TESTE: Leapmotor C10 REEV
Sem ansiedade com a autonomia
A indústria automotiva em nível mundial vive um momento de transição, em que os carros eletrificados deixaram de ser uma promessa distante para se tornarem realidade concreta, ou seja, saíram da ficção científica e chegaram à realidade. Mas ainda existe uma barreira psicológica importante para muitos consumidores que precisa ser rompida: o medo de ficar sem carga na bateria. É justamente nesse espaço que surge o Leapmotor C10 REEV, SUV médio chinês que aposta em uma solução técnica diferente da adotada pelos híbridos convencionais.
por Ricardo Caruso

O C10 REEV não é exatamente um híbrido tradicional e menos ainda um elétrico puro. Trata-se de um REEV (Range Extender Electric Vehicle), conceito no qual o carro é sempre movimentado pelo motor elétrico, enquanto o propulsor a combustão atua exclusivamente como gerador de energia para alimentar a bateria. Em outras palavras: o motor 1.5 a gasolina nunca traciona as rodas. E nem precisa.
Na prática, isso faz com que o C10 REEV tenha comportamento de carro elétrico o tempo todo —aceleração rapidíssima, silêncio ao rodar em baixa velocidade, ausência de trocas de marcha e entrega linear de torque— tudo isso sem a limitação típica de autonomia dos EVs tradicionais, algo ainda preocupante, ainda mais se a infra-estrutura não for adequada.

O resultado é um dos projetos mais interessantes vindos da nova geração de fabricantes chineses. Acredite, a marca foi criada m 2015 e vendeu seus primeiros veículos em 2019. Muito menos tempo, por exemplo, do que a General Motors do Brasil precisou para colocar nas ruas o hatch disfarçado de SUV Sonic. Em 2023, a Stellantis adquiriu uma participação de 20% na Leapmotor e já está vendendo aqui no País modelos da marca. A Leaapmotor focaliza seu trabalho em SUVs elétricos e híbridos com tecnologia avançada, e preços competitivos, com o SUV C10, 100% elétrico ou REEV, como o que AUTO&TÉCNICA avaliou, e o B10, com produção local sendo planejada.

Desenho e dimensões: porte de SUV premium
Visualmente, o C10 REEV adota uma linguagem de estilo minimalista, alinhado com modelos europeus atuais. Há elementos aqui e ali que lembram os Tesla, Volvo e até Porsche em alguns ângulos, especialmente pela dianteira limpa, pelas superfícies lisas e pela assinatura luminosa horizontal na traseira.


O porte impressiona. São 4,74 metros de comprimento, 1,90 m de largura, 1,68 m de altura e generosos 2,82 m de distância entre-eixos. Isso o coloca direto na faixa de SUVs médios, como Renault Mégane E-tech, BYD Song Plus DM-i, GWM Haval H6 PHEV, Tesla Model Y (não vendido aqui) e Volkswagen ID.4 (disponível para locação), entre outros

O desenho deste SUV privilegia a aerodinâmica e a eficiência energética. As maçanetas embutidas ajudam a reduzir arrasto, enquanto a linha de teto suavemente inclinada para trás dá ao modelo aparência sofisticada sem comprometer o espaço traseiro.

As rodas de 20 polegadas devidamente calçadas com pneus Dunlop 245/45-20 preenchem bem os para-lamas e reforçam a presença visual do modelo.

Plataforma e engenharia
O ponto mais importante do C10 REEV está em sua concepção estrutural. Diferente de muitos híbridos, que são adaptações feitas em carros a combustão, ele nasceu sobre uma plataforma (a Leapmotor 3.0) desenvolvida especificamente para veículos elétricos. Isso faz toda diferença e muda completamente o comportamento dinâmico do modelo. Resumindo, é um carro elétrico que subiu um degrau acima em direção aos híbridos.

A bateria fica instalada sob o assoalho, reduzindo o centro de gravidade e melhorando a distribuição de peso. O resultado é um SUV que transmite sensação de estabilidade superior à maioria dos híbridos tradicionais. Claro que o excelente conjunto de rodagem ajuda nesse quesito.

A suspensão utiliza arquitetura independente nas quatro rodas, com McPherson na dianteira e Multilink na traseira. Muitos acreditam que os SUVs eletrificados chineses tem sempre a calibragem das suspensões voltada ao conforto. Até acontece, mas nem sempre é assim. Uma boa surpresa ao rodar com o Leapmotor C10 foi o correto acerto de suspensão e o ajuste da direção. Ele roda com a mesma desenvoltura de um Jeep Commander, por exemplo, bem equilibrado nas curvas, confortável nos pisos ruins. O C10 é o modelo que tem o melhor acerto de rodagem nessa nova onda de chineses que estão desembarcando aqui.

Em uso urbano, os ajustes específicos para o Brasil atendem de excelente maneira o conforto. Mesmo cm pneus aro 20 largos (245/45), as suspensões absorvem de maneira correta as irregularidades e atua com suavidade impressionante, considerando ainda o peso próximo de duas toneladas (1.976 kg). Nas estradas, o comportamento absolutamente neutro e a tração traseira são sempre previsíveis e não causam sustos. Não tem foco na esportividade raíz, mas o trabalho que foi feito nas suspensões, muito refinado, impressiona. Aliás, esse refinamento se observa em cada detalhe do carro. O C10 REEV é um SUV projetado para oferecer -na dose certa- eficiência com conforto, e ainda suporta bem uma direção mais entusiasmada.

Com o conhecimento e know how que a Stellantis tem do mercado brasileiro, o C10 vendido na China é um carro diferente do vendido na Europa, que são diferentes dos que chegaram no Brasil. Iss significa tratar as características de cada mercado com seriedade e sem vícios.
O sistema REEV
No seu sistema REEV está a grande diferença tecnológica do C10. O conjunto mecânico combina motor elétrico traseiro de 215 cv de potência máxima, torque máximo de 32,6 mkgf instantâneo, bateria LFP de 28,4 kWh com o motor 1.5 aspirado a gasolina funcionando como gerador






O motor elétrico é sempre responsável pela tração e o motor a combustão apenas produz eletricidade. Isso significa que a sensação ao volante é sempre de um elétrico puro. Não há mudanças perceptíveis de marcha, nem vibração típica de transmissão CVT encontrada em muitos híbridos. A entrega de torque é imediata, o silêncio em baixa velocidade impressiona e a condução urbana é extremamente suave.


Desempenho: rápido sem ser esportivo
Em termos de desempenho, os números apontam para a aceleração de zero a 100 km/h em 8,5 segundos e velocidade máxima de 170 km/h, limitada. Embora não seja um esportivo, como dissemos antes, o desempenho é mais do que suficiente para uso familiar e em viagens.


O torque instantâneo faz o carro arrancar firme em semáforos e retomadas. Nas ultrapassagens, a resposta imediata do motor elétrico transmite segurança. O comportamento em rodovias também surpreendeu positivamente. Mesmo em velocidades elevadas, o isolamento acústico permanece muito bom.

A única situação em que o refinamento máximo diminui é quando o motor a combustão entra em funcionamento para recarregar a bateria sob demanda mais intensa. Nesses momentos, é possível ouvir o quatro-cilindros trabalhando baixinho em rotações constantes. Ainda assim, o nível de ruído permanece muito inferior ao da maioria dos híbridos tradicionais que já avaliamos.
Autonomia: o destaque
O grande trunfo do C10 REEV é a autonomia. A bateria de 28,4 kWh permite rodar aproximadamente 145 km em modo puramente elétrico (ciclo WLTP), o que muitas vezes é suficiente para se deslocar de casa para o trabalho e retornar, sem problemas. No uso urbano real, isso significa que muitos proprietários poderão passar dias —no nosso caso, 10— sem consumir gasolina.

Quando a carga da bateria diminui, o motor 1.5 entra em ação automaticamente, atuando como gerador, ampliando a autonomia total para algo entre 950 km a 1.000 km combinados. Também comprovamos isso na prática.
É justamente essa característica que transforma o C10 REEV numa alternativa extremamente racional para mercados onde a infraestrutura de recarga ainda é limitada, como é o caso do Brasil.
Consumo e eficiência
Em teoria e na prática, o sistema REEV é extremamente eficiente porque o motor a combustão trabalha em rotações otimizadas apenas para gerar energia. Os números apontam cerca de 20 km/litro de gasolina em uso combinado, ou 20,5 kWh/100 km no modo elétrico. Os números reais variam conforme o perfil de utilização, modo de dirigir do motorista eu demanda de equipamentos elétricos.

Quem recarrega frequentemente em tomadas -o bocal da esquerda é para a recarga elétrica e o da direita, para gasolina- e usa o carro predominantemente na cidade, consegue números de consumo extremamente baixos da gasolina. Já em viagens longas, com bateria descarregada e uso intenso do gerador, o consumo se aproxima de um SUV médio econômico a combustão. Com tudo isso, o sistema continua sendo mais racional do que a maioria dos híbridos plug-in convencionais.
Bateria LFP: durabilidade e densidade energética
O C10 REEV utiliza células de bateria LFP (Lithium Iron Phosphate, ou Lítio, Ferro e Fosfato). Essa química possui vantagens importantes, como:
- maior durabilidade
- menor degradação
- maior resistência térmica
- menor risco de incêndio
- custo reduzido
Em contrapartida, oferece densidade energética inferior às baterias NMC (níquel, mangânes e cobalto) usadas em alguns elétricos premium. Porém, para um REEV, essa escolha faz total sentido. Como existe um gerador a gasolina embarcado, a prioridade não é autonomia gigantesca exclusivamente elétrica, mas sim robustez e confiabilidade.

Interior: minimalismo e tecnologia
O interior segue a tendência chinesa atual de eliminar praticamente todos os botões físicos, um tanto quanto Bauhaus. O painel é dominado ao centro por uma enorme central multimídia de 14,6 polegadas, enquanto o quadro de instrumentos aposta em visual mais limpo e simplificado, pouco maior que um smartphone dos grandes (10,25 polegadas).





Todos os controles passam pela tela maior, e por isso a ergonomia exige alguma adaptação: desde ajustar retrovisores, acertar a altura dos faróis, a iluminação interna ou as saídas de ar-condicionado e áudio, tudo depende exclusivamente da tela, eliminando os botões físicos. Existem atalhos programáveis junto ao volante e no teto, mas a dependência do visor é grande. Como o carro tem muitos recursos e itens disponíveis, pode até parecer complicado no início, mas no segundo dia você entende a lógica e estará achando tudo muito divertido.
O acabamento surpreende positivamente e é simplesmente impecável. Há materiais macios, iluminação ambiente e sensação de espaço muito acima do esperado para a faixa de preço do modelo. O espaço no banco traseiro é excelente, graças ao longo entre-eixos. Três adultos viajam ali com folga para pernas e cabeça. O porta-malas oferece cerca de 435 litros, podendo chegar a mais de 1.300 litros com os bancos rebatidos.

Tecnologia e conectividade
Como falamos antes, a lista de recursos e equipamentos é bem longa, maior mesmo do que muitos modelos de preço e categoria acima. A “chave”, por exemplo, é um cartão plástico. Para destravar ou travar as portas, basta aproximá-lo do retrovisor esquerdo. Para dar a partida, basta colocar o cartão no console. Excelente para matar de inveja aquele ser muitas vezes insuportável que chamamos de “cunhado”. Confira:
Conectividade e Tecnologia
- Central Multimídia: Tela de 14,6 polegadas de alta definição (Leap One).
- Painel de Instrumentos: Tela digital de 10,25 polegadas.
- Atualizações: Suporte para atualizações remotas (OTA).
- Chave: Uso de cartão NFC para destravar e ligar.
Conforto e Acabamento
- Teto: Panorâmico de vidro de 2,1 m² com cortina elétrica.
- Bancos: Dianteiros com ajustes elétricos, aquecimento e ventilação.
- Som: Sistema “Theater Sound System” 7.1 com 12 alto-falantes, incluindo subwoofer.
- Climatização: Ar-condicionado Dual Zone.
- Espaço: Com 4,73m de comprimento e 2,82 m de entre-eixos, destaca-se pelo espaço interno. ]
Segurança (L2 ADAS)
- Câmeras: 360 graus.
- Assistência: 12 sensores de alta precisão para direção autônoma de nível 2.
- Recursos: Alerta de colisão frontal (FCW), alerta de tráfego cruzado traseiro com frenagem (RCTA/RCTB) e alerta de fadiga com câmera voltada para o motorista.
Funcionalidades Extras
- V2L (Vehicle to Load): Permite usar a bateria do carro para alimentar dispositivos externos (220V/3.300W).
- Rodas: Aro 20 com pneus 245/45.
- Porta-malas: 435 litros (REEV)

Recarga: boa no DC
O carregamento rápido DC chega a 65 kW, permitindo recuperar de 30% a 80% da bateria em aproximadamente 18 minutos. Já no carregamento AC existe um ponto fraco importante: a potência limitada de cerca de 6,6 kW em algumas versões pode exigor até seis horas de carga. Isso pode tornar recargas residenciais mais lentas do que em alguns concorrentes.
Conclusão
A lém do C10 REEV, a marca comercializa o C10 BEV, 100% elétrico. O BEV tem preço sugerido de R$ 189.990 e oferece “pacote” completo de assistência e conforto. Entre os itens estão sete airbags, controle eletrônico de estabilidade e tração, frenagem automática de emergência, alerta de colisão frontal, detecção de ponto cego, alerta de tráfego cruzado traseiro, assistente de permanência em faixa, piloto automático inteligente, câmeras 360º com função de “carro invisível”, e modos de condução Eco, Conforto, Esportivo e Personalizado. O modelo conta ainda com a central a multimídia Leap One de 14,6”, painel digital de 10,25”, som Theater Sound System 7.1 com 12 alto-falantes, teto panorâmico de 2,1 m², bancos dianteiros elétricos, aquecidos e ventilados, ar-condicionado dual zone, carregador de celular por indução, função Vehicle to Load (220V / 3.300W) e conectividade 4G com atualizações remotas (OTA). Mas isso será assunto para outra avaliação.
Já o REEV, que avaliamos aqui, tem preço sugerido de R$ 219.990. O Leapmotor C10 REEV talvez seja um dos carros mais inteligentes surgidos recentemente no mercado mundial. Ele carrega praticamente toda a experiência de condução de um veículo elétrico puro, mas elimina a principal preocupação de muitos consumidores, que é a menor autonomia.

Em termos técnicos, o projeto é muito interessante, pois evita a complexidade eletro-mecânica dos híbridos convencionais. Não existe câmbio tradicional nem atuação direta entre motor térmico e rodas. Tudo funciona como um grande modelo elétrico com gerador embarcado.
O resultado é refinamento técnico e construtivo elevado, excelente conforto, muito espaço interno e eficiência impressionante. É um passo adiante na eletrificação. Há o respaldo da Stellantis, a rede de concessionárias está em implantação e seguem os planos para que os Leapmotor sejam fabricados aqui. Ao invés de quebrar a cabeça e gastar rios de dinheiro, a Stellantis se associou a uma marca absurdamente nova, sofisticada e cheia de tecnologia. O resultado está aí.
Em termos de garantia, os Leapmotor tem quatro anos de garantia total para o veículo (ou 100.000 km) e oito anos (ou 160.000 km) para a bateria de tração. A cobertura pode ser estendida por até seis anos com um plano adicional.
Do ponto de vista do desenvolvimento, construção e engenharia, o C10 REEV reforça com clareza que os fabricantes chineses deixaram de apenas copiar concorrentes globais e passaram a propor soluções próprias, algumas delas extremamente inteligentes, como as aplicadas neste C10 REEV. Vale a pena? Sim, e muito.
