Como a Renault trabalhou para os nazistas
A relação da Renault com o regime nazista é um dos capítulos mais estranhos e tristes da história da indústria automotiva europeia. O tema envolve colaboração industrial dos franceses mesmo sob ocupação nazista, alegada necessidade de sobrevivência econômica, acusações de cooperação com o inimigo e, posteriormente, punições políticas severas no pós-guerra. Para compreender o caso de forma equilibrada, é necessário separar três períodos distintos: o contexto anterior à guerra, a ocupação alemã da França entre 1940 e 1944 e as consequências após a libertação dos franceses. O resultado: Louis Renault morreu na cadeia e a empresa foi estatizada.
por Ricardo Caruso

A Renault antes da Segunda Guerra
A Renault já era, nas décadas de 1920 e 1930, uma das maiores fabricantes industriais da Europa. Fundada por Louis Renault em 1899, a empresa havia crescido bastante durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), produzindo caminhões, motores aeronáuticos e o famoso tanque Renault FT, um dos blindados mais importantes do conflito.
Nos anos 1930, a França viveu forte polarização política. A ascensão do fascismo na Europa, em especial entre Itália, Espanha, Portugal e Alemanha; o crescimento dos movimentos comunistas e a radicalização sindical criaram um ambiente explosivo naquele continente. Louis Renault era conhecido por suas posições conservadoras, nacionalistas e profundamente antissindicais. Ele entrou em choques frequentes com a Frente Popular francesa, liderada por Léon Blum, especialmente após as grandes greves operárias de 1936.
Louis Renault nasceu em 12 de fevereiro de 1877, em Paris. Era o quarto dos seis filhos dos ricos fabricantes de tecidos e botões Alfred e Berthe Renault. Louis, sempre foi fascinado por engenharia e mecânica, e desde criança passava horas observando os detalhes do carro a vapor Serpollet e os motores Panhard no barracão de uma das casas da família, em Billancourt. Em 1899, aos 22 anos, construiu seu primeiro carro, o tipo A. Contratou uma dupla de operários para transformar um triciclo usado De Dion-Bouton, com motor arrefecido a ar e potência de 1,75 cv, em um veículo leve e com capota.

O pioneiro Renault chegava aos 35 km/h e usava eixo cardã articulado e caixa de câmbio com três marchas para a frente e ré. A terceira marcha era direta, sistema que ele patenteou um ano depois, e já havia volante de direção, outro avanço em uma época em que quase todos os carros usavam uma barra. Renault chamou seu carro de Voiturette, ou “carrinho”. Em 24 de dezembro de 1898, ganhou uma aposta com seus amigos, de que sua invenção poderia bater um carro com corrente de transmissão até o aclive da Rue Lepic, em Montmartre, bairro de Paris, onde fica a Basílica de Notre-Dame.


No alto, o motor De Dion-Bouton e, acima, o câmbio de três marchas patenteado, do primeiro carro Renault.
Com a vitória nessa aposta, Renault recebeu 13 encomendas para o seu veículo. Vendo o potencial comercial, juntou-se a Fernand e Marcel, dois irmãos mais velhos, que tinham experiência empresarial com seu pai. Eles formaram a Renault Frères (ou Irmãos Renault) em 25 de fevereiro de 1899. Embora no período a maioria dos carros existentes usasse sistema de transmissão por corrente, como nas motos e bicicletas, Renault se recusou a empregar esse sistema e produziu todos os seus carros com cardã. Por outro lado, um passo atrás: os primeiros carros feitos em série por Renault voltara a usar uma barra no lugar do volante.
Embora frequentemente acusado de flertar com os fascistas, não existem provas oficiais de que Louis Renault fosse membro do partido nazista ou ideologicamente alinhado ao nacional-socialismo alemão. Porém, ele admirava e acompanhava de perto modelos industriais autoritários, defendia forte disciplina operária e mantinha relações pragmáticas com empresários alemães antes da guerra, algo relativamente comum entre grandes industriais europeus daquela época.
A invasão da França e a ocupação alemã
Tudo mudou em 1940, após a fulminante invasão da France pela Alemanha durante a “Batalha da França” (10 de maio a 25 de junho de 1940), durante a II Guerra Mundial, quando a França e os Países Baixos foram tomados pelos nazistas. Paris caiu, e boa parte da indústria francesa passou a operar sob controle direto ou indireto alemão.
As fábricas da Renault, especialmente o gigantesco complexo de Billancourt, tornaram-se um ativo estratégico para os ocupantes. Os alemães exigiram que a empresa produzisse caminhões e veículos para a Wehrmacht, palavra em alemão que significa literalmente “força de defesa”. O termo foi a denominação oficial das forças armadas da Alemanha entre os anos de 1935 e 1945, compreendendo o período do regime nazista e a Segunda Guerra Mundial.
Louis Renault recusou inicialmente à fabricação de tanques para os alemães, mas aceitou produzir caminhões e equipamentos mecânicos. Aqui reside o centro de uma discussão histórica: teria a Renault colaborado voluntariamente com os nazistas ou apenas tentado sobreviver sob ocupação? Em ambos os casos, seria sempre algo discutível e imoral.
Produção para o esforço de guerra alemão
Durante a ocupação (que se encerrou em maio de 1945), a Renault produziu milhares de caminhões (em espacial os AHN) e tanques utilizados pelas forças alemãs, seja fabricados para eles, seja simplesmente confiscados. A produção industrial francesa estava submetida a rígido controle do ocupantes, e qualquer recusa nesse caso significava confisco, deportação e/ou destruição das instalações.

Os ardorosos defensores de Louis Renault argumentam que ele tentou proteger a empresa e seus trabalhadores, evitando que as suas fábricas fossem desmontadas e levadas para a Alemanha. Segundo essa interpretação, colaborar parcialmente seria uma estratégia de sobrevivência industrial.

Já por outro lado, os críticos -também fervorosos- afirmam que a Renault foi além do mínimo necessário e cooperou economicamente com o regime nazista de maneira significativa. O fato de a empresa continuar operando e gerando produção valiosa para os alemães tornou-se um símbolo da colaboração industrial francesa para com os nazistas.
Bombardeios aliados contra a Renault
A importância estratégica das fábricas da Renault levou os Aliados a tratá-las como alvo militar legítimo. Em 1942 e 1943, a britânica Royal Air Force bombardeou pesadamente o complexo de Billancourt.

Os ataques causaram enorme destruição e milhares de vítimas civis entre trabalhadores e moradores da região. Ironicamente, uma empresa francesa acabou devastada por bombardeios britânicos justamente porque produzia para os alemães…
Esses bombardeios demonstram como a Renault havia se tornado parte relevante da máquina logística nazista, do ponto de vista militar aliado.
Louis Renault e as acusações de colaboração
Após a libertação da França iniciada em 1944, iniciou-se uma intensa onda de “épuration”, ou seja, processo de “limpeza” de colaboradores do regime nazista e do governo da “França de Vichy” de Philippe Pétain. A França de Vichy -ou “França Colaboracionista”- foi o Estado francês liderado pelo marechal Pétain. Recebeu o nome da sua sede de governo, a cidade de Vichy. Oficialmente independente, mas com metade do seu território ocupado, adotou uma política de colaboração com os nazistas. Embora Paris fosse nominalmente a sua capital, o governo estabeleceu-se na cidade turística de Vichy, uma espécie de “zona franca” desocupada, onde permaneceu responsável pela administração civil da França, bem como de suas colônias. Foi preso e faleceu na cadeia, em 1951, enquanto aguardava julgamento.
Louis Renault foi preso em setembro de 1944 sob acusação de colaboração econômica com o inimigo. Sua situação rapidamente ganhou enorme repercussão política e popular. Para muitos franceses, ele simbolizava a elite industrial que teria lucrado enquanto o país estava ocupado e em guerra. Entretanto, o empresário jamais chegou a ser julgado. Poucas semanas após sua prisão, morreu em circunstâncias no mínimo estranhas na prisão de Fresnes, em outubro de 1944. A certidão de óbito indica envenenamento generalizado, provavelmente devido à falta de tratamento adequado aos problemas de ureia de que sofria. A família alegou tortura e maus tratos. A ausência de julgamento formal alimentou décadas de disputa histórica e jurídica.
A estatização da Renault
Logo após a morte de Louis Renault, o governo provisório liderado por Charles de Gaulle tomou uma decisão histórica: a empresa foi confiscada pelo Estado francês.
Em janeiro de 1945 nasceu oficialmente a Régie Nationale des Usines Renault (Administração Nacional das Fábricas Renault), tornando a Renault uma empresa estatal francesa. Diferente de outras empresas acusadas de colaboração, a Renault foi a única grande fabricante francesa efetivamente nacionalizada como punição direta.
A medida tinha ainda forte simbolismo político. O novo governo desejava demonstrar rigor contra colaboradores do nazismo e, ao mesmo tempo, reconstruir a indústria francesa sob controle estatal.
Os herdeiros de Louis Renault passaram décadas tentando reverter judicialmente esta decisão, alegando que a nacionalização ocorreu sem julgamento e violou princípios legais básicos. O debate reapareceu diversas vezes na política francesa ao longo do século XX e início dos anos 2000.
A reconstrução e a transformação da empresa
Apesar do trauma da guerra, a Renault tornou-se peça central na reconstrução econômica da França do pós-guerra. Sob administração estatal, a empresa lançou modelos fundamentais para a motorização popular europeia. Também colocou nas ruas modelos esquecíveis…
O mais importante foi o pequeno 4CV, apresentado ainda nos anos 1940. Curiosamente, o projeto começou clandestinamente durante a ocupação alemã, sem autorização dos ocupantes nazistas. Depois vieram modelos icônicos como o Dauphine, o Renault 4 e o Renault 5, que consolidaram a marca globalmente.
Ao longo das décadas seguintes, a Renault transformou-se numa das maiores montadoras do mundo, expandindo-se pela Europa, América Latina (inclusive Brasil) e outros mercados.
O debate histórico contemporâneo
Mas o desgastante envolvimento da Renault com os nazistas continua tema entre historiadores. Hoje, a interpretação predominante é mais profunda e tende a evitar simplificações.
A realidade da ocupação alemã na França foi extremamente complexa. Muitas empresas colaboraram em algum nível porque a alternativa podia significar destruição completa, execução dos dirigentes ou tomada direta pelos alemães. Ao mesmo tempo, houve empresários que resistiram mais intensamente, sabotaram produção (como a Citroën) ou auxiliaram a Resistência Francesa.
No caso da Renault, os fatos centrais são relativamente claros:
- a empresa produziu veículos para os alemães;
- suas fábricas tornaram-se estratégicas para a Wehrmacht;
- Louis Renault foi acusado de colaboração;
- ele morreu antes de julgamento;
- a empresa foi nacionalizada como punição política.

O que permanece em debate é o grau de voluntariedade dessa colaboração e até que ponto Louis Renault tinha real liberdade de escolha sob ocupação nazista.
O legado histórico
A história da Renault durante a Segunda Guerra Mundial ilustra os dilemas morais enfrentados pela indústria europeia sob regimes totalitários. O caso mistura pragmatismo empresarial, sobrevivência econômica, ocupação militar, pressão política e justiça pós-guerra.
Também revela como grandes corporações podem se tornar instrumentos involuntários —ou voluntários— de regimes autoritários em períodos extremos. Vai das necessidades e interesses.
Hoje, décadas depois, a Renault ainda carrega esse pavoroso capítulo em sua memória institucional, embora hoje a marca seja mais lembrada pela inovação automotiva, pela Fórmula 1 e pela tentativa de expansão global, do que pelo passado sombrio da ocupação nazista na França.
Hoje, a Renault é uma empresa de capital aberto, e portanto, não pertence a uma única pessoa ou família, mas sim a um grupo de grandes acionistas. A estrutura societária principal da marca é composta da seguinte forma:
- Governo Francês: É o maior acionista individual, detendo cerca de 15% do capital da empresa.
- Nissan: A montadora japonesa possui aproximadamente 15% das ações, como parte da aliança estratégica que inclui também a Mitsubishi.
- Investidores Institucionais e Públicos: Os 65% restantes das ações formam o chamado free float, negociadas livremente na bolsa de valores Euronext Paris por fundos de investimento (como BlackRock e Goldman Sachs) e pelo público geral.
- Vale destacar que, no mercado brasileiro, a Geely (gigante automotiva chinesa) adquiriu recentemente 26,4% da operação da Renault do Brasil, criando uma colaboração estratégica.
