculpiu a história nacional na pedra e a que continua desenhando o futuro no horizonte das artes.

E a gastronomia?

Para os comilões, vamos ao que importa. A gastronomia mineira é um verdadeiro patrimônio afetivo, moldada pelo calor do fogão a lenha e pelas tradições do Interior. Seus pratos icônicos, como o frango com ora-pro-nóbis, o feijão tropeiro, o torresmo e o pão de queijo quentinho, transformam ingredientes simples em puro aconchego. Mas gosto é gosto, e há opções para todos, como a culinária italiana, entre outras.

Em Ouro Preto estivemos no Tropea (o Canoli Siciliano com doce de leite de Viçosa é delicioso). No Escadabaixo, provamos o excelente Filé à Brasileira; no Le Chalet a dica é o Pastelzinho de Angu, a Bruscheta Tradicional (porém com queijo canastra!) e a Salada de Tilápia. Gosta de um café especial, daqueles bem pontuados, extraído por quem sabe o que é um bom café? Visite o Café das Flores e o Rena Café.

Salada de Tilápia, Canoli e Café Especial

Em BH, para quem gosta dos tradicionais barzinhos (ou botecos), o bairro Savassi é o destino certo. Dicas de restaurantes: o Xapuri, na Pampulha e o Província di Salerno. Depois, mais umas xícaras de café especial no Elisa Café, OOP Café ou na Academia do Café.

Comer em Minas Gerais é vivenciar uma das identidades culinárias mais ricas, acolhedoras e saborosas do Brasil. Passamos muito bem com pratos a base de tilápia e carne de porco, mas não fugimos de uma boa massa, como nossa origem exige!

Na primeira oportunidade, inclua esse roteiro na história da sua vida.

Agradecimentos especiais: Aldo Araújo (restaurador), Magno Santos (arqueólogo) e respectivas equipes, que permitiram a visita à Capela de Nossa Senhora do Rosário de Padre Faria, onde tivemos uma verdadeira aula sobre o resgate desse tipo de bem histórico.


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