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SIMA-Violet e os ciclo-carros dos anos 1920

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Quem lembra da marca francesa SIMA-Violet? SIMA era uma sigla, que significava “Société Industrielle de Matériel Automobile”, e Violet era o sobrenome do criador dos carros, Achille Marcel Violet. A história do SIMA-Violet é um daqueles capítulos fascinantes e pouco conhecidos da indústria automotiva europeia, situado numa época em que o automóvel ainda estava em plena fase de experimentações técnicas. No caso, os cyclecars, ou ciclo-carros.

por Ricardo Caruso

SIMA-Violet MV5 1925

Entre motocicletas improvisadas, pequenos carros populares e projetos ousados de engenharia, os chamados “cyclecars” representaram uma solução barata, leve e até esportiva para milhares de europeus do período pós-Primeira Guerra Mundial. E poucos fabricantes foram tão criativos nesse segmento quanto a pequena empresa francesa idealizada por Marcel Violet, que também tinha interesse em esoterismo e medicina alternativa.

O nascimento dos ciclocarros

Os ciclo-carros foram veículos que surgiram no início do século XX, entre 1910 e a década de 1920, como uma solução de mobilidade ultraleve, acessível e minimalista. Eles misturavam o conceito de motocicleta com automóvel, utilizando motores de moto, chassi simplificado e bancos para uma ou duas pessoas.

Para entender o SIMA-Violet, primeiro é necessário compreender o fenômeno dos ciclocarros. Após a Primeira Guerra Mundial, a Europa enfrentava enormes dificuldades econômicas. Os automóveis tradicionais eram caros demais para grande parte da população, enquanto as motocicletas ofereciam pouco conforto e baixa capacidade de transporte.

Assim surgiu essa categoria intermediária: veículos leves e baratos, mas com quatro rodas e alguma proteção contra o clima. Os governos europeus, especialmente o francês, incentivaram esse tipo de veículos, com impostos reduzidos e regulamentações especiais.

Os cyclecars normalmente utilizavam:

  • motores pequenos;
  • estruturas tubulares leves;
  • componentes de motocicletas;
  • carrocerias minimalistas;
  • peso extremamente reduzido.

Na prática, eram exatamente a mistura de motocicleta com automóvel.

Marcel Violet: inventor, piloto e engenheiro

O cérebro por trás do SIMA-Violet era Marcel Violet, um engenheiro francês extremamente inventivo e apaixonado por motores de dois tempos. Antes mesmo da criação da marca SIMA-Violet, ele já havia trabalhado em pequenos automóveis experimentais e ciclocarros desde a década de 1910.

Violet acreditava firmemente nas vantagens dos motores boxer bicilíndricos e arrefecidos a ar. Isso lembra alguma coisa? Enquanto muitos fabricantes insistiam em motores convencionais de quatro tempos, ele apostava numa mecânica mais compacta, leve e simples.

Além de engenheiro, Violet também era piloto. Isso influenciou diretamente seus projetos, sempre voltados para baixo peso, eficiência e desempenho surpreendente para motores tão pequenos.

Seu primeiro grande projeto foi o Violet-Bogey (acima), lançado antes da Primeira Guerra Mundial. A experiência acumulada nesse carro serviria de base para o desenvolvimento do futuro SIMA-Violet.

A criação da SIMA-Violet

A empresa foi oficialmente fundada em 1924 na cidade de Courbevoie, nos arredores de Paris. O nome “SIMA” como vimos era a sigla de “Société Industrielle de Matériel Automobile”, e o sobrenome “Violet” homenageava diretamente o criador do veículo.

SIMA-Violet: chassi leve, motor dianteiro e tração traseira por corrente.

A região de Courbevoie já concentrava diversos fabricantes automotivos e fornecedores de componentes mecânicos, o que facilitava a produção artesanal de pequenos carros.

O objetivo da empresa era claro:

  • construir um cyclecar extremamente leve;
  • oferecer desempenho esportivo para a época;
  • manter custos baixos;
  • utilizar soluções técnicas inovadoras.

O Sima-Violet Cyclecar

O modelo produzido pela marca ficou conhecido simplesmente como Sima-Violet Cyclecar. Ele era um pequeno roadster de dois lugares com aparência esportiva e mecânica bastante incomum para a época.

Motor revolucionário

O maior destaque técnico era seu motor. Marcel Violet, o criador desses pequenos veículos, como sabemos, era antigo defensor dos motores de dois tempos “a ar”, tipo boxer, e estes equipavam os ciclo-carros que ostentavam o seu nome:

  • dois cilindros opostos horizontalmente (boxer);
  • dois tempos;
  • arrefecido a ar;
  • cerca de 497 cm³.

O motor ficava instalado numa posição muito baixa na frente do carro, ajudando no centro de gravidade e na melhor estabilidade. Para os anos 1920, isso era extremamente moderno. A maioria dos carros populares ainda utilizava motores altos, pesados e pouco eficientes.

O pequeno boxer produzia cerca de 10 a 11 cv, o que parece pouco hoje, mas era suficiente para empurrar o cyclecar a aproximadamente 110 km/h — uma velocidade impressionante para um veículo tão pequeno e leve!

Engenharia avançada para a época

O Sima-Violet também chamava atenção por várias soluções incomuns:

  • estrutura tubular leve;
  • carroceria leve em madeira e metal;
  • transmissão de duas marchas;
  • câmbio montado no eixo traseiro;
  • suspensão dianteira por mola transversal;
  • amortecedores de fricção.

Seu peso reduzido fazia com que o desempenho fosse extremamente interessante. Estamos falando de 100 anos atrás! Muitos jornalistas especializados da época (sim, eles já existiam) descreviam o carro como ágil, rápido nas curvas e muito divertido de dirigir. O Sima-Violet foi apresentado no Salão de Paris em outubro de 1924, altura em que a única carroceria disponível era um modelo de dois lugares do tipo “Torpedo” com estrutura de aço, distância entre-eixos de 2,20 m e que o fabricante anunciava a um preço de 4950 francos (algo difícil de atualizar para os tempos atuais). Uma versão monoposto com carroceria esportiva também foi produzida.

O problema era que os freios atuavam apenas nas rodas traseiras, algo relativamente comum nos cyclecars daquele período, mas já considerado limitado até mesmo nos anos 1920.

Aparência e estilo

Visualmente, o SIMA-Violet tinha proporções bastante peculiares:

  • carroceria estreita;
  • rodas expostas;
  • para-lamas separados;
  • posição de dirigir baixa;
  • frente longa e afilada.

Algumas versões esportivas monoposto eram ainda mais radicais, lembrando pequenos carros de corrida. O desenho transmitia exatamente a proposta do veículo: leveza, simplicidade e esportividade.

Marcel Violet, 1887-1973.

Sucesso nas competições

Como vários fabricantes de ciclo-carros, a SIMA-Violet utilizou as corridas como ferramenta de marketing. E o pequeno carro mostrou enorme competitividade.

Entre 1924 e 1928, os SIMA-Violet colecionaram vitórias participando de:

  • provas de endurance;
  • subidas de montanha;
  • corridas de voiturettes;
  • competições de cyclecars;
  • eventos no circuito de Montlhéry.

Os carros tinham excelente relação peso/potência e conseguiam enfrentar concorrentes maiores e mais potentes.

Marcel Violet frequentemente pilotava seus próprios carros, usando as pistas como laboratório para aperfeiçoamentos mecânicos.

O declínio dos ciclo-carros

Apesar das qualidades técnicas do Sima-Violet e desempenho nas competições, o mercado de cyclecars começou a desaparecer rapidamente no fim da década de 1920.

O motivo principal foi o surgimento de automóveis compactos verdadeiros, como Citroën Type C, Austin 7 e Morris Cowley, entre tantos outros. Esses carros ficaram baratos o suficiente para competir direto com os ciclo-carros, oferecendo:

  • maior conforto;
  • melhor segurança;
  • quatro freios;
  • carrocerias fechadas;
  • maior praticidade.

Assim, com a recuperação econômica da Europa, os ciclocarros entraram em declínio e passaram a se parecer com algo improvisado e ultrapassado.

O fim da SIMA-Violet

A produção da SIMA-Violet terminou em 1929. A empresa foi sucedida pela Sima-Standard, que continuou produzindo pequenos automóveis por pouco tempo, até aproximadamente 1932 (imagem abaixo).

Marcel Violet continuou trabalhando em projetos automotivos menores, incluindo os modelos Galba e Huascar, mas nunca alcançou grande sucesso comercial.

Posteriormente, Violet se envolveu em pesquisas alternativas e até experiências relacionadas à chamada “Eau Violet”. Ele fundou um laboratório atuante na área de medicina alternativa, baseado em suas descobertas sobre os efeitos do uso de água tratada biodinamicamente e energizada, dando continuidade ao trabalho de Stanislas Bignand de 50 anos antes. Durante mais de 30 anos, Marcel Violet fez experiências com sua água biodinâmica em plantas, animais e seres humanos. Essa água é comumente conhecida hoje como “Eau Violet”, ou “Água Violeta”.

Legado histórico

Hoje em dia, o Sima-Violet é considerado um dos cyclecars franceses mais interessantes já produzidos.

Seu legado é importante porque ele antecipou várias ideias modernas:

  • motores boxer compactos;
  • centro de gravidade baixo;
  • foco em leveza (como pregou anos depois o genial Colin Chapman);
  • eficiência mecânica;
  • simplicidade estrutural.

Em muitos aspectos, o conceito lembra filosofias adotadas décadas depois por fabricantes de carros esportivos leves.

Pouquíssimos exemplares sobreviveram, tornando o SIMA-Violet extremamente raro e valorizado entre colecionadores. Alguns carros restaurados aparecem ocasionalmente em eventos históricos europeus e museus automotivos. O carrinho chegou a ser anunciado no Brasil, por meio de um representante do Rio de Janeiro, mas pouco se sabe sobre isso, se foram vendidos aqui ou não e se algum sobreviveu.

Mais do que apenas um pequeno carro francês, o SIMA-Violet representa uma era de criatividade quase artesanal da indústria automotiva, período em que engenheiros independentes podiam desafiar fabricantes tradicionais usando apenas a inteligência, engenhosidade, baixo peso e paixão pelas corridas.


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