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Martini Racing: elegância em alta velocidade

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No mundo do automobilismo, poucas imagens são tão instantaneamente reconhecíveis quanto as listras azul escuro/azul-claro/vermelha sobre fundo branco ou prateado. Mais do que um simples patrocínio, a Martini Racing tornou-se um símbolo de estilo, performance e uma das identidades visuais mais icônicas da história das competições.

De Le Mans às florestas lamacentas do WRC, passando pela Fórmula 1 e DTM, a marca italiana de bebidas escreveu capítulos de glória e vitórias que moldaram a cultura das pistas de competição.

Assim, Martini Racing é o nome que batizou e batiza várias equipes de corrida patrocinadas pela empresa italiana Martini & Rossi, uma destilaria italiana que produz o vermute Martini -a bebida preferida de James Bond- em Turim. O envolvimento da Martini com o automobilismo começou em 1958 com o Martini International Club, fundado pelo Conde Metello Rossi di Montelera da Martini & Rossi, que patrocinava diversas atividades esportivas na época. 

por Rubens Caruso Junior

Alfa Giulietta SZ de Paul Richards no paddock da “3 horas de Daytona” em 1962.

A história de como essa fabricante de bebida se tornou uma grande patrocinadora do automobilismo começou com um homem chamado Paul Goppert, que era responsável pela publicidade e relações públicas da Martini na Alemanha.

Paul Goppert decidiu fazer uma incursão inicial no automobilismo de alto nível e juntou-se a dois pilotos de corrida consagrados, Paul Richards e Charlie Kolb, para preparar dois Alfa Romeo Giulietta SZ “Coda Tronca” para competir na “3 Horas de Daytona” em 1962.

O primeiro carro a estampar a marca Martini foi um Delage D8 durante a “Tour de France”, na década de 1930, mas a própria empresa reconhece que seu programa de patrocínio começou em 1968

O que tornava o carro especialmente significativo não era a cor, que era vermelha, mas sim o fato de que os para-lamas dianteiros de cada um deles ostentavam a inscrição “Martini & Rossi Racing Team” em letras brancas. Assim, a Martini estava fazendo sua estreia no automobilismo de resistência de alto nível. Começaram humildemente na “3 Horas de Daytona” de 1962 e obtiveram resultados promissores. A história oficial da Martini Racing começou em 1968. Foi naquele ano que a marca aproveitou as novas regras da FIA, que permitiam patrocínios comerciais, para se unir à Porsche.

O final da década de 1960 e a década de 1970 toda foi a era das calças “boca de sino”, sapatos com sola plataforma e pinturas psicodélicas, para dar a impressão visual de tudo estar sob efeito de LSD, mesmo quando não se estava. Janis Joplin tinha um Porsche 356 com pintura psicodélica, e John Lennon tinha seu Rolls-Royce pintado com um visual psicodélico.

Portanto, se alguma vez uma pintura psicodélica fosse aparecer em um carro de corrida, a década de 1970 seria, sem dúvida, o ano em que isso deveria acontecer. E aconteceu. Paul Goppert tinha um amigo chamado Hans-Dieter Dechent, concessionário da Opel na Alemanha. Dechent era fã das corridas, com predileção por provas de longa distância e carros da Porsche, e ainda apreciador de pinturas psicodélicas únicas e chamativas, como a que usava seu Porsche 917 LH (“Lang Heck”, versão longa) de corrida, e contou com a colaboração do desenhista da Porsche, Anatole Lapine, para criar uma pintura artística bem ao estilo dos anos 1970, com roxo e linhas onduladas em verde fluorescente fosco.

Este é o Porsche que deu origem à clássica pintura da Martini.

Essa pintura fez dele talvez um dos Porsche de corrida mais admirado de todos os tempos. Ele participou da “24 Horas de Le Mans” de 1970 e conquistou o segundo lugar, pilotado por Gerard Larrousse e Willi Kauhsen. E não foi só isso. O “Hippie Car”, como ficou conhecido, chamou a atenção da equipe Martini & Rossi International.

Em 1971, nasceu o que é reconhecido como a pintura clássica da Martini Racing. A nova pintura não parecia uma obra de arte sobre rodas criada sob o efeito de uma mistura de LSD e chás de cogumelos. Era uma pintura ao mesmo tempo artística e profissional, que aplicava as cores da Martini nas ondas psicodélicas do Hippie Car. O impacto foi imediato e avassalador. Em 1971, o lendário Porsche 917KH com as cores da Martini venceu a “24 Horas de Le Mans”, estabelecendo um recorde de distância que permaneceria intocado por quase quatro décadas.


A Martini nunca se contentou em participar carros de competição em apenas uma categoria. Sua presença se ramificou de forma estratégica nas pistas, unindo-se sempre a engenharia de ponta:

Endurance (Resistência): Após o sucesso com a Porsche nos anos 1970 (vencendo Le Mans novamente em 1976 e 1977 com o 936), a Martini formou uma parceria histórica com a Lancia nos anos 1980, competindo com os modelos LC1 e o feroz LC2 no Grupo C.

Lancia LC1
Lancia LC2

Rali (WRC): É aqui que a lenda se tornou imortal. A colaboração Lancia-Martini nos anos 1980 e 1990 resultou em uma das eras mais dominantes do esporte. Com o Lancia Delta Integrale, a equipe conquistou o incrível recorde de seis títulos mundiais de construtores consecutivos (1987-1992).

DTM: A história da Martini Racing no DTM (Deutsche Tourenwagen Meisterschaft) está diretamente ligada à icônica parceria com a Alfa Romeo durante a metade da década de 1990. A famosa pintura com as listras azul escura, azul clara e vermelha sobre fundo branco ou vermelho tornou-se um dos visuais mais memoráveis da história do automobilismo de turismo. Antes da parceria oficial com a Martini, a Alfa Romeo já tinha revolucionado o DTM em 1993 com o Alfa Romeo 155 V6 TI, quebrando a hegemonia alemã (Mercedes, BMW, Opel) logo na sua temporada de estreia com o piloto Nicola Larini. Com a chegada da Martini (1995-1996) a equipe oficial da Alfa Romeo (Alfa Corse) passou a contar com o patrocínio master da Martini Racing.

Fórmula 1: A marca teve diversas passagens pela categoria máxima do automobilismo. Patrocinou a equipe Tecno (1972), a Brabham de Bernie Ecclestone (1975-1978) —onde o brasileiro José Carlos Pace conquistou sua única e apoteótica vitória, em Interlagos em 1975— e a Lotus (1979). Após um hiato, retornou com a Williams entre 2014 e 2018, devolvendo o glamour da suas cores ao grid moderno.

Tecno
Brabham
Lotus
Williams

Principais Conquistas e Números Relevantes

Abaixo, um resumo do que coloca a Martini no topo do mundo das competições:

CategoriaPrincipal CarroTítulos/Vitórias Notáveis
Le MansPorsche 917 / 936Vencedora em 1971, 1976 e 1977
WRC (Rali)Lancia Delta IntegraleSeis Títulos de Construtores (87-92)
Fórmula 1Brabham BT44B / BT45Vitórias em GPs (Brasil e Alemanha 1975)
Turismo (DTM)Alfa Romeo 155 V6 TIDomínio no campeonato italiano e alemão nos anos 90

A Martini Racing não se limitou aos carros. Nos anos 1970, a marca também deixou sua marca nas competições de Powerboats (lanchas de alta velocidade), vencendo campeonatos mundiais em 1973 e 1974.

O que torna a Martini diferente de outros patrocinadores é a sua capacidade de se fundir à máquina. O desenho das listras não era apenas aplicado, ele era desenhado para acompanhar as formas aerodinâmicas dos carros, tornando-os objetos de arte.

Hoje, mesmo fora de patrocínios master em grandes categorias, a “livery” da Martini continua sendo uma das mais requisitadas em restaurações de carros clássicos e edições especiais de colecionadores.

O raro Porsche 924 “Martini Championship Edition” foi produzido entre 1976 e 1977 para celebrar as vitórias da equipe Martini (Foto Darin Schnabel).

A história da Martini nas pistas é a prova de que, no automobilismo, a velocidade e a elegância podem —e devem— andar juntas. E se for vencendo, melhor ainda.


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