Blog dos Caruso

Passo atrás: a Ford quer ter novamente uma linha de veículos na Europa

Compartilhe!

Quando a Ford anunciou há alguns anos que iria focar sua produção apenas em SUVs e picapes (mais o Mustang), deixando de lado os sedãs, cupês e wagons, muitos lembraram do ditado popular que sugere “não colocar todos os ovos numa cesta só”. E assim foi. Agora é correr atrás do prejuízo.

por Ricardo Caruso

Depois de anos ignorando seus clássicos sedãs e carros compactos da mesma forma que o diabo foge da cruz, a Ford está repensando e considera retornar ao mercado de carros “normais” na Europa. Sim, aqueles com um porta-malas de verdade ou mesmo wagons. Se analisarmos os nomes que a marca eliminou nos últimos anos, encontraremos modelos ilustres e que sempre foram bem cotados, como Fusion, Mondeo, Focus , Fiesta, Ka, Galaxy e muitos outros.

Assim, o resultado é o que todos que entendem minimamente de carros e mercado -exceto a Ford- anteciparam: as vendas caíram, a participação de mercado diminuiu e, no fim das contas, ver um Ford novo na rua hoje (que não seja um SUV ou picape) é mais difícil do que dar de cara com um unicórnio. Agora, tudo indica que a tradicional marca, quer mudar isso. No Brasil, o último Ford nacional saiu de linha há cinco anos, em janeiro de 2021, e já era um SUV…

Na apresentação dos resultados mais recentes, o chefão da Ford, Jim Farley, deixou escapar a frase: “existem planos empolgantes para a Europa no segmento de carros de passeio”. A Europa com suas cidades de trânsito complicado, ruas estreitas, concorrência chinesa e foco no baixo consumo de combustível, não é exatamente o melhor terreno para picapes e SUVs. Mas ainda assim a Ford sinaliza que não vai se precipitar em nada. Farley também disse que vão atuar “com muita cautela nos segmentos em que são fortes “. Em outras palavras, não vão vender carros a preços baixos e nem competir -também em preço- com os chineses. Se entrarem em um mercado, é porque enxergaram potencial de lucro.

A Ford já avisou suas concessionárias na Europa que vários modelos novos chegarão em 2027. Mas não comemore muito, porque esses modelos não serão exatamente ícones ou nomes legendários da história da empresa. A Ford vai eletrificar e hibridizar seus veículos, mas não com tecnologia própria. A marca não quer jogar esse jogo sozinha e está contando com parceiros para reduzir custos e tempo de desenvolvimento, então poderemos ter mais modelos Ford fabricados pela Volkswagen, outros fabricados pela Renault e até mesmo alguns fabricados pela chinesa Geely. Sinal dos tempos.

Eles já colaboram entre si em veículos elétricos, então poderíamos ver um compacto hatch baseado na tecnologia da VW, algo como o ID.3 , mas com um visual diferente, ou seja, mesma base, frente modificada. Uma espécie de Autolatina dos novos tempos.

A Ford também já assinou um acordo com a Renault para lançar dois modelos desenvolvidos pela empresa francesa. O primeiro chegará em 2028 e utilizará a plataforma Ampere (elétrica). É aqui que a coisa começa a ficar interessante para a Ford. Há rumores de um possível acordo com a Geely para fabricar carros na Espanha. A Geely tem as marcas Volvo, Lotus, Polestar, Zeekr, Lynk & Co, Geely Auto (e suas submarcas como Geely Galaxy), Proton, Radar Auto (focalizada em picapes elétricas) e LEVC (London Electric Vehicle Company), mais 26,4% da operação da Renault no Brasil, entre outros. O objetivo da Geely em produzir carros na Espanha é evitar as desesperadas tarifas europeias sobre carros chineses e aproveitar fábricas já existentes.

Não há ainda confirmação oficial dessa parceria, mas se isso se concretizar, poderá ser uma guinada muito séria para os planos da Ford. Resumindo, deixar o mercado de carros de passeio vazio, sem produtos, tem pesadas consequências. Enquanto a Ford apostou tudo em SUVs e picapes e abriu mão do grosso do mercado, outras montadoras —especialmente as chinesas— vêm preenchendo esse espaço com carros eletrificados cada vez mais baratos e eficientes. Se fosse futebol, de repente você abandonou a Série A e foi jogar na várzea… E agora tem que remar muito pata voltar para a elite.

A verdade é que a Ford é muito grande, importante e presente na história do automóvel, e merece ideias melhores vindas de seus dirigentes, que passam enquanto a marca permanece.


Compartilhe!