VW pode converter fábrica para produção de armas para Israel
Jornal britânico diz que a Volkswagen está em negociações para produzir peças de sistema antimíssil para Israel em uma fábrica que está sendo desativada na Alemanha. Empresa não confirma, mas diz explorar “opções viáveis”…
da Redação
Uma reportagem do jornal britânico Financial Times afirma que a Volkswagen está em negociações com a Rafael Advanced Defense Systems, empresa israelense de defesa, para uma possível colaboração que envolveria adaptar uma unidade de produção de carros para a fabricação de equipamentos militares .
da Redação

A reportagem exclusiva do jornal -que cita pessoas familiarizadas com o plano- destaca que as empresas planejam converter a fábrica da Volkswagen em Osnabrück, na Alemanha, que atravessa dificuldades, em uma unidade de produção de componentes para o sistema de defesa aérea “Domo de Ferro” da estatal israelense.
Um porta-voz da Volkswagen disse em resposta a uma consulta feita pela imprensa alemã que “a produção de armas pela Volkswagen continua descartada para o futuro, e não fazemos especulações sobre planos futuros para a unidade de Osnabrück”. No entanto, com a fábrica programada para encerrar sua produção em 2027, o porta-voz disse que a empresa “continua explorando opções viáveis” e conversa com vários “atores do mercado”.
“Isso faz parte de um processo de revisão aberto para o período posterior a 2027”, disse o porta-voz. “Atualmente, não há decisões ou conclusões concretas sobre o rumo futuro da fábrica. Também estamos mantendo os funcionários locais informados sobre o andamento desse processo”.
A Volkswagen ainda avalia o que fazer com cerca de 2,3 mil funcionários na fábrica de Osnabrück, no Estado da Baixa Saxônia, desde a decisão de 2024 de encerrar a produção lá até 2027. Em setembro passado, a VW decidiu reduzir a semana de trabalho em um dia na fábrica como parte de medidas mais amplas de redução de custos.
A fábrica de Osnabrück produz o T-Roc Cabriolet, bem como os modelos Cayman e Boxster sa Porsche. A VW disse que a empresa ainda busca maneiras de continuar produzindo veículos no local no futuro. Segundo o “Financial Times“, a Rafael e a VW poderiam começar a produzir dentro de 12 a 18 meses
“A fábrica da Volkswagen em Osnabrück desenvolveu vários conceitos de veículos nos últimos meses para explorar potenciais oportunidades e perspectivas de mercado”, disseram. “Se, e em que medida isso resultará em projetos concretos, ainda não se sabe”.
No início do mês, o Grupo Volkswagen anunciou que planeja cortar 50 mil empregos na Alemanha até 2030, após os lucros atingirem seu nível mais baixo em uma década. As montadoras europeias têm enfrentado uma série de desafios nos últimos anos, desde dificuldades associadas à eletrificação dos veículos até falta de componentes e o aumento da concorrência da China.
O chefão da marca alemã, Oliver Blume, disse recentemente aos acionistas que o Grupo Volkswagen, que detém as marcas Volkswagen, Porsche, Skoda e Audi, entre outras, “opera em um ambiente fundamentalmente diferente”.
De acordo com a reportagem do Financial Times, o plano visa salvar todos os 2,3 mil empregos em Osnabrück. O artigo cita uma das pessoas familiarizadas com os planos, que disse que “o objetivo é salvar a todos, talvez até crescer. O potencial é enorme. Mas também é uma decisão individual dos trabalhadores se eles querem fazer parte dessa ideia”.
O relatório acrescenta que o governo alemão apoia ativamente o plano. O governo federal não tem participação na Volkswagen, mas a Baixa Saxônia detém quase 12% das ações e 20% dos direitos de voto.
Se confirmada, a parceria entre a Volkswagen e a Rafael Advanced Defense Systems seria o maior exemplo até agora de uma grande empresa industrial mudando seu foco de negócios tradicionais para o setor de defesa, que está em plena expansão.
Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022, as empresas de defesa europeias dobraram e, em alguns casos, até triplicaram de valor. Enquanto isso, os governos europeus estão aumentando os gastos militares, com os Estados-membros da União Europeia tendo gasto quase R$ 2,4 trilhões em defesa somente em 2025.
Até o momento, a Volkswagen não se voltou para a área de defesa. Sua subsidiária Man fabrica caminhões militares em parceria a gigante alemã de defesa Rheinmetall. No entanto, se os planos com a Rafael Advanced Defense Systems forem confirmados, representarão o maior comprometimento da Volkswagen com a indústria bélica desde que produziu veículos e bombas para os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. De acordo com a reportagem do Financial Times, a fábrica produziria veículos militares e outros componentes para o sistema de defesa antimíssil Domo de Ferro, mas não os próprios mísseis.
Com a indústria automotiva e outros setores industriais na Europa e na Alemanha enfrentando atualmente diversas dificuldades, uma mudança para setor com recursos abundantes e pronto para investimentos governamentais vem se tornando cada vez mais atraente.
Paolo Surico, professor de economia da London Business School, especializado em inovações no setor de defesa, afirmou que a mudança das empresas para a indústria armamentista é crucial para que o aumento dos gastos com armamentos proporcione benefícios econômicos mais amplos. Ele, no entanto, alertou que a burocracia e as longas esperas para que as empresas recebam as licenças necessárias para produzir para o setor de defesa podem complicar o processo.
Hans Christoph Atzpodien, da Associação Federal Alemã da Indústria de Segurança e Defesa, concorda com essa observação. Ele disse ao canal Deutsche Welle que, embora as qualificações dos trabalhadores da indústria automotiva geralmente atendam aos requisitos das empresas de defesa, os requisitos de requalificação e de autorização de segurança podem atrasar o processo.
“Os prazos para a emissão dessas autorizações estão longe de ser rápidos o suficiente para permitir a transição rápida e relevante do pessoal. Surico também observou que é importante que a produção permaneça aberta a várias empresas, em vez de uma única grande companhia, para que uma transição mais ampla de setores como a indústria automotiva para que a defesa possa funcionar.
“Conceda a mesma licitação, o mesmo contrato, a várias empresas, em que cada uma explore sua vantagem comparativa ao longo da cadeia de suprimentos”, disse o economista à DW. “Cada uma pode explorar essa vantagem comparativa e, portanto, tornar a produção mais eficiente e os benefícios econômicos mais disseminados”. No entanto, segundo uma pessoa envolvida com as discussões, um possível obstáculo pode ser convencer os trabalhadores a aceitarem a mudança para a produção de armas.

