Chrysler Thunderbolt 1941, o revolucionário carro certo na hora errada
Com desenho futurista para a época e uma série de recursos eletro-eletrônicos, como capota rígida retrátil, vidros elétricos ou faróis escamoteáveis, o Chrysler Thunderbolt foi uma maravilha da engenharia apresentada em 1941 e que impressiona até hoje. Atualmente, dezenas de carros de exposição ou conceitos são apresentados em todos Salões de Automóveis mundo afora. É consenso que essa tendência foi iniciada pela General Motors e seu legendário desenhista Henry J. Earl, com o Buick Y-Job de 1938. Apenas três anos depois, a Chrysler seguiu os passos de seus rivais da velha Detroit com o Thunderbolt, um carro realmente de tirar o fôlego.
por Ricardo Caruso

A ideia por trás deste veículo (e mais um outro modelo de capota dupla, que se tornaria o conceito Newport) nasceu em 1939, e o homem por trás dele foi Alex Tremulis, um jovem e promissor desenhista que apresentou seus esboços futuristas a Ralph Roberts, o chefe da fabricante de carrocerias LeBaron. Roberts ficou extremamente impressionado com o que viu e conseguiu marcar uma reunião com o presidente da divisão Chrysler, Dave Wallace, bem como com o principal homem da corporação, o chefão KT Keller.

Igualmente impactados com a proposta, os dois executivos aprovaram o projeto e concordaram em fornecer à LeBaron não apenas a verba, mas também todo o ferramental e componentes da Chrysler que o fabricante de carrocerias necessitasse. O trabalho no carro começou em 1940 e a primeira tarefa foi fabricar a carroceria. Ao contrário dos modelos anteriores da Chrysler, como o Airflow, ele empregou no modelo um desenho minimalista e simplificado, que se concentrou na eficiência aerodinâmica ao invés de uma combinação atraente de formas arredondadas. Exceto pelo capô de aço e pela tampa do porta-malas, toda a estrutura foi feita de alumínio leve.




Embora seu motor fosse montado na dianteira, o carro de exposição não apresentava grade frontal, e ar fresco era levado para o radiador por meio de duas aberturas largas escondidas sob o para-choque. Isso foi feito para melhorar o fluxo de ar e reduzir turbulências, ideia que também levou Tremulis a criar um sistema elétrico que cobria os faróis quando eles não estivessem em uso. Outro uso inteligente da eletrônica foram os interruptores que permitiam aos ocupantes destravar e abrir as portas. No entanto, sua característica mais impressionante veio na forma de um teto rígido totalmente retrátil, que transformava o cupê em um conversível com o toque de um botão.

A grande atração do Thunderbolt era a engenharia aplicada no acionamento da capota. O para-brisa curvo foi um grande desafio, já que nunca tinha sido utilizado automóveis antes e nenhuma empresa especializada estava preparada para tamanho avanço, mas no fim deu certo. Embora um recurso de teto retrátil semelhante tenha sido usado pela Peugeot no 401D Éclipse Décapotable quase uma década antes, a ideia ainda era alucinante em 1940. Os engenheiros conseguiram fazer o teto de peça única “desaparecer” atrás do banco por meio de um complexo mecanismo eletro-hidráulico. Isso resultou em quase nenhum espaço no porta-malas, e o interior abrigava apenas um único banco, suficiente para três pessoas. Mas esses compromissos valeram a pena, já que o teto retrátil se tornou a característica definidora do carro.

Foi batizado de Thunderbolt em homenagem ao veículo recordista de velocidade em terra com o qual o George Eyston atingiu 575,38 km/h em Bonneville Salt Flats, setembro de 1938. Enquanto o carro recordista fosse movido por dois motores de avião Rolls-Royce de 12 cilindros, o Chrysler era animado por um motor “Spitfire” da própria Chrysler, de oito cilindros em linha e 323,5 pol3 (5,3 litros), bem mais convencional, com 140 cv e 34 mkgf de torque. Após meses de trabalho duro, a equipe da LeBaron conseguiu construir cinco exemplares desta obra-prima da engenharia. O carro usava a transmissão “Fluid Drive” de três velocidades, algo que só seria visto nos Chrysler depois da II Guerra Mundial. Também havia unidades com overdrive, que permitia velocidades superiores a 160 km/h.

A estreia ocorreu em 1940 no “New York Auto Show”, seguida por aparições em vários eventos semelhantes pelos Estados Unidos. Cada Thunderbolt tinha um esquema de pintura diferente e, sem dúvida, o mais famoso é aquele apelidado de “The Copper Car”, verde com detalhes na cor de cobre vendido ao ator Bruce Cabot, em março de 1941.


O carro era praticamente todo feito em alumínio, e sua construção era tão impressionante para aqueles tempos, por conta de suas curvas, que deixou Keller perplexo. “Às vezes, vocês, estilistas, pensam como engenheiros”, disse a Tremulis. Os Thuderbolt foram construídos utilizando o chassi modificado do Chrysler New Yorker. Cada um dos cinco Thunderbolt produzidos recebeu uma combinação de cores diferente, e eram identificados por um discreto raio (thunderbolt, em inglês) aplicado nas portas. Havia também diferenças discretas no painel de cada carro em relação aos acabamentos. E, para garantir a integridade e a qualidade dos Thunderbolt, os engenheiros da Chrysler trabalharam lado a lado com os da LeBaron, inclusive para que o prazo fosse cumprido.

Os carros viajaram por todo os Estados Unidos, sempre chamando atenção. Dos cinco exemplares construídos, quatro sobreviveram. Infelizmente seu projeto foi abandonado com o início da II Guerra Mundial, mas o Thunderbolt entrou para a história do automóvel e da própria Chrysler como um conceito realmente futurista, que tinha como características o teto retrátil, os faróis escamoteáveis, a leveza de construção, a fluidez das linhas e o cuidado com a aerodinâmica, pelo menos duas décadas adiante de seu tempo.

O último exemplar vendido em leilão alcançou US$ 935 mil.
