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Um Interlagos elétrico? Renault mostra o Alpine A110 Future

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O “Goodwood Festival of Speed”, que acontece na Inglaterra a cada ano, se transformou numa espécie de salão do automóvel a céu aberto. Entre as novidades apresentadas por lá, a Alpine levou o protótipo do futuro A110, que pela primeira vez será exclusivamente elétrico. É como se o nosso Willys Interlagos dos anos 1960 tivesse reencarnado com seus pecados todos quitados e totalmente alinhado com o que há de mais moderno em termos de automóvel.

por Ricardo Caruso

Criado em 1993 pelo Duque de Richmond, o “Goodwood Festival of Speed” tornou-se um evento imperdível no calendário automobilístico/automotivo internacional. Mais de 250.000 visitantes vão a Sussex todos os anos para assistir a demonstrações dinâmicas, conhecer veículos excepcionais, rever antigos modelos de Fórmula 1, esbarrar em pilotos famosos e assistir a famosa subida de montanha.

Esse foi o cenário escolhido pela Alpíne para exibir o que pensa do futuro. Agora uma dose de confusão mental: o Renault Alpine A108 (1959-1963) -que antecedeu o A110 original (1961-1977)- foi o carro que deu origem ao Willys Interlagos brasileiro (1962-1966). A produção do atual Alpine A110 com motor a combustão chegou ao fim neste mês de julho, após nove anos de história (foi lançado em 2017), período em que foi produzido na fábrica de Dieppe, na França. A marca prepara agora a transição para a nova geração 100% elétrica, cuja prévia foi exibida em Goodwood na forma do conceito Alpine A110 Future.

O atual Alpine A110 era um dos últimos esportivos leves e relativamente acessíveis do mercado europeu. Mas os dias do pequeno cupê francês equipado com motor 1.8 turbo chegaram ao fim. A marca já está trabalhando pesado no sucessor do A110 e, embora continue a existir alguma incerteza sobre o rumo mecânico do modelo, uma coisa é certa: o modelo terá, pela primeira vez na sua história, uma versão exclusivamente elétrica.

O conceito Fiture, do Alpine A110 elétrico, em atividade em Goodwood.

Ainda estamos longe de conhecer o modelo final, de produção, mas a Alpine mostrou pela primeira vez ao público o protótipo que está sendo utilizado em testes no seu desenvolvimento. A estreia aconteceu no evento britânico, entre os dias 9 e 12 de julho.

Além da exibição do protótipo e da linha atual, a Alpine contou com a presença de vários pilotos da equipe BWT Alpine Formula One Team, incluindo os titulares Pierre Gasly e Franco Colapinto.

Mas o protótipo não foi a única presença da marca -diretamente ligada à Renault- no evento. Ao seu lado estiveram em exibição os demais modelos da marca, incluindo o atual A110 e os elétricos A290 e A390 (abaixo).

100% Elétricos: acima, o Alpine A290 na série Rallye Lacoste, e abaixo o A390

A110 elétrico

O fato da próxima geração do Alpine A110 ser elétrica não causa espanto. Mas é interessante perceber como a Alpine pretende preservar aquilo que sempre caracterizou o modelo esportivo: baixo peso, agilidade e prazer ao volante. Para isso, desenvolveu a “Alpine Performance Plataform” (APP), nova arquitetura específica que servirá de base ao futuro A110 e aos próximos esportivos da marca.

Uma das características mais interessantes é a organização dos componentes, especialmente da bateria. Se a maioria dos elétricos atuais instala a bateria no piso da plataforma, a Alpine optou por dividir o conjunto em dois módulos separados, que serão montados à frente do habitáculo e atrás dos bancos.

Pessoa sentada na Alpine Performance Platform
A plataforma APP permite a otimização da distribuição de peso.

Ainda que não seja uma solução comum ou simples, o objetivo faz sentido: aproximar o modelo da distribuição de peso dos esportivos tradicionais, com uma divisão de massas de 40%/60% entre os eixos dianteiro e traseiro e, ao mesmo tempo, oferecer uma posição de condução baixa, ao nível do que se espera de um modelo esportivo com estas características.

A capacidade da bateria, por outro lado, ainda não foi revelada, mas a marca mostrou-se ambiciosa com os números projetados: garantir mais de 500 km de autonomia e manter o peso em torno dos 1500 kg. São números relevantes num carro elétrico e que o colocam cara a cara com a próxima geração, também elétrica, do Porsche 718 Cayman.

Os detalhes técnicos continuam em segredo, mas a Alpine já confirmou que o futuro A110 recorrerá a uma nova unidade elétrica integrada, que combina motores elétricos e muita eletrônica numa única solução. Os números finais também não são conhecidos, embora tudo indique que a potência ultrapasse os 469 cv do Alpine A390 GTS, podendo atingir os 550 cv. Valor que deverá ser possível graças à possibilidade da plataforma integrar um motor em cada eixo, conferindo ao cupê francês o recurso da tração integral.

O sistema de baterias de 800 V distribui a sua energia em 25 % à frente e 75 % atrás, graças à tecnologia “cell-to-pack”, distribuída por dois níveis dentro da estrutura de alumínio fundida sob alta pressão, que contribui diretamente para a rigidez estrutural do automóvel. Um “Sistema de Gestão de Baterias” centralizado e cabeamento das ligações, em alumínio, completam o conjunto.

Concebido para proporcionar agilidade e utilização intensiva, e construído para ser compacto e leve, o “E-Powertrain” do A110 Future incorpora o novo sistema “Active Torque Vectoring 2.0” da Alpine, com dois motores elétricos na traseira, acionado por mecanismos elétricos, com inversores de carboneto de silício (material cerâmico artificial formado por silício e carbono) de 800 V e projeto de motor com imã permanente que atinge até 21.500 rpm. O resultado é o controle preciso e instantâneo em cada roda, com o seu próprio som característico, gerado pelo motor elétrico. Concebido tendo em vista o desempenho, o sistema utiliza o pré-controle de torque, mais um sistema de carregamento rápido de 400 V.

O novo “Alpine Active Torque Vectoring 2.0” e o “Wheel Slip Torque Control” ajudam a reduzir as saídas de frente na entrada e no meio das curvas, gerenciando a transferência de massa e o torque durante as acelerações e desacelerações. Ambos fazem parte de um conjunto de controle mais abrangente –que inclui a frenagem, direção, gestão da bateria e parte térmica– concebido para se adaptar às configurações de tração traseira (RWD) e tração integral (AWD) da plataforma.

Mais importante ainda são as possibilidades que esta arquitetura oferece. Ao contrário do atual A110, desenvolvido exclusivamente como cupê de dois lugares, a nova base foi concebida para dar origem a diferentes tipos de carroceria, como versões conversíveis, modelos 2+2 e até esportivos de maiores dimensões destinados a mercados onde o atual A110 nunca conseguiu se firmar, como os Estados Unidos.

Este nível rápido e eficiente de desenvolvimento foi conseguido pelo uso extensivo de simuladores, poupando tempo e custos, ao reduzir a dependência de protótipos físicos e ajudando a definir especificações para os fornecedores antes dos testes conjuntos na prática. O simulador tipo “driver-in-the-loop” DiM250 da Alpine –construído em torno de um habitáculo do A110, com tela cônica de nove metros e tecnologia de movimento hexapódica (seis apoios) que reproduz toda a dinâmica das suspensões –auxilia a afinação da plataforma e suspensão, a calibração do sistema de propulsão, o desenvolvimento dos pneus e de novas funções de controle. Em todos os projetos combinados, foram registrados mais de 45.000 km desde o início da utilização do simulador.

Motor de combustão

A Alpine não confirma o regresso dos motores de combustão aos seus esportivos, mas também está longe de fechar a porta para eles. A marca francesa já admitiu que a nova plataforma foi desenvolvida com flexibilidade suficiente para receber um motor de combustão, caso haja procura por esta solução. Quem o disse isso foi Philippe Krief, chefão da marca, explicando que o futuro Alpine A110 poderá acomodar motorizações híbridas ou híbridas plug-in.

novo motor horse W30 RENAULT GEELY

Por enquanto, o plano inicial se mantém inalterado: a próxima geração do esportivo será mesmo 100% elétrica. Mas, ao contrário de outros fabricantes, que colocaram todos os ovos no mesmo cesto, a marca francesa está se precavendo e, por isso, garantindo que terá condições para se adaptar caso o mercado mude de direção.

A apresentação da versão de produção está marcada para 2027.


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