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TESTE: Ram Rampage R/T 2026

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A sigla R/T é uma das mais icônicas da indústria automotiva americana, profundamente ligada à história da Chrysler e, especialmente, da marca Dodge. Tornou-se legendária no Brasil com os Dodge Charger R/T produzidos entre 1971/1981, com motor 318V8. Seu significado — “Road/Track” (rua/pista) — resume perfeitamente a proposta que acompanha esses modelos desde o fim dos anos 1960: carros eficientes tanto no uso cotidiano quanto em desempenho esportivo mais agressivo. Foi usada pela primeira vez no Dodge Coronet R/T 1967 e hoje pertence à Stellantis.

por Ricardo Caruso

Assim, a Rampage R/T, lançada em 2023, é a segunda picape nacional (a primeira da marca Ram) com o selo esportivo R/T. A primeira foi a Dodge Dakota R/T, produzida aqui entre 2000 e 2002. Nos Estados Unidos, a Dakota R/T com motor 5.9V8 foi feita entre 1998 e 2003. Como vimos, a sigla R/T surgiu oficialmente em 1967, no auge da era dos muscle cars nos Estados Unidos. Pouco depois, a designação se consolidaria em ícones como Dodge Charger R/T e Dodge Challenger R/T. Para que nãmo lembra, existiu até um Dodge Stratus — velho conhecido dos brasileiros — R/T, com motor turbo, exclusivo para o mercado mexicano.

Naquela fase, o R/T não era apenas um pacote estético. Ele indicava motores mais potentes (geralmente V8 big-block), suspensão retrabalhada, freios mais eficientes e aprimorados, e elementos visuais exclusivos. Era, na prática, um selo de performance legítima. Os tempos mudaram e, ao longo de quase 60 anos, a sigla R/T evoluiu, mas nunca perdeu sua essência. Seu significado hoje pode ser resumido em três pilares: herança muscle car, desempenho sob controle e identidade esportiva mais acessível. Mais do que um simples emblema, o logo R/T se tornou um símbolo cultural dentro da história da Chrysler/Dodge, algo imediatamente reconhecível pelos entusiastas.

A sigla R/T nasceu em uma era de excesso e potência bruta, sobreviveu a períodos de crise e adaptação, e hoje representa um equilíbrio moderno entre desempenho e usabilidade. Em modelos atuais como a Ram Rampage R/T 2026, que AUTO&TÉCNICA avaliou, ela prova que ainda é possível carregar esse legado histórico, mas agora reinterpretado para novos mercados e novas demandas, mas mantendo o espírito original de “Road & Track”: ir bem tanto nas ruas (e estradas…) quanto, simbolicamente, nas pistas.

A linha 2026 da Ram Rampage R/T (R$ 259.900 de tabela) reforça o posicionamento que, até pouco tempo atrás, parecia improvável: o de uma picape média com comportamento e proposta claramente esportiva. Em um segmento dominado por robustez e versatilidade, a divisão Ram da Stellantis decidiu apostar em emoção ao volante, e o resultado merece uma análise profunda, que você acompanhará a seguir.

A Rampage R/T não faz questão de esconder sua proposta. O visual é marcado por uma dianteira mais agressiva, com grade escurecida, detalhes em preto brilhante e elementos exclusivos que reforçam o visual esportivo. As rodas de liga leve aro 19, com desenho específico e bem calçadas, preenchem bem os arcos dos para-lamas e ajudam a transmitir robustez sem exageros.

Na traseira, o destaque fica para as lanternas escurecidas e com leds, e o duplo escapamento funcional —elemento raro nesse segmento— que não está ali apenas por estética: ele “conversa” diretamente com o conjunto mecânico e traz um som quase intimidador. O conjunto visual é equilibrado e não perde a elegância. Não há exageros típicos de versões “esportivadas” superficiais; a decoração esportiva é bem disposta e os logos R/T estão por todos os lados e interior. Aqui, a esportividade é real, e isso se confirma ao rodar.

Debaixo do capô encontramos o conhecido motor 2.0 turbo Hurricane a gasolina (em breve chegará a versão flex), um dos mais modernos da Stellantis. Trata-se de um quatro cilindros com injeção direta e turbo, capaz de entregar números bastante expressivos para a categoria. Não é um V8 ou V6, mas não decepciona em momento algum. A potência máxima é de 272 cv e o torque máximo de 40,8 mkgf. Trabalha com o câmbio automático de nove marchas e a tração é integral sob demanda (AWD).

Na prática, isso se traduz em acelerações excelentes para uma picape média e retomadas de velocidade sempre prontas. A Rampage R/T não apenas despacha outras picapes, como acompanha SUVs turbo médios e frequentemente os supera. Ela acelera de zero a 100 km/h em 6,9 segundos e atinge 220 km/h de velocidade máxima. 

O conjunto mecânico é bem ajustado e com tudo muito bem calibrado. O câmbio trabalha de forma suave em condução urbana, mas responde com rapidez quando exigido. Em modo esportivo (tecla R/T no painel), as trocas ficam mais curtas e o motor se mantém em rotações mais elevadas, explorando melhor o torque disponível.

Antigamente havia um anúncio de pneus que dizia que “potência não é nada sem controle”, e a Rampage desenterrou essa máxima. O grande diferencial da Rampage R/T está na dinâmica. Construída sobre uma plataforma monobloco —compartilhada com modelos como o Jeep Compass— a picape apresenta um comportamento muito mais próximo de um SUV do que de uma picape tradicional daquelas com chassi e longarinas. Tudo está realmente sob controle, com boa estabilidade em curvas; conforto mesmo em pisos irregulares, menor rolling (rolagem) de carroceria e direção mais precisa

A suspensão independente nas quatro rodas faz toda a diferença. Em uso urbano, absorve bem as imperfeições. Em estrada, transmite confiança mesmo em velocidades mais elevadas. A RAM Rampage R/T 2026 traz suspensões recalibradas com foco esportivo, oferecendo maior estabilidade e condução mais firme, ideal para o asfalto. Essa versão esportiva conta com ajuste exclusivo, pneus 235/55-19 de alto desempenho (com selante interno) e melhorias no isolamento acústico, que se traduz em maior conforto.

Apesar da proposta esportiva, a Rampage não abre mão da versatilidade. Em trechos de terra e uso fora de estrada leve, o sistema de tração integral garante segurança e controle, embora não seja uma picape focada em off-road extremo. Mesmo esportiva, mantém vão livre elevado, com 26,4 cm de altura do solo entre os eixos. 

Por dentro, a Rampage R/T confirma o seu posicionamento de veículo mais sofisticado da linha e mata de inveja as demais picapes nacionais. O acabamento utiliza materiais de boa qualidade, com destaque para: revestimentos em material sintético que imitam couro e camurça com costuras em vermelho, painel digital configurável, central multimídia vertical de grandes dimensões e som premium Harman Kardon com 10 alto-falantes e subwoofer.

A ergonomia é bem resolvida, com comandos intuitivos e boa posição de dirigir. O espaço interno é adequado para a categoria, com muito bom conforto para quatro ocupantes e uso aceitável do quinto passageiro. A lista de equipamentos é ampla e inclui: sete airbags [dianteiro, lateral dianteira, cortina dianteiro e traseiro e de joelho para motorista], sensor de chuva, sensor de estacionamento dianteiro e traseiro, sistema de alerta de saída de faixa com assistente ativo e centralização, detecção de tráfego traseiro cruzado, monitoramento de ponto cego, monitoramento de pressão dos pneus, sistema eletrônico de mitigação de rolagem da carroceira, piloto automático adaptativo, frenagem automática de emergência e ar condicionado bizone, entre outros.

Se por um lado o desempenho impressiona, por outro o consumo não é exatamente o ponto forte, algo esperado em um modelo com essa proposta e que ostenta a sigla R/T. Em uso urbano, os números ficam na média das picapes turbo a gasolina. Em estrada, com condução moderada, há melhora significativa, beneficiada pelas relações longas do câmbio de nove marchas. No consumo urbano, ficamos na faixa dos 7,9 km/litro de gasolina, e na estrada fomos a 10,2 km/l.

O tanque de combustível de 55 litros garante autonomia razoável, tornando a Rampage viável para viagens longas, desde que o motorista dose o pé direito. Autonomia urbana é de aproximadamente 470 km, e rodoviária, de 560 km.

A Rampage R/T tem 5,028 metros de comprimento, 1,886 m de largura, 1,780 m de altura, 2,994 m de entre eixos e 26,4 cm de vão livre do solo. Como comparação, a Fiat Toro tem 4,945 m de comprimento, 1,849 m de largura, 1,677 m de altura, entre-eixos de 2,982 m e vão livre de 21,1 cm. O ângulo de entrada da R/T é de 25o e o de saída de 24,5o. O peso é de 1.917 kg.

Embora o foco da versão R/T seja a esportividade, esta Rampage não deixa de ser uma picape. O aumento nas medidas tem um bom efeito visual e cresce de maneira discreta a capacidade da caçamba, que vai para 980 litros ou 1.015 kg.

A caçamba atende bem ao uso urbano e ao lazer, é revestida e tem “capota marítima”. Aqui vai uma curiosidade: o sistema de abertura da tampa da caçamba da Toro, que é bipartido e com abertura lateral, não foi aplicado na Rampage. A Ram usa um sistema tradicional, com abertura para baixo, mas com a conveniente trava elétrica, abertura à distância e movimentação leve, graças ao uso de amortecedores.


Conclusão

A Rampage 2026 R/T não é apenas a versão topo de linha da Ram nacional. Ela representa uma mudança de paradigma dentro do segmento de picapes médias no Brasil. Seu maior mérito está em entregar desempenho acima da média, comportamento realmente esportivo, dirigibilidade refinada, visual interessante e interior tecnológico e muito bem acabado.

Não é obviamente a escolha racional para quem busca economia ou uso severo. Por outro lado, é obviamente racional para quem quer uma picape com comportamento esportivo e uso predominantemente urbano/rodoviário, onde ela se torna a opção mais interessante do mercado.

No fim das contas, a Rampage R/T cumpre exatamente o que sugere e promete: transformar a experiência ao volante de uma picape em algo mais próximo de um carro esportivo, sem abrir mão da versatilidade.


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