Classic Cars

Renault Colorale (1950-1957): o primeiro SUV?

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Atualmente os SUVs são o tipo de carro que apresenta maior nível de aceitação no mercado, enchendo os olhos da grande maioria do público em geral mundo afora. A sigla SUV significa “Sport Utility Vehicle” e, em teoria, são veículos que deveriam operar com a mesma facilidade na cidade e no campo, embora em quase todos os casos, não correspondam a essas expectativas.

por Ricardo Caruso

Apontar o primeiro SUV da história é uma tarefa difícil. Para muitos pode ser Range Rover original, de 1970, que soube combinar perfeitamente o luxo de um sedã com as capacidades fora de estrada de um Land Rover. Mas o que ninguém lembra é que, quase duas décadas antes do lançamento deste modelo britânico, um carro que poderia ser considerado um SUV já circulava pelas ruas e estradas da França. Era o Renault Colorale.

A história remete obrigatoriamente ao bom e velho Jeep americano, que reinou na II Guerra Mundial e ficou gravado na mente dos europeus por conta de sua atuação militar naquele continente. Naqueles tempos difíceis, foi fabricado pela Willys (batizado de MB) e pela Ford (GPW) e fez sucesso por causa de suas “1001 utilidades”. Era muito resistente e nenhum terreno ruim o intimidava. Era desconfortável, não protegia os ocupantes de chuva ou frio, mas conceitualmente inspirou muitas fábricas que sobreviveram na Europa, e todos tentavam, de uma forma ou de outra, produzir algo semelhante. Pelo menos em funcionalidade.

Na década de 1950, a francesa Renault tinha em catálogo uma linha de produtos muito envelhecida, mas pensava em criar veículos variados. Tudo estava economicamente empobrecido -indústria e consumidores- mas mesmo assim em 1946 a marca já havia apresentado o 4CV, que até vendia bem e oferecia uma versão mais rudimentar, a Commerciale. O pequeno Juvaquatre, de 1937 (o último carro lançado por Louis Renault) continuava sendo produzido e tinha entre seus modelos um furgão, o Fourgonette, para uso leve. A linha até oferecia furgões maiores, com capacidade para até 1.400 kg, mas muito antigos, ainda derivados do veterano Vivaquatre (1932 a 1939). Velhinho, mas atendia bem seu púbico.

E veio a Colorale, que lembrava as enormes wagons dos Estados Unidos na época. A Colorale Prairie -versão de passageiros- era mais compacta, com 4,3 metros de comprimento. O presidente da empresa naqueles tempos, Pierre Lefaucheux, teve a ideia de criar um veículo que fosse uma espécie de meio-termo entre um automóvel e um furgão. Foi buscar inspiração na Willys Station Wagon, parente da Rural Willis brasileira, que foi lançada em 1946 nos Estados Unidos, aproveitando componentes mecânicos dos Jeep.

Assim, naquele mesmo ano de 1946 começaram na Renault os trabalhos para a criação do sonhado veículo de uso misto, simples e robusto ao mesmo tempo. E em outubro de 1950 a Renault enfim apresentou o Colorale. Eram tempos em que a França tinha a péssima mania de manter algumas colônias na África, como Guiné, Tunísia e Marrocos. E foi daí que veio o nome: a junção de colo, de colônia, e rurale (rural em francês), e assim foi batizado o veículo, que atenderia as famílias das cidades e da mesma forma as do interior. Da França e das colônias…

Três modelos diferentes estavam disponíveis na nova linha. A Prairie era uma wagon de quatro portas (as traseiras de abertura “suicida”) e três janelas laterais. Graças às duas portas do porta-malas, a movimentação de bagagens e pequenas cargas era fácil. Essa era a versão urbana, com medidas até generosas: 4,38 metros de comprimento, 1,82 m de largura e 2,66 m de entre-eixos, muito menores que as wagons americanas .

Derivada da Prairie havia uma versão mais simples, própria para uso como táxi, e de olho no mercado africano. Contava com teto solar na traseira e um vidro para separar os passageiros da área do motorista. O terceiro veículo da série, chamado Savane, era um furgão com duas portas e com as laterais traseiras fechadas por chapas de metal ou lonas, no lugar dos vidros. Para acesso à carga podia ter duas tampas, uma abrindo para cima e outra para baixo, ou uma só porta normal na direita. Estava disponível apenas na cor amarela.

As carrocerias eram de aço estampado, repletas de curvas e claramente inspiradas nas grandes wagons americanas, em especial a Chevrolet Suburban. A dianteira ostentava generosa grade cromada e faróis redondos. O desenho geral era bastante simples, sem frisos decorativos e com as laterais limpas. O pára-brisa abria para a frente, para ajudar na ventilação do interior.

O motor era de projeto bem antigo, mas muito durável e bastante confiável. Cerca de 400 mil unidades dele já haviam sido montadas, aplicadas no modelo Primaquatre. Era de quatro cilindros em linha, 2.383 cm3, arrefecido a água e com comando de válvulas no bloco. Chamado de “85”, tinha a humilde potência de 48 cv; a tração era traseira. Com peso alto -cerca de 1.650 kg- o Colorale penava para chegar aos 100 km/h. Mas esta velocidade acompanhava a sua publicidade, destacando ainda o consumo de 8,5 km/litro de gasolina, a capacidade de carga útil de 800 kg e de reboque de 1.000 kg.

 Por dentro a Prairie era despojada, mas acomodava cinco adultos com relativo conforto em seus bancos bem simples. Como recurso opcional, a Renault oferecia um terceiro banco menor, que acomodava duas crianças, e sem esse banco o espaço para bagagens era até razoável. Rebatido o banco central, a capacidade para carga ou bagagem aumentava muito, para cerca de 2.750 litros. O volante era de dois raios, e tinha grande diâmetro. O painel era muito simples, com apenas dois instrumentos: velocímetro à direita e um instrumento combinado na esquerda, que indicava o nível de gasolina, carga da bateria e temperatura do motor.

No ano seguinte foi lançado o modelo picape, com boa capacidade de carga. A caçamba vinha integrada carroceria, e podia ser removida; era feita de aço ou madeira. Para demonstrar suas virtudes, uma picape e um Savane -entre novembro de 1951 e junho de 1952- rodaram da Terra do Fogo, na Argentina, até o Alasca. Foram mais de 45 mil quilômetros de expedição, e a dupla se mostrou muito robusta e confiável. A história conta que eram carros originais, sem preparação, e superaram condições difíceis durante vários trechos da expedição.

Em 1952 o modelo para táxi deixou de ser produzido. O motivo? Nenhuma empresa de transporte de passageiros se interessou e mesmo taxistas particulares não se entusiasmaram. Além disso, as vendas dos outros modelos também não decolaram. No ano seguinte, numa tentativa de melhorar a aceitação do Colorale, a Renault introduziu uma boa novidade, que era o motor derivado do usado no sedã Frégate. Com quatro cilindros em linha e comando de válvulas no bloco, tinha cilindrada menor (1.997 cm³), mas com 58 cv de potência. Mas não adiantou.

Como costuma acontecer na história de muitos automóveis, existem ideias e conceitos que são muito novos ao serem apresentados, apesar de serem brilhantes, e não funcionam bem na primeira vez que são colocados em prática. O caso Colorale foi um deles.

O seu preço alto numa época de economia combalida, as suas características limitadas e o elevado custo de adquirir uma unidade no pós guerra fizeram com que as suas vendas na França fossem bastante baixas, e com menos popularidade ainda em outros mercados e colônias. No total, estima-se que apenas 43.000 Renault Colorale foram fabricados entre 1950 e 1957, e muitos deles foram convertidos em tratores nos anos seguintes. devido ao seu baixo preço no mercado de usados e sua confiabilidade mecânica.

Pode-se dizer que era um SUV antes dos SUVs.


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