ESPECIAL: a história de John DeLorean, o rebelde de Detroit
John Zachary DeLorean é, provavelmente, um dos personagens mais controversos e polêmicos da história do automóvel. DeLorean personificava o papel de executivo como um ícone da cultura pop da época, algo que muitos em Detroit — e no Brasil — hoje tentam sem sucesso. Numa época em que seus colegas executivos da GM usavam sisudos ternos escuros, camisas brancas engomadas com barbatanas nos colarinhos e abotoaduras, mais gravatas fininhas e discretas, conforme as normas da empresa, DeLorean exibia vistosas costeletas, ternos de corte italiano e gravatas largas e coloridas. Ele pintava os cabelos de preto, namorava supermodelos, tocava saxofone e falava o que pensava, doesse a quem doesse.
por Ricardo Caruso
E nada disso teria sido aceito na vetusta General Motors se ele não fosse muito competente: em nove anos, decolou de assistente do engenheiro-chefe a chefe de marca, tornando-se a pessoa mais jovem a chefiar uma das divisões na GM. Após apenas quatro anos, transformou a adormecida divisão Pontiac, e a GM o promoveu a chefão da Chevrolet.
Os fatos que envolvem a trajetória de DeLorean são bem conhecidos. Ele nasceu em Detroit, Michigan, há 101 anos, em 6 de janeiro de 1925, e era fascinado por carros desde criança. Quando criança, comia, bebia, dormia e sonhava com carros. Grandes, pequenos, rápidos e lentos. Carros de rua e de corrida, sedãs e cupês. Rabiscava os clássicos, desenhava os seus próprios, fantasiava com o dia em que realmente poderia dirigir um. A Segunda Guerra Mundial interrompeu os estudos de John DeLorean; em 1943 foi recrutado para o serviço militar e serviu por três anos no exército dos Estados Unidos.

Após a guerra, John DeLorean continuou estudando e formou-se em engenharia mecânica em 1948, no Instituto de Tecnologia Lawrence (atual Universidade Tecnológica Lawrence) com bacharelado em engenharia mecânica. Mais tarde, em 1952, obteve o mestrado no Instituto Chrysler, seguido por um MBA na Universidade de Michigan em 1956. Seu primeiro emprego na indústria automotiva foi na finada Packard, onde foi contratado como chefe de pesquisa e desenvolvimento enquanto ainda frequentava as aulas noturnas no Instituto Chrysler.

John DeLorean com o seu legendário carro, o DMC-12.

O jovem DeLorean
Em 1956, DeLorean mudou de emprego, contratado pela Pontiac, divisão que estava à beira do colapso, como diretor de engenharia avançada, trabalhando sob o comando do gerente-geral Semon Knudsen. DeLorean subiu rapidamente na hierarquia da Pontiac, registrando até uma patente, pelo powertrain do Tempest em 1961 e foi nomeado o gerente-geral de divisão mais jovem da história da GM, aos 41 anos, em 1965.
Durante sua gestão à frente da Pontiac, DeLorean foi responsável por muitas inovações automotivas, incluindo os populares modelos de bitola mais larga e o primeiro muscle car americano, o Pontiac GTO. Ele também desenvolveu o icônico Firebird, lançado em 1967. Conseguiu com sua obstinação transformar a Pontiac na divisão mais esportiva da GM.
Os aficionados por carros se lembram do jovem John DeLorean ainda pelo desenvolvimento do
Pontiac Grand Prix de 1969 —versão nova e inovadora do modelo que definiu o segmento— e do
Chevrolet Vega, que teve uma jornada mais controversa, mas principalmente pelo Pontiac GTO. Considerado o primeiro muscle car, o modelo nasceu em 1964 como um “pacote” opcional para o Pontiac Tempest, um carro médio, que usava o motor 389V8 (6,4 litros) de seu irmão maior. Ele, e o modelo GTO independente que veio depois, revitalizaram a imagem da Pontiac para os compradores mais jovens e permanece um clássico venerado até hoje.
Na capa da Business Week
Em 1969, DeLorean foi promovido a gerente-geral da maior divisão da GM, a Chevrolet, seguido por outra promoção em 1972 para vice-presidente das operações de carros e caminhões da GM na América do Norte. Era um verdadeiro prodígio.
A fábrica DeLorean
DeLorean acabou deixando a GM em abril de 1973 para criar sua própria empresa de engenharia e liderou brevemente a Aliança Nacional de Empresários, mas seu sonho de longa data era projetar e fabricar sua própria linha exclusiva de carros. Todos tinham certeza de que DeLorean seria o próximo presidente da GM, mas devido a seguidas desavenças com a administração da empresa, ele saiu da GM. Apesar de estar em ascensão meteórica para se tornar presidente da GM, DeLorean ficou frustrado com a burocracia corporativa. Ele desafiou o molde tradicional do executivo de terno e gravata, com um estilo de venda que incomodava os executivos conservadores.
“À medida que crescia na corporação, acho que gradualmente entrei em conflito com ela. Conflito com a filosofia dos negócios. Conflito com o sistema de gestão. E conflito com as pessoas em posições de poder.”
Livre da General Motors, em 24 de outubro de 1975 DeLorean fundou oficialmente a DeLorean Motor Company (DMC), para realizar seu sonho de tornar o DMC DeLorean uma realidade, encabeçando um império de negócios financiado por mais de US$ 170 milhões em investimentos de outras pessoas que acreditaram e apostaram no projeto. Começou contratando os melhores engenheiros e desenhistas do mercado, e construiu sua fábrica em Dunmurry, perto de Belfast, Irlanda do Norte; a fábrica ia ser em Porto Rico, mas a Grã-Bretanha ofereceu mais benefícios.

O primeiro protótipo foi completado em 1976. Contou com a ajuda do genial Colin Chapman, da Lotus, no desenvolvimento principalmente da suspensão do seu carro, e do não menos genial desenhista Giorgetto Giugiaro (o mesmo que criou os modelos BMW Nazca, Lotus Esprit, Volkswagen Golf, Fiat Uno e o novo Fiat Palio, entre outros), da Italdesign Giugiaro. Giorgetto se inspirou num prototipo seu de 1970, o Porsche Tapiro (abaixo). DeLorean planejou estrear o carro em 1979, mas fez sua apresentação só em 1981.

Para criar a sua própria marca, por fim, atraiu também investidores famosos, como Johnny Carson, Roy Clark, Sammy Davis Jr. e o próprio governo do Reino Unido para construir o carro. O DMC-12 foi fabricado em Belfast, Irlanda do Norte, em um terreno cedido pelo governo britânico, e apresentava carroceria de aço inoxidável, portas tipo “asa de gaivota” e um desenho futurista. Tão futurista que acabou sendo uma das atrações da trilogia “De Volta para o Futuro”.

Em outubro de 1976 o primeiro protótipo do DeLorean foi completado por William T. Collins, engenheiro-chefe da DMC (anteriormente engenheiro-chefe da Pontiac); o protótipo foi conhecido como “DSV-1” ou “DeLorean Safety Vehicle”. À medida que o desenvolvimento do carro continuou, o modelo foi denominado “DSV-12” e, posteriormente, “DMC-12”, pois a DMC tinha como objetivo um preço de venda de US $ 12.000 no momento do lançamento.

O primeiro protótipo tinha motor central-traseiro do Citroën CX de quatro cilindros em linha, mas foi considerado pouco potente para o DeLorean. Originalmente, no modelo de produção o motor ia ser um Wankel (também da Citroën), mas foi substituído por um projeto francês chamado PRV (Peugeot-Renault-Volvo), um2.8 V6 com injeção eletrônica, que melhorava a baixa eficiência do motor Wankel, o que foi um aspecto importante devido à escassez de combustível que o mundo inteiro estava sofrendo desde a crise do petróleo de 1973. O motor teve que ser movido da localização central-traseira do protótipo 1 para uma localização traseira no protótipo 2, uma configuração que seria mantida no veículo de produção.

William Collins e John DeLorean imaginaram o chassi produzido com uma nova tecnologia que nunca havia sido testada na indústria, chamada Elastic Reservoir Molding (ERM), o que poderia ter contribuído para reduzir o peso do carro e supostamente também reduziria os custos de produção, mas essa tecnologia para a qual DeLorean havia adquirido os direitos de patente não era adequada para a produção em massa. Além disso, considerou-se que o projeto do carro exigia uma reengenharia quase completa, que foi feita por Colin Chapman. O dono da Lotus substituiu ainda a maior parte dos materiais não testado e das técnicas de fabricação, pelas usadas na época pela Lotus, incluindo um chassi de aço.

Como vimos antes, o carro originalmente ia chamar-se DMC-12 devido ao preço de US$ 12 mil inicialmente planejado para o modelo, mas seu preço de venda acabou sendo de US$ 25 mil e mais US$ 650 se fosse equipado com câmbio automático. Infelizmente, devido a estouros de orçamento e problemas de controle de qualidade, o DMC-12 levou muito tempo para chegar ao mercado e não conseguiu atrair compradores devido ao seu alto preço e desempenho fraco.
O DeLorean DMC-12
Foram fabricadas aproximadamente 9200 unidades do DeLorean entre 1981 e 1982 (alguns carros desse ano foram vendidos como ano/modelo 1983). O último DeLorean foi montado oficialmente em 24 de dezembro de 1982. As baixas vendas e os prejuízos levaram à interrupção da produção do DMC-12 já em 1982. Para levantar mais dinheiro para sua empresa em dificuldades, a história fica nebulosa. DeLorean supostamente se envolveu com o tráfico de drogas. Uma operação secreta do FBI em 1982 flagrou DeLorean em uma negociação milionária de drogas, e ele foi preso.

John DeLorean na capa da revista Time.
Em 16 de agosto de 1984, DeLorean foi absolvido das acusações de tráfico de drogas. Sua equipe de defesa argumentou com sucesso que ele foi vítima de uma armadilha injusta devido às suas dificuldades financeiras. Outros falavam em vingança, por ter desprezado uma gigante da área automotiva…

Há muitas contradições sobre a falência da DeLorean Motor Company. John DeLorean oficialmente caiu em uma armação mal esclarecida e foi acusado pelo informante do FBI, James Hoffman, de se associar com o traficante William Hetrick para traficar cocaína, algo no valor de US$ 24 milhões, como uma suposta tentativa para salvar sua empresa. Ele havia sido preso em 20 de outubro de 1982 num hotel de Los Angeles, e ficou detido num cela da prisão conhecida como “casa de vidro”. Acabou solto poucos dias depois por falta de provas. Em seu julgamento foi declarado inocente, mas a DMC já havia fechado as portas e a sua reputação estava irremediavelmente arruinada.

DeLorean não teve como retornar à indústria automotiva mesmo após o julgamento, mas seu DMC-12, popularmente conhecido como “o DeLorean”, ficou gravado na história da cultura pop como a máquina do tempo dirigida por Marty McFly nos filmes da trilogia “De Volta para o Futuro”.Quando o primeiro filme “Back to the Future” foi lançado em 1985, John DeLorean escreveu uma carta ao produtor Bob Gale, agradecendo-o por usar seu carro no filme.

O DeLorean ganhou a merecida fama por sua aparição como uma máquina do tempo na trilogia dirigidos por Robert Zemeckis e estrelados por Michael J. Fox e Christopher Lloyd. A principal razão pela qual o DeLorean foi escolhido foi porque o modelo estava idealmente previsto para a cena com a família de fazendeiros que o confundem com uma nave espacial no primeiro filme. A transformação do DeLorean na máquina do tempo foi projetada por Ron Cobb, Michael Scheffe e Andrew Probert.

Durante as filmagens da trilogia, seis unidades do DeLorean foram usadas, além de um modelo de fibra de vidro em tamanho real para simular os voos no ar, e outro em escala para filmar várias tomadas. Os DeLorean usados em “Back to the Future” tinham o motor V6 original (cujo som no filme vem de um motor V8 de Porsche 928). Em “Back to the Future III” foram utilizadas duas unidades equipadas com motores e chassi de Fusca, e em uma terceira unidade foram colocados explosivos para destruí-la no final do filme, quando um trem atinge a máquina do tempo e a destrói.

Somente três dos seis carros usados nos filmes ainda existem. A Universal Studios possui dois dos carros restantes, que usa de vez em quando em exibições ou para outras produções. O último DeLorean, usado em “Back to the Future III”, foi restaurado e foi leiloado em 2011, sendo vendido por US$ 541.200. Quanto vale hoje?
A A absolvição de John DeLorean na primeira página do Detroit Free Press
Voltando ao criador. Em 1 de novembro de 1994, John DeLorean registrou a patente de nº 5.359.941com o Escritório de Patentes e Marcas dos Estados Unidos para um monotrilho de transporte, que nunca foi construído.
Nos anos anteriores à sua morte, DeLorean até planejou ressuscitar a empresa de automóveis e deu entrevistas descrevendo um novo veículo, chamado DMC-24. Depois, iniciou estudos para o DeLorean Alpha2. De acordo com a família, ele passou muito tempo em seus últimos anos trabalhando nestes novos projetos, que não foram adiante.

Acima, o DMC-24, e abaixo o Alpha2, que não se concretizaram.

Em 1999, DeLorean declarou falência pessoal após mais de 40 casos judiciais desde a quebra da DeLorean Motor Company. Em 2000, ele teve que vender a sua casa num terreno de 2 milhõs de m2; a propriedade, em Bedminster, New Jersey, acabou sendo adquirida por Donald Trump, onde foi construída uma das instalações do “Trump National Golf Club”, local que visita frequentemente mesmo depois de se tornar presidente dos Estados Unidos.

Na época de sua morte, DeLorean estava trabalhando no projeto de uma empresa conhecida como DeLorean Time, que fabricaria e venderia relógios de pulso de alta qualidade, mas seu falecimento a morte causou a dissolução da empresa.
Não há dúvidas sobre seu talento e genialidade. É uma pena para a história do automóvel que ele tenha sido forçado a jogar tudo fora, com seu comportamento e problemas pessoais. Imagine se John DeLorean tivesse conseguido controlar seus excessos e se concentrado em continuar produzindo carros melhores, esportivos e empolgantes para a General Motors?
John DeLorean faleceu aos 80 anos no Hospital Overlook em Summit (New jersey) na noite de 19 de março de 2005, aos 80 anos, devido a um acidente vascular cerebral. Suas cinzas foram enterradas no cemitério White Chapel, em Troy (Michigan), a pedido de sua família e, de acordo com a tradição, ele foi sepultado com todas as honras militares por seus serviços na Segunda Guerra Mundial. Sua lápide mostra o DeLorean DMC-12 com as portas “asa de gaivota” abertas.

Em 1997, um inglês chamado Steve Wynne comprou os direitos da DeLorean Motor Company, um estoque de peças e um armazém da mesma em Houston, no Texas, e desde então restaura e vende carros da DeLorean, ajudando a manter vivo o legado de genial executivo.
John DeLorean não era apenas um inconformista; ele era um idealista. E isso pode ter custado seu sonho. “Na General Motors, a preocupação com o impacto de nossos produtos em nossos diversos públicos nunca foi discutida, exceto em termos de custo ou potencial de vendas”.
