Ame-o ou deixe-o: Luce coloca a Ferrari na era elétrica
Depois de colocar nas ruas um SUV, o Purosamgue, o Ferrari Luce (luz, em italiano) movido 100% a bateria -previsto para início de 2027- é um passo ousado rumo ao futuro da marca, que rompe conceitos. É o primeiro Ferrari elétrico, o primeiro de cinco lugares e o mais potente carro de rua da empresa em todos os tempos. Dá para reclamar?
Após longa esperava, a Ferrari finalmente apresentou seu modelo -talvez o mais polêmico de todos os tempos, mas essa era a ideia- o Luce EV. A aparência do novo Ferrari é tão revolucionária quanto seu conjunto propulsor. Resumindo:
- O primeiro veículo elétrico da Ferrari, o Luce 2027, é lançado com 1035 cv de potência máxima provenientes de quatro motores elétricos;
- A carroceria e o interior foram criados por uma empresa contratada, liderada pelos famosos desenhistas de produtos Jony Ive e Marc Newson;
- O Luce tem quatro portas e cinco lugares, e é o primeiro modelo com essa configuração criado em Maranello (o SUV Purosangue tem quatro portas e quatro lugares).
por Ricardo Caruso

A Ferrari recorreu à empresa LoveFrom, liderada pelos renomados desenhistas Jony Ive (ex-chefão de desenho da Apple) e Marc Newson, icônico desenhista industrial, para moldar tanto o exterior quanto o interior do Luce. Com uma arquitetura dedicada a veículos elétricos que permitiu um alto grau de liberdade, o formato do novo modelo é diferente de qualquer outro Ferrari já fabricado, e vai em direção oposta aos agressivos superesportivos da empresa. Sinal dos tempos.

A LoveFrom foi fundada em 2019 por Ive e o nome foi inspirada em uma fala de Steve Jobs sobre a importância de criar produtos com “amor e cuidado”. Com sede em San Francisco, Califórnia, reúne desenhistas, arquitetos, engenheiros, artistas e músicos. A empresa opera com alto nível de sigilo em seus trabalhos e tem como principais focos projetos de luxo e inovação tecnológica.

Difícil imaginar, mas com 5 metros de comprimento, o Luce é cinco centímetros mais longo que o Purosangue, e com 1,55 cm de altura, é apenas 5 cm mais baixo. A cabine fica posicionada bem à frente na carroceria, que é toda em alumínio. As portas têm abertura central (as dianteiras normais e as traseiras tipo “suicidas”, contrárias) e há uma generosa tampa traseira com abertura vertical. Os faróis e lanternas traseiras são alojados em painéis escuros, e os limpadores de para-brisa ficam na posição vertical, em pé, encostados nas colunas A.


A aerodinâmica foi determinante no projeto, e afirma-se que o Luce possui um coeficiente de penetração aerodinâmica (Cx) inferior a qualquer outro Ferrari de rua já fabricado. Esse valor não foi divulgado ainda pelos italianos. Os principais elementos que contribuem para isso são os spoilers dianteiro e traseiro, na verdade túneis de canalização de ar, e “persianas” ativas na grade para os três trocadores de calor.


Se o exterior provocou choque, fácil prever que o interior será bem menos discutível, com boa fusão do que é físico com o digital. O volume total interno é semelhante ao do Purosangue, mas sem o túnel central e os eixos traseiros. O Luce acomoda cinco pessoas, o que é uma estreia na Ferrari. Outro sinal dos tempos. Sob a tampa traseira, encontra-se o maior porta-malas já visto em um Ferrari, com 597 litros.

Na verdade, o interior é menos sobrecarregado de tecnologia do que o carro sugere. Os displays são tipo OLED. Os três mostradores com anéis metálicos do painel de instrumentos são, na verdade, mostradores digitais dentro de outro display digital. O marcador central exibe a velocidade e o nível de carga da bateria; em vez de conta-giros, o mostrador da esquerda mostra a potência disponível e o nível de regeneração; o da direita é configurável. O visor desses indicadores acompanha o movimento da coluna de direção.

Uma tela central sensível ao toque -de tamanho até modesto- também incorpora botões físicos e pode se mover em direção ao motorista ou ao passageiro da frente. Há outra tela com configuração semelhante na parte traseira do console central, para os passageiros do banco de trás.

O volante abandona os touchpads usados no Purosangue em favor de comandos físicos. Isso inclui dois seletores rotativos tipo “manettino“, que controlam diversas funções do carro. O volante é ladeado por duas grandes “borboletas” que controlam a regeneração de energia e a potência máxima.

Mais detalhes divulgados sobre como as “borboletas” no volante influenciam o funcionamento. A esquerda seleciona entre cinco níveis de regeneração de energia, enquanto a direita aumenta o torque disponível em cinco níveis, uma tentativa de simular a troca de marchas manual. A ideia é que o motorista acione a borboleta esquerda para aumentar a regeneração ao entrar em uma curva, da mesma forma que reduziria a marcha para obter freio-motor num carro normal. Em seguida, ao acelerar na saída da curva, ele usaria a borboleta direita para fornecer mais torque. Um “medidor de torque” acima do velocímetro desempenha a função das tradicionais luzes indicadoras de troca de marcha da Ferrari, sinalizando ao motorista o momento ideal para “subir a marcha” por meio da “borboleta” e assim aumentar o fluxo de torque.

Ao inserir a cobiçada chave com o logotipo da Ferrari em seu compartimento no console central, o Luce já liga. Os quatro motores elétricos de imã trabalham sincronizados de forma permanente, e têm a maior potência concentrada na traseira, com os dois motores dianteiros gerando 282 cv de potência, enquanto os dois traseiros produzem 831 cv. A potência total, de 1035 cv, não é a soma exata que daria 1113 cv, mas é o que a marca divulga e, mesmo assim, supera a potência de qualquer outro Ferrari de rua jamais fabricado.


Apesar de ter quase 2.270 kg de peso, a Ferrari afirma que o Luce faz de zero a 100 km/h em míseros 2,5 segundos e chega aos 200 km/h em 6,8 segundos. A velocidade máxima declarada é de 311 km/h. Há um modo de “largada” ativado por uma alavanca localizada no console que, além de otimizar o sistema de controle de tração, proporciona aumento de torque e libera 54 cv de potência adicionais, que na contabilidade dos italianos daria então 1167 cv, e não 1113 cv. A verdade é que, a partir de 1000 cv, pouca coisa muda.

Então, o Luce será tão ou mais rápido como qualquer outra Ferrari a combustão. Mas, e o som? Gianmaria Fulgenzi, chefão de desenvolvimento de produto da marca, disse: “O som foi um dos maiores desafios deste carro.” A Ferrari poderia ter programado o Luce para reproduzir a trilha sonora de um de seus potentes motores V12, mas a empresa adotou uma abordagem diferente. Ela queria que o som ouvido pelo motorista fossereflexo do ruído mecânico real do carro, e então desenvolveu (e patenteou) um sistema que capta o som do eixo traseiro e o processa. A amplificação é baseada no modo selecionado pelo “manettino“, com a função “Perfo” oferecendo o máximo de feedback sonoro, “Tour” traz um nível intermediário de som e “Range” o modo mais silencioso. Independentemente da configuração, o carro também projeta o som externamente, por segurança para os pedestres.

Os motores são alimentados por uma bateria de 122 kWh, e é elemento estrutural do chassi. Assim como os motores elétricos, a bateria é projetada e fabricada pela Ferrari. O Luce possui arquitetura de 800 volts e carrega a até 350 kW. A Ferrari estima a autonomia do carro em 531 km (cerca de 330 milhas), segundo o padrão WLTP, o que se traduz em cerca de 450 km (ou 280 milhas) pela metodologia EPA.
O conjunto apresenta direção nas quatro rodas e sistema de suspensão ativa derivado do F80, com amortecedores adaptativos, evolução das unidades presentes no Purosangue e no próprio F80. O Luce oferece distribuição de torque entre os eixos dianteiro e traseiro, e os discos de freio têm 39,1 cm de diâmetro na dianteira e 37 cm na traseira. As rodas tem tamanhos diferentes, 23×9,5 na dianteira e 24×11 na traseira, as maiores já instaladas em um Ferrari de rua e estão disponíveis em dois estilos: desenho tradicional de cinco raios ou visual aerodinâmico otimizado para turbinas, que reduz o arrasto em 5%.
O carro será lançado na Europa ainda este ano, com preço em torno de US$ 640.000 (R$ 3,2 milhoes, antes dos impostos e traxas), mas o Luce só chegará aos Estados Unidos, por exemplo, no segundo trimestre de 2027, e o preço para aquele mercado ainda não foi divulgado. Para o Brasil, nada se sabe.
Confira o vídeo oficial da Ferrari:
A divulgação gradual de notícias que antecedeu este lançamento deste carro foi algo bem calculado, para acostumar as pessoas à ideia de uma Ferrari elétrica e de visual diferenciado. Seria muito simples eletrificar um de seus superesportivos, o que não teria o mesmo impacto. É um Ferrari de altíssimo desempenho, direcionado a outro nicho de mercado, e a empresa claramente mergulhou de cabeça nesse projeto.
Será que a enorme carga tecnológica embarcada e exclusiva conseguirá transmitir a emoção -que está no centro dos valores da marca- a um Ferrari movido a bateria? Será que o preço elevado criará um incontrolável ar de desejo por este novo tipo de Ferrari? Será?



As respostas ainda são incertas. Mesmo no atual mercado superaquecido de carros exóticos de altíssimo padrão, a demanda por veículos elétricos parece ainda inconclusiva. A Lamborghini cancelou recentemente seu projeto de veículo elétrico, com o chefão Stephan Winklemann afirmando que o interesse dos compradores era “próximo de zero”. Outro chefão, agora da McLaren, Nick Collins, não se comprometeu com a perspectiva, e o manda-chuva da Aston Martin, Adrian Hallmark, adiou o lançamento do veículo elétrico de sua marca de 2027 para 2030. O presidente executivo da Ferrari, John Elkann, bancou a aposta e disse: “Estamos expandindo o que a Ferrari pode ser, não perdendo o que a Ferrari é”.
Veremos se os ferraristas concordam. E se você não tem dinheiro para comprar uma, pode espernear. Para a marca italiana, sua opinião pouco importa…
