Otto VU 1952, a história do Fiat V8
Em março de 1952, a Fiat surpreendeu o mundo no Salão do Automóvel de Genebra com a apresentação do Fiat 8V, ou Otto Vu. Um carro esportivo de dois lugares que também foi projetado como um modelo de competição. Isso foi impressionante, pois a Fiat não havia demonstrado nenhum interesse em reentrar no cenário de corridas até aquele momento. A marca deixou para outras empresas converterem seus veículos para uso em pista. Em seu tempo de produção até 1954, 114 “8 VU” foram construídos pela Fiat e vários coachbuilders.

Tudo começou em 1945, quando a Fiat começou a desenvolver o Tipo 101, um veículo de quatro lugares que foi originalmente concebido para substituir o Fiat 1100 e, em 1950, substituiu o Fiat 1500 batizado como Fiat 1400. Complicado, mas dá para entender. Para o primeiro protótipo, designado pela fábrica como 101E1, foram fornecidos motores de 1,3 litros. Dante Giacosa, na época chefe do departamento de desenvolvimento de motores da Fiat, criou esse motor. Quando o 101E1 foi testado com em 1946, descobriu-se que a potência do motor era muito baixa, e ele teve que ser todo revisado. Além disso, a direção da Fiat decidiu no final de outubro que seria melhor construir um carro de cinco lugares e, portanto, foi dada a ordem para modificar o 101E1 de acordo com a nova orientação.
Quando as novas ordens foram emitidas, Giacosa, junto com seus funcionários, começou a desenvolver o veículo, e o motor agora era conhecido como 101E2, isso no final de 1946. Em maio de 1947, o motor foi concluído. Em meados de maio, a Fiat enviou Giacosa para Detroit para estudar as novidades na área de desenvolvimentos no setor automotivo. Lá, ele visitou a Budd Company, Chrysler e General Motors, e também foi autorizado a olhar para onde caminhava a criação de novos veículos e motores do mercado americano. Representantes das empresas explicaram a ele que a tendência era de motores com diâmetro dos cilindro\s maiores do que o curso dos pistões, e que taxas de compressão mais altas logo seriam possíveis, pois o número de octanas do combustível aumentaria (na Itália, era 65 em 1947).

De volta à Itália, ele descartou o motor finalizado e desenvolveu um novo motor, de 1,2 litros, com diâmetro de 80 mm e um curso de 60 mm. Durante os testes, descobriu-se que o motor 1.2 fornecia a mesma potência que o motor do 1.3 descartado. O protótipo 101E2 equipado com o novo motor foi testado no final de janeiro de 1948. Mas pouco tempo depois, a Fiat decidiu direcionar a produção futura para o mercado americano. Agora, era solicitado que o carro tivesse um banco para três pessoas, para que o total de seis ocupantes pudessem ser transportados. Além disso, foi expressa a solicitação para redesenhar o motor, de forma que agora tivesse de novo 1,3 litros e oferecesse a possibilidade de derivar para um motor V6. Giacosa então sugeriu desenvolver um motor de dois litros como um motor em linha de quatro cilindros ou como um motor V8, pois equilibrar o funcionamento de um motor V6 era muito difícil naqueles tempos. Após mais discussões, foi decidido produzir primeiro o protótipo 101E3 com motor 1,4 litros. Isso foi concluído em outubro de 1948 e ele chegou ao mercado em 1950 como o Fiat 1400. Então começou o trabalho em um carro derivado dele com um motor maior e espaço para um V6, o que levou ao Fiat 1900 em 1952.

Como o departamento de vendas da Fiat preferia oferecer um carro de luxo de seis ou oito cilindros em vez de um carro derivado do motor e da carroceria do Fiat 1400, em 1950 Giacosa começou a desenvolver outro motor, com mais de quatro cilindros, em paralelo com o trabalho no Fiat 1900. Em sua busca pelo conceito certo, ele rejeitou sequencialmente um motor de seis cilindros em linha porque era muito longo, um motor V6 porque estava convencido de que seria difícil de equilibrar e um motor V8 com um ângulo de 90 ° porque era muito largo. Após alguma consideração, fatores técnicos e outros detalhes o levaram a um motor V8 com um ângulo de 70 °. Esse motor não seria exatamente dos mais equilibrados e suaves, mas seria muito compacto.

Após os primeiros testes do motor finalizado com a designação Tipo 104 naquele mesmo ano, ele teve que ser revisado novamente. Os testes seguintes foram mais promissores e, assim, a pedido do departamento de vendas, a distância entre-eixos de um chassi Fiat 1400 foi estendida para 2850 mm e equipada com ele. Este chassi, conhecido como Tipo 104, foi então enviado para a Pininfarina para construir uma carroceria luxuosa. Os receios expressos antecipadamente de que o veículo seria muito grande e muito pesado para o motor foram confirmados e o projeto foi descontinuado.

Giacosa então sugeriu à direção da Fiat construir um carro esportivo para aproveitar o motor e então derivar um sedã dele. A empresa concordou, e o protótipo Tipo 106 foi iniciado. Para não perder tempo e não sobrecarregar o departamento de desenvolvimento, foi decidido que a Siata desenvolveria o chassi e instalaria a parte mecânica, e a Fiat construiria o motor e a carroceria. A carroceria foi então projetada por Fabio Luigi Rapi com alguma assistência de Giacosa. Depois que o carro ficou pronto, Carlo Salamano ajudou a montá-lo. Após a apresentação do agora chamado Fiat 8V no Salão de Genebra em 1952, finalmente a produção começou. O 8V recebeu esse nome porque, na época de sua fabricação, a Fiat acreditava que a Ford tinha direitos autorais sobre o “V8”.

Após 114 veículos produzidos com diversas carrocerias, a produção foi interrompida no final de 1954 por razões econômicas. Não houve derivação como sedã porque foi decidido que o Fiat 1900 deveria ser inicialmente o modelo topo de linha da Fiat.
AS CARROCERIAS

Diversas empresas fizeram carrocerias para o Fiat 8V. Exatos 34 dos carros tivera as carrocerias produzida de fábrica, pelo “Dipartimento Carrozzerie Derivate e Speciali” ( ou “Departamento de Carrocerias Especiais”) da pópria Fiat. Alguns carros tinham a carroceria feita por outros construtores italianos. A Carrozzeria Zagato fez 30, que eles rotularam como “Elaborata Zagato”. Ghia e Vignale também fizeram carrocerias. A maioria eram cupês, mas alguns cabriolets também foram feitos. Confira.
Carrozzerie Derivate e Speciali – As carrocerias 8V para a Fiat foram fabricadas na própria oficina da empresa, a Carrozzerie Derivate e Speciale. A primeira versão foi construída de 1952 a 1953 e então substituída por um modelo um pouco mais agradável visualmente, que foi feito de 1953 a 1954. Dante Giacosa preferia o modelo de 1952/53. A partir de 1953, a Fiat também experimentou trabalhar com fibra de vidro, inspirado no recém lançado Corvette da Chevrolet, mas não houve produção em série.

Ghia
A Carrozzeria Ghia Torino fez dois tipos de desenhos para o Fiat 8V.
Ghia Fiat 8V Boano – Este cupê da foto abaixo tem o número de chassi 106.000042 e é um exemplar único. Foi construído em 1953 com base em desenhos de Mario Boano.

Supersonic – O Supersonic era originalmente um protótipo Ghia baseado no Alfa Romeo 1900C, que foi encomendado por Virgilio Conrero, um preparador da Alfa Romeo e Lancia de Turim, a pedido de um suíço para a “Mille Miglia” de 1953. Para a carroceria, Conrero recorreu à Ghia e ao desenhista Giovanni Savonuzzi. O visual impressionou tanto a Ghia que, em 1953, foi decidido produzir uma pequena série do carro. A escolha da base recaiu claro sobre o Fiat 8V, e em outubro de 1953 o primeiro modelo foi apresentado ao público no Salão de Paris. No total, não mais do que 19 ou 20 Supersonic for construídos, sendo 15 em Fiat 8V, três em Jaguar XK 120 e um Aston Martin DB 2/4 Mark II. O Fiat 8V Supersonic inspirou Virgil Exner para seu conceito DeSoto Adventurer II em 1954. Confira a história do Supersonic aqui.

Pininfarina
Berlinetta Especial 8V – A Pininfarina projetou e construiu apenas um cupê baseado no Fiat 8V em 1955. O veículo conhecido como Fiat 8V Berlinetta Speciale é único e foi feito pela Fiat para Giovanni Nasi, que foi chefão da empresa.

Vignale
A Vignale construiu oito carros no Fiat 8V. Especificamente, havia cinco cupês, um Spider, um Coupé Corsa e o estudo de desenho Démon Rouge (abaixo). Todos os veículos foram projetados por Giovanni Michelotti.

Coupè Corsa – Em 1954, a Vignale quis apresentar no Salão de Paris o Coupé Corsa , mas o trabalho não foi concluído a tempo. O veículo não foi apresentado em nenhum Salão e acabou vendido para Casimiro Toselli. Toselli aparfeceu com o carro pela primeira vez em 1955 no “Rally de Sestriere”. Muitas corridas foram feitas com o Coupé Corsa até 1957, mas nunca com grande sucesso. Em 1957, o Fiat 8V teve que ser extensivamente reparado e, entre outras coisas, ganhou novas frente e traseira. O chassi tem o número 106.000052.

Spider 8V – Em 1953, Vignale apresentou o Fiat 8V Spider (abaixo). Apenas um carro foi construído. O veículo tinha o para-choque dianteiro muito grande e contínuo. Mais tarde, o veículo foi redesenhado na parte frontal e recebeu nova pintura, o para-choque dianteiro foi substituído por um outro dividido e sua cor passou a ser vermelha. Este Fiat 8V Spider tem número do chassi 106.000050 e número do motor 104.000 000184.

Démon Rouge – Em 1953, a Vignale apresentou o Démon Rouge no Salão de Turim. Era um estudo de desenho puro. Detalhes interessantes não são apenas a janela traseira curva, mas também as maçanetas das portas. Elas são integradas como placas cromadas nos suportes traseiros do teto. Em 1955, o seu desenho ganhou o “Coppa Campione d’Italia’ Concours d’Elegance” e em 2004, mais de 50 anos depois, foi o melhor carro do show no “Concours d’Elegance” em Apeldoorn, Holanda. Pode ser visto no Museu Louwman em Haia.

Zagato
No total, a Zagato recebeu 32 chassis (ou segundo outras fontes, 30) e pelo menos um Spider foi construído.
“Elaborata” – Basicamente era a série Rapi 8V fortemente modificada pela Zagato. Entre outras coisas, eles ganharam o famoso teto arredondado da Zagato. Os veículos são rotulados como “Zagato elaborazione” e são chamados de Fiat 8V Elaborata. Apenas cinco foram construídos .

8VZ – A Zagato apresentou seu primeiro cupê no início de 1952. Todos os veículos receberam carrocerias leves, que eram em grande parte feitas de alumínio. O interior foi personalizado individualmente para cada comprador. O desenho externo também podia ser escolhido; por exemplo, o “Bubble Roof” (“teto bolha”) podia ser encomendado. Alguns deles foram usados em corridas e vendidos até 1959. Os veículos são chamados de Fiat 8VZ, com o “Z” identificando Zagato.

8VZ Spider – O veículo abaixo tem o número de chassi 000005. O carro foi originalmente construído como um cupê pela Fiat em 1952 e vendido ao industrial Franco Auricchio. Ele deixou o cupê para os pilotos de corrida Vincenzo Auricchio e Piero Bozzinio participarem da “Mille Miglia” 1952, na qual terminaram em quinto na classe até 2000 cm3. Mais tarde, ele passou o carro para o piloto de corrida Ovidio Capelli, que enviou o cupê para a Zagato para construir uma “barchetta leve”. O veículo foi seriamente danificado em um acidente na Sardenha. Nessas condições, ele vendeu o carro para os irmãos Leto di Priolo, que o enviaram de volta para a Zagato, que construiu uma carroceria Spider nova e diferente. Este carro de corrida, conhecido como 8VZ Spider, foi usado por Massimo Leto di Priolo no GP da Suécia em 7 de agosto de 1955 na classe GT até 2 litros. Leto di Priolo alcançou o segundo lugar com o veículo.

Os Siata
Siata 208 CS– A Siata também apresentou sua nova série 208 no Salão de Genebra de 1952. Como a Siata ajudou a desenvolver o veículo, eles também puderam apresentar um modelo V8. A principal coisa em comum com o 8V da Fiat era o motor. Este foi oferecido com níveis de potência de 105 a 122 cv e taxas de compressão de 7,5 a 8,5: 1. Como a Siata ajudou oo chassi para o Fiat 8V, isso também pode ter tido um impacto no 208. A produção do 208 terminou quando o Fiat 8V foi descontinuado. As carrocerias foram construídas pela Stabilimenti Farina (cupê e aberta) e Balbo (apenas Coupè ).

Bertone Siata
Além da série 208, a Bertone construiu pelo menos três modelos únicos com carrocerias diferentes.
Corsa Spider – Em 1952, Nuccio Bertone construiu para si o Corsa Spider, baseado no Siata 208 CS. Ele foi projetado por Franco Scaglione, e o modelo foi recentemente restaurado.

Berlinetta 2+2 – Exibido pela primeira vez no Salão de Paris em outubro de 1952, depois com outros dois Siata no de Nova Iorque,e no International Motor Sports Show em abril de 1953, este carro projetado por Scaglione foi vendido em Chicago em 1953. O Siata Berlina único , de quatro lugares, usa o motor 2.0V8 derivado da Fiat, que também pode ser encontrado nos mais comuns Fiat 8V e Siata 208. Como outros desenhos italianos únicos, este carro ostenta muitos detalhes exclusivos nas estruturas dos faróis dianteiros e traseiros, e em todo o painel e portas.

Siata 8V – O Siata 8V traz detalhes únicos projetados por Michelotti, como as portas e as luzes dianteiras e traseiras. A primeira vez que foi apresentado aconteceu no Salão de Paris e depois no Salão de Nova Iorque. Arnolt vendeu o carro para Stuart Sherman em Illinois em 1955. Foi então comprado por Roy Thoressen, que o dirigiu por alguns anos, até colocá-lo em um depósito e esquece-lo por vários anos. Eles “lembraram” do Siata quando uma grande enchente e o peso da neve fizeram o teto desabar, em 1989. Foi comprado em 1993 por Walter Eisenstark, ainda em suas condições originais, mas finalmente ganhou uma merecida restauração, com altos padrões de qualidade. Atualmente, o carro encontrou um lar na Bélgica.

