Morreu Alessandro Zanardi, o mais que campeão
Acidente grave em 2001 na Alemanha, no Eurospeedway de Lausitzring, numa prova de Fórmula Indy, provocou a amputação de ambas as pernas, mas o piloto italiano encontrou sucesso também como atleta paralímpico. Faleceu ontem, primeiro de maio, com apenas 59 anos de idade.

Alex Zanardi, antigo piloto de Fórmula 1 e campeão paralímpico, faleceu nesta sexta-feira passada, aos 59 anos. Depois de disputar 44 GPs na Fórmula 1 entre os anos de 1991 e 1994, e em 1999, com passagem por equipes como Jordan, Minardi, Lotus e Williams, não obteve resultados expressivos e passou para a Indy (mais precisamente a CART).
por Ricardo Caruso
A CART durou entre 1979 e 2003 (de 2004 a 2007 era chamada de Champ Car), e foi uma categoria dissidente de ponta, focalizada em circuitos mistos e ovais rápidos, com carros de tecnologia avançada. A IndyCar (IRL, fundada em 1996) mirava mais em pistas ovais e, após a fusão das duas em 2008, tornou-se a categoria única. No Brasil, são genericamente conhecidas como Fórmula Indy.
Assim, na Indy, foi bicampeão (1996 e 1997, e 2001) pela equipe Chip Ganassi, defendendo também a equipe MoNunn. Somou o total de 15 vitórias e 28 pódios em 66 provas disputadas. Como atleta paralímpico, Zanardi foi o maior campeão do Paraciclismo nos Jogos Paralímpicos, com quatro medalhas de ouro e duas de prata. Foi o primeiro e único piloto de Fórmula 1 a disputar os Jogos Paralímpicos.

Foi no dia 15 de setembro, durante uma corrida de Indy na Alemanha, que a vida de Zanardi mudou para sempre. Após uma rodada inexplicável na saída das boxes, quando retornava à pista após um pitsop, seu carro foi atingido lateralmente a altíssima velocidade pelo do canadense Alex Tagliani. Zanardi teve as pernas destruídas no acidente, foi submetido a diversas cirurgias de emergência e precisou amputá-las acima do joelho. Ele chegou a perder ¾ do sangue do corpo e correu sério risco de morte, precisando ser reanimado por sete vezes, na pista e no hospital. Mas, contra todas as previsões médicas, sobreviveu e começou outra história -exemplar e comovente- de vida.
A força de vontade levou-o a voltar às competições esportivas, e regressou ao automobilismo com um carro de turismo adaptado às suas necessidades, com alavancas manuais para aceleração e freio. Menos de dois anos depois do aidente, Alex voltou ao oval alemão para uma homenagem, onde completou as 13 voltas que restavam para o fim da trágica corrida.
A experiência fez Zanardi desejar voltar às pistas. Em 2004, competiu no Campeonato Europeu de Turismo. Entre 2005 e 2009, disputou os campeonatos de WTCC (World Touring Car Champion) pela BMW, obtendo quatro vitórias e 10 pódios nesse período. Mas em 2007 mudou de rumo mais uma vez, radicalmente,m e optou pela modalidade de handbike.
Foi neste esporte que alcançou um sucesso notável, conquistando três medalhas nos Jogos Paralímpicos de Londres em 2012 e três no Rio 2016, além de vários títulos mundiais.
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No dia 19 de junho de 2020, o destino voltou a ser cruel pela segunda vez com Zanardi. Durante uma prova beneficente de handbike, organizada para apoiar a luta contra o coronavírus, sofreu um novo e grave acidente. Perto de Pienza, perdeu o controle do sua bike e colidiu de frente com um caminhão que circulava em sentido contrário.

Após o acidente, Zanardi só recuperou a consciência em janeiro de 2021 e, em dezembro daquele ano, regressou para casa. Passou os últimos anos da sua vida junto da mulher, Daniela, e do filho, Niccolò, longe dos holofotes. Nunca se recuperou totalmente.
A família anunciou sua passagem num comunicado, na manhã de hoje, dia 2 de maio: “É com profundo pesar que a família comunica o falecimento de Alessandro Zanardi, ocorrido de forma súbita na noite de ontem, 1o. de maio. Alex faleceu serenamente, rodeado pelo carinho dos seus entes queridos. A família agradece, de coração, a todos aqueles que nestas horas têm manifestado a sua proximidade e pede respeito pela sua dor e privacidade neste momento de luto”. Trsiet coincidência: Zanardi partiu num dia primeiro de maio, como Ayrton Senna, e na mesma cidade, Bolonha.
A primeira-ministra da Itália Giorgia Meloni deixou uma mensagem de pesar:
“A Itália perde um grande campeão e um homem extraordinário, capaz de transformar cada prova da vida numa lição de coragem, força e dignidade. Alex Zanardi soube reinventar-se a cada momento, enfrentando até os desafios mais difíceis com determinação, lucidez e uma força de espírito fora do comum. Com resultados esportivos, com o exemplo e com a sua humanidade, deu a todos nós muito mais do que uma vitória: deu esperança, orgulho e a força de nunca desistir. Em meu nome e em nome do Governo italiano, endereço um pensamento comovido e a mais sincera proximidade à sua família e a todos aqueles que lhe quiseram bem. Obrigado por tudo, Alex”.
O presidente da República, Sergio Mattarella, deixou também um comentário: “Sinto uma profunda dor pela morte de Alex Zanardi, amado e admirado também pela sua coragem, resiliência e capacidade de transmitir entusiasmo”.
Aqui vai uma passagem bem parfticular. Em março de 1993, quando corria pela Lotus, por ocasião do GP do Brasil de Fórmula 1 fui convidado junto com outros jornalistas -por um dos patrocinadores- para um jantar com ele, Johnny Herbert e alguns membros da equipe. O local marcado era um restaurante no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo.
Naquela noite, houve algum incidente na cidade, não lembro se um apagão ou inundações. Assim, chegaram ao local eu, os dois pilotos, os patrocinadores e um engenheiro da Lotus. Melhor impossível. De cara, o baixinho Herbert -que havia sorido um grave acidente em 1988, durante uma corrida de Fórmula 3000 em Brands Hatch, que resultou em graves lesões nas pernas que quase causaram amputação- disparou: “eu era do seu tamanho, mas depois do meu acidente, fiquei bem menor”…
Zanardi também era baixinho, falante, extremamente simpático e atencioso, e nao estava interessado em falar de corridas. Ao ver meu sobrenome, quis saber dos italianos no Brasil, como chegaram, como viviam, se eram muitos… Um prato de massa depois, todos pediram licença e foram embora para o hotel, e eu para casa. Nada de fotos ou autógrafos, não cabia naquele momento. Tudo “jogo rápido”, como é normal nesse meio, ainda mais em véspera de treino e fim de semana de GP. Mas muitio melhor que isso, essa passagem me marcou muito pelo comportamente “humano” dos dois pilotos, diferente do que acontece com as estrelinhas mimadas de hoje em dia. Sim, existia simpatia na Fórmula 1.
Que a família de Zanardi encontre a compreensão e tranquilidade nesse momento difícil, e tenham certeza que, mais do que um bom piloto, ele foi um gigantesco exemplo de como enfrentar uma dificuldade aparentemente intransponível.

