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Reencarnação: novo Citroën 2CV será elétrico e custará 15 mil euros (R$ 85 mil)

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O Citroën 2CV está para a França assim como o Fusca está para o Brasil, o Ford T para os Estados Unidos e o Fiat 500 para a Itália. Foi apresentado no Salão de Paris em 7 de outubro de 1948 e terminou sua jornada em 27 de julho de 1990, na fábrica de Mangualde, em Portugal. Assim, 78 anos depois de seu lançamento, irá regressar do mundo dos carros mortos como veículo elétrico, ainda simples e uma missão muito clara e desejada pelo mercado: tornar a mobilidade elétrica acessível -inicialmente- a todos os europeus.

por Ricardo Caruso

Este foi o grande lançamento do Salão de Paris 2026. O Citroën 2CV está voltando como 100% elétrico e vai custar apenas 15 mil euros, o equivalente a R$ 85 mil. O carrinho foi apresentado ainda sob a forma de um conceito, mas antecipa muito do que vamos encontrar no modelo de produção, que será apresentado no próximo ano, com lançamento previsto para 2028. O sucesso foi grande entgre o público e jornalistas especializados mais saudosos.

Barato (para os padrões europeus), compacto, versátil e com muita personalidade, o novo 2CV respeita muitas das características do modelo original, mas completamente adaptado aos desafios modernos. Por ser um carro retrô, é atemporal, nostálgico, e chamou muita atenção.

Dizer que o Citroën 2CV é um daqueles carros que marcou época na história do automóvel é redundância. Foi apresentado em 1948 como vimos, após a II Guerra Mundial, e ficou no mercado durante mais de 40 anos, até 1990, com mais de cinco milhões de unidades vendidas mundo afora.

Bastante raro no Brasil, tornou-se um verdadeiro ícone em muitos mercados, mesmo que esse nunca tenha sido o seu objetivo. Nasceu com a missão de colocar França sobre rodas no pós-guerra, em especial a França rural, dando liberdade para as pessoas trabalharem e se deslocarem a preço e custo baixos.

No briefing original, o caderno de encargos do 2CV original trazi que ele tinha que ser um carro com espaço para transportar quatro pessoas, chegar aos 60 km/h, levar um saco de batatas de 50 kg e uma cesta de ovos, que teriam de chegar intactos ao destino. As estradas e vias eram ruins, e a suspensão tinha que ser minimamente confortável para cumprir essa última missão.

Resumindo: era um carro que capaz de atender às necessidades do dia a dia naqueles tempos difíceis, mesmo sendo acessível, fácil de manter e simples de dirigir. A Citroën atendeu a isso com o 2CV, e o que veio depois é história.

A verdade é que tudo neste mundo mudou muito nos últimos 78 anos, e os desafios atuais de mobilidade são diferentes. Mesmo assim, a missão do quase renascido 2CV não é tão diferente assim daquela do modelo original.

O público mundial, em especial o europeu, perdeu muito poder de compra nos últimos anos, em especial depois da pandemia, e assim existem cada vez menos pessoas interessadas ,ou com dinheiro sobrando, para comprar carroa novoa. Até 2019 vendia-se cerca de um milhão de carros na Europa por valores abaixo dos 15 mil euros; em 2024 foram vendidos apenas 90 mil carros novos nessa faixa de preço.

A Citroën quer mudar esse jogo e aposta nesse grande mercado, anunciando o preço-base de apenas 15 mil euros para o novo 2CV, que estará alinhado com o novo regulamento europeu dos E-Cars. No portfólio da marca, deverá se posicionar entre Ami (classificado como quadriciclo) e o ë-C3. O projeto E-Car (oficialmente conhecido como M1E) é uma iniciativa da União Europeia e de montadoras como a Stellantis para criar carros elétricos compactos, inovadores e acessíveis no continente, contornando a dependência dos carros chineses. Entre os principais detalhes do projeto estão exigências como veículos 100% elétricos, com menos 4,2 metros de comprimento e fabricados inteiramente na Europa

Por isso mesmo, o 2CV se apresenta agora como um modelo bastante compacto —apenas 3,76 m de comprimento— e vai pesar apenas 1000 kg. Por ser tão leve, não irá necessitar de uma bateria maior, o que significa menos custo e, por consequência, preço menor.

A Citroën não adiantou qualquer especificação sobre a parte elétrica que vai equipar este novo 2CV. Não falou nem do motor elétrico, nem da bateria e nem da autonomia. Limitou-se a explicar apenas que o modelo terá uma “autonomia ajustada para o uso diário”.

Deixando de lado o que a marca não detalhou, basta observar as imagens desse protótipo: gostamos muito daquilo que a Citroën apresentou. O 2CV tinha um desenho tão particular que a Citroën não precisou agora exagerar nas antigas referências de estilo para criar a imediata conexão. Preservar as proporções e apenas refinar as linhas fez boa parte do trabalho.

Facilmente todos reconhecem o projeto como uma visão retrô de um 2CV moderno e atemporal, tudo na dose certa de mesclar o novo e o velho. Não é um exercício muito exagerado de desenho retrô, mas o carro é imediatamente identificado, com o equilíbrio essencial para se tornar um sucesso e despertar boas memórias afetivas.

Um dos detalhes importantes desse trabalho foi acertar o ângulo da linha final de teto. Testaram várias silhuetas diferentes e no fim perceberam que era só mudar ligeiramente o ângulo de caída do teto para que o modelo deixasse imediatamente de se parecer como uma cópia do modelo original.

A traseira ajuda a acentuar a linha de teto, que tem uma cobertura em tecido que pode ser recolhida, e a tampa é pintada de preto e se estende até o para-choques, tudo como no modelo original. Mas o maior impacto é quando se observa de frente o modelo.

Mantém os faróis -agora com leds- destacados sobre os para-lamas, como antigamente, bem como o capô muito trabalhado, com vincos que remetem ao primeiro 2CV, limpadores de para-brisas expostos e aberturas de ar móveis.

Citroën 2CV entradas de ar

Já de perfil, além da linha de teto já explicada, importante destacar as maçanetas, feitas de alumínio, os paralamas muito proeminentes, os piscas (tecnicamente conhecidos como luzes indicadoras de direção…) integrados na coluna traseira e as rodas de aço de 18’ polegadas, calçadas com pneus Michelin que recuperam um logotipo antigo da marca.

Nos últimos anos, observamos os carros recebendo cada vez mais tecnologia, penduricalhos decorativos e também mais luxo, o que, apesar de apreciado pelos consumidores, nem sempre são recursos utilizados. Para este projeto a Citroën ignorou tudo isso e procurou restaurar o exercício de simplificação que tinha aplicado há 78 anos no 2CV original.

Citroën 2CV interior

Por dentro, a marca tentou fazer a cabine reduzida parecer maior e mais espaçosa, ao remover quase todo o painel. Umas base cilíndrica reúne volante, os poucos comandos físicos e um “Smart Vision Display”, que projeta informações diante do motorista. Há também uma tela touch screen quadrada, de oito polegadas, com grafismos inspirados em histórias em quadrinhos, criados pelo cartunista belga Jean-Luc Delvaux. O aparelho de som é inspirado num acessório de época do 2CV original e há até um cesto de piquenique, que faz as vezes de uma console central.

Os bancos são largos e usam a tecnologia “Advanced Comfort” da Citroën, enquanto o assento do passageiro se estende para que seja possível esticar as pernas durante uma parada. O conceito também traz teto de lona dobrável, cestos de armazenamento removíveis (transportar ovos como no original, lembra?), sistema de áudio removível e puxadores de porta em tecido.

A Citroën diz que os porta-objetos das portas foram projetados para transportar ovos, referência ao clássico e inesquecível briefing que antecedeu o projeto do carro original. O resultado é o interior minimalista, com espaço para quatro ocupantes. Os bancos são revestidos de tecido e com estruturas simples em metal. Podem ser homologados por conta da segurança? Sim, basta lembrar da solução aplicada no primeiro Citroën Cactus.

Citroën 2CV bancos traseiros

Tal como no antigo 2CV, a coluna de direção fica completamente exposta, ao mesmo tempo que o volante, apesar de exibir desenho moderno e um raio apenas, não conta com qualquer tipo de comando integrado.

A alavanca de câmbio do modelo original basicamente continua lá, vindo de baixo do painel, mas agora serve para acomodar o botão Start/Stop e os comandos da transmissão.

O detalhe mais curioso -ou será “fofinho”?- está escondido nos forros das portas. Trata-se de um suporte para ovos, homenagem a uma das funcionalidades do modelo original. É só um detalhe, mas que faz imaginar como os desenhistas da Citroën se divertiram ao criar este novo 2CV.

Citroën 2CV ovos porta

Parece difícil que o modelo de produção mantenha todas essas referências. Mas uma coisa é certa: a simplicidade será sempre mantida, não só por nostalgia pura, mas por se relacionar direto com os custos de produção. E manter o preço base de 15 mil euros é obsessão, e nesse caso, não há milagre.

É certo que ainda se trata de um protótipo e que só durante o próximo ano ficaremos a conhecer a versão de produção. Mas a missão na base do novo 2CV está há muito definida: criar um modelo simples, versátil e acessível, que consiga responder aos desafios de mobilidade diários e que consiga levar a eletrificação a um número mais vasto de clientes europeus, que nos últimos anos perdeu poder de compra.

Citroën 2CV pneus michelin
© CitroënAté a Michelin resolveu entrar na festa e recuperar o logótipo que usou entre 1936 e 1968.

A expressão just enough, ou “apenas o necessário”, expressa bem aquilo que a marca pretende oferecer com este futuro elétrico, que vai contra quase tudo o que temos visto recentemente na indústria automóvel.

Numa altura em que os carros estão maiores, mais pesados, mais complexos e mais caros do que nunca, o 2CV propõe-se a ser simples, pequeno (é mais curto que o original), leve e barato. E isso, só por si, é notícia.


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