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Oito gerações e 59 anos: a história do Dodge Charger

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Em 1949, a Oldsmobile produziu aquele que é considerado o primeiro muscle car da história, o Oldsmobile Rocket 88. Equipado com um motor 4.9V8 (303 pol3), com 135 cv de potência e 32,5 mkgf de torque, simplesmente venceu 10 das 19 corridas da temporada de 1950 da NASCAR. A Oldsmobile continuou desenvolvendo o Rocket 88 até que, no início da década de 1960, o estopim que ele acendeu explodiu na forma gloriosa de caos V8, gasolina queimando, pneus derretendo e desenho automotivo atemporal.

da Redação, com Slashgear

A chegada ao mercado de carros como o Ford Mustang, Pontiac Tempest GTO e Plymouth Barracuda no início dos anos 1960 revelou uma demanda insana entre os jovens por veículos mais despojados e baratos, mas com potentes motores V8. Outras montadoras se esforçaram para acompanhar, e o que se seguiu foi nada menos que a era de ouro da indústria automotiva americana, celebrada até hoje e que produziu alguns dos carros mais desejáveis ​​de todos os tempos.

Em 1966, a Dodge estava pronta para entrar na briga. Seu cartão de visitas era um muscle car de médio porte com desenho interessante e nome -Charger- agressivo. Ao longo de uma carreira de quase seis décadas, o Dodge Charger teve seus altos e baixos. Mas, embora seu futuro possa ser incerto por conta da inevitável eletrifucação, ele conquistou um lugar de destaque no cenário dos muscle cars icônicos.

O Charger chegou para o ano-modelo de 1966 com uma pequena crise de identidade. Os desenhistas da Dodge adotaram o popular desenho fastback do Mustang para seu muscle car de porte médio e duas portas. Uma mistura estranha de desenho antigo e novo, parecia um Dodge Polara (americano, não brasileiro) com uma traseira fastback adaptada como uma ideia secundária. Mesmo assim, o Charger de duas portas visava capturar o mercado que salivava feito o cão de Pavlov por Chevelle e Olds 442. Pesando 1.580 kg, ele não conseguia competir com carros compactos mais leves (o Mustang de 1966 pesava entre 1130 e 1360 kg).

A Dodge oferecia cinco opções de motor, começando com nosso conhecido de 5.2V8 (318 pol3) que produzia 230 cv de potência. Os motores de médio porte variavam de 5,9 litros (361V8), produzindo 265 cavalos de potência, a 6,3 litros (383V8), com 325 cv de potência. Esses eram números respeitáveis ​​para a época, mas a estrela da tropa era o Hemi topo de linha de 7,0 litros (426V8), que impulsionou o Charger com 425 cv de potência máxima. Os motores Hemi estavam em linha desde o início da década de 1950 mas, no Charger, a Chrysler encontraria o veículo (desculpe o trocadilho intencional) que levaria o legendário motor até o século XXI.

Ainda assim, a primeira geração do Charger foi uma decepção em termos de vendas. Entre 1966 e 1967, a Dodge vendeu aproximadamente 53.000 Charger, enquanto a concorrente Chevrolet vendeu mais de 400.000 Chevelle somente em 1966. O Charger tinha um caminho íngreme, mas estava à altura do vencer o desafio. Apesar das vendas insignificantes, quase ridículas, a Chrysler deu sinal verde à Dodge para uma segunda geração.

Ficou evidente desde o início que a primeira geração do Charger tinha espaço para melhorias. Após um curtíssimo período de dois anos, a Dodge lançou a segunda geração para o modelo de 1968, e ela fez alguns bons progressos. A filosofia de desenho um tanto estranha da primeira geração foi abandonada. Embora a Dodge tenha mantido o fastback, o restante do veículo apresentava linhas mais retas, musculosa e curvada, e uma postura agressiva que sugeria que a Dodge havia parado de brincar.


Com uma linha mais ampla de opções de motor, incluindo um seis cilindros em linha de 3,6 litros (224) com 145 cv de potência, até o V8 de 6,3 litros e 330 cv o rei da linha ainda era o Hemi. Com o lançamento do Charger Daytona em 1969, que vinha com um 7.2V8 Magnum (439V8), os compradores com saldo bancário mais saudável, dispostos a desembolsar uma graninha extra pelo upgrade podiam adquirir o “pacote” mais potente Hemi 426V8 (7,0 litros), com 425 cv.

O Charger ainda era um carro de luxo —o modelo de 1970 pesava 1.700 kg!—, mas não se envergonhava do que era. Encaixava-se perfeitamente entre os Skylark, Chevelle e GTO da época. O Charger de segunda geração é indiscutivelmente o mais icônico de todos e um marco na história do automóvel; o preço médio de venda de um usado hoje gira em torno de US$ 150.000 (cerca de R$ 750 mil). A Dodge esperava vender 35.000 unidades do novo modelo no primeiro ano e acabou vendendo mais de 96.000. O nome Charger havia se popularizado, mas os rumos que o mundo estava prestes a tomar faria a era dos muscle cars ficar de cabeça para baixo.

Com o lançamento da terceira geração do Charger em 1971, marcou-se uma transição significativa no cenário automotivo. A breve era dos muscle cars de alta cilindrada estava chegando ao fim, em grande parte devido ao impacto das regulamentações governamentais americanas sobre emissões, como a Lei do Ar Limpo de 1970. Essa legislação efetivamente pôs fim à filosofia de “nunca substituir a cilindrada”, sinalizando o início de uma nova era no desenho e no desempenho automotivo. As iminentes crises do petróleo das décadas de 1970 e 1980 ressaltaram ainda mais a mudança dos tempos.

A terceira geração do Charger foi um digno último suspiro de uma era inesquecível. Embora a Dodge mantivesse em desenvolvimento uma opção de seis cilindros em linha com 110 cv, os entusiastas do desempenho gravitaram em torno dos V8, que permaneceram muito em evidência apesar das sempre crescentes restrições governamentais. O Daytona foi lançado como um modelo de desempenho, substituído pelo Road and Track (R/T) em 1971 e 1972. Os modelos de alto desempenho podiam gerar até 390 cv com um dos V8 mais conceituados e lembrados com carinho da época: uma configuração de 7,2 litros com o alardeado “six pacx”, um trio de carburadores de corpo duplo alimentando o esfomeado motor.

Os dias de glória dos muscle cars estavam se esvaindo rapidamente quando o último Charger de terceira geração saiu da linha de montagem, mas a Dodge havia trabalhado duro para garantir que o Charger se tornasse um nome no mercado. Eles não estavam dispostos a abrir mão do feliz nome de uma vez por todas.

Com o fim forçado da era dos muscle cars, a Dodge mudou sua atenção para o Charger. O último dos veículos com esse B Body se voltaria para o segmento de luxo. Restou apenas um tênue eco estético da geração anterior. O Charger de 1975 parecia mais algo que explodiria com um mafioso dentro -quase um carro de cafetão- do que um verdadeiro muscle car. A Dodge ofereceu aos compradores de seu cupê de luxo renascido novidades como um teto landau, interior com apliques de madeira e carroceria 25 centímetros mais longa que a versão anterior, apesar de manter o layout de duas portas.

Em meados da década de 1970, o resultado foi uma coleção de Charger sem a potência eletrizante de seus antecessores. O Daytona retornou entre 1975 e 1977, embora em versão reduzida. Os motores soavam apropriadamente robustos, com opções que incluíam V8 de 318 pol3 (5,2 l), 360 pol3 (5,9 l) e 400 pol3 (6,5 l), mas mesmo o modelo SE de 1978, topo de linha, com o motor 400V8, oferecia míseros 190 cv contra o peso de 1.880 kg.

A quarta geração parecia ser o começo do fim para o Charger. A regulamentação da poluição havia anestesiado o “sonho V8 americano”, e a crise do petróleo de 1979 estava próxima. Depois de 1978, o modelo entrou em hibernação. Só em 1982 ele reapareceria com uma forma drasticamente diferente.

Se a quarta geração abandonasse o que tornou o Charger tão especial, os fãs mal reconheceriam a plaqueta de identificação em seu retorno em 1981. À primeira vista, o novo Charger lembrava o Ford Mustang de terceira geração. Baseado na plataforma “Omnirizon”, que serviu de base para o Dodge Omni e o Plymouth Horizon, o Charger renascido era tudo menos um Charger.

O compartimento do motor escondia um segredo nefasto: um motor de quatro cilindros montado transversal, que enviava entre 62 e 94 cv (ou pôneis?”) para as rodas dianteiras. E agora, preparem-se para isso! A marca, que oferecia apenas motores V8 em 1966, passou a oferecer infames quatro cilindros de 1,6 e 2,2 litros em 1981, mas havia uma kuz no fim do túnel na figura de Carrol Shelby. Com sua ajuda, a Dodge lançou o Shelby Charger turbo e com transmissão manual apenas para o modelo de 1983. Produzindo 107 cv a 5.600 rpm, alcançava velocidade máxima de 188 km/h e fazia 9,2 km/l.

Não era ruim para o que era. Enquanto os Mustangse Camaro tentavam manter alguma semelhança com a potência dos V8, o Charger simplesmente seguiu outro caminho. A Chrysler precisava de um carro que pudesse vender em massa para as massas, e a eficiência de combustível (baixo consumo, na verdade) era a palavra de ordem. Depois de extrair o máximo possível dessa plataforma, a Dodge descontinuou o Charger mais uma vez após o modelo de 1987, e desta vez, parecia que era para sempre.

O Dodge Charger desempenhou muitas funções ao longo de sua carreira irregular. Chegou atrasado à festa dos muscle cars com um estilo ultrapassado, transformou-se numa lenda da Mopar, que fazia pistões explodirem e pneus rasgarem o asfalto, relaxou, se tornou um carro de luxo e consumia combustível como um cupêzinho familiar japonês. Por mais que o Charger tenha evoluído, ele sempre foi um essencialmentge um cupê. Até a Dodge anunciar seu retorno, prometendo “estilo cupê moderno com funcionalidade de quatro portas”… O novo Charger ressurgiria do mundo dos carros mortos como um sedã. A mudança pode ter irritado os puristas, mas pelo menos o Charger estava retornando a algo semelhante à sua forma antiga. A tecnologia finalmente havia alcançado as exigências regulatórias e de emissões, e veículos acessíveis e potentes com motores de grande cilindrada eram possíveis novamente.

De 2006 a 2010, um Charger digno desse nome retornou à linha. A versão base de 2006 chegou às ruas com um motor 2.7V6 de 193 cv, uma estrondosa melhoria em relação à versão da década de 1980. A Dodge ainda ofereceu uma oportunidade de retorno ao Hemi com um 5.7V8 (348 pol3) com 345 cv. A sempre disposta Divisão de desempenho da Dodge, a “Street and Racing Technology” (SRT), finalmente havia se reunido em um único departamento dentro da marca, e havia planos para o Charger. E assim foi.

Ao final da geração, em 2010, o Charger SRT-8 topo de linha produzia 431 cv com seu motor de 372V8 (6,1 litros). Melhor ainda, o Charger finalmente encontrou seu lugar na nova vida. Após muitas iterações, o Charger de sétima geração se provaria o mais bem-sucedido de todos os tempos.

O papel descomunal do Charger na história automotiva desmente sua identidade em transformação. A primeira geração durou apenas dois anos, e mesmo o Charger mais antigo durou apenas seis anos, entre 1981 e 1987. O Charger encontrou seu lugar como sedã, e a Dodge estava determinada a tirar o máximo proveito disso. À medida que o Charger avançava para a segunda década do século XXI, recebeu mudanças estéticas e funcionais, incluindo melhorias no interior, um perfil mais agressivo e melhor visibilidade. 

Os “pacotes” de motor para 2011 incluíam um novo Pentastar 3.6V6 (220 pol3), produzindo respeitáveis ​​292 cv de potência, indo até uma versão R/T com um Hemi 5.7V8 (348). No entanto, seria a divisão SRT que definiria a geração. O Dodge Challenger SRT Hellcat 2015 chegou bufando assustadores 707 cv de potência e 88 mkgf de torque. Na década seguinte, o Charger Hellcat estabeleceu o padrão para a potência americana acessível em níveis que beiravam a insanidade. A SRT continuou com sua loucura coletiva até o modelo de 2023, quando o Charger SRT Hellcat Redeye entregou 807 cavalos de potência e 71 mkgf para qualquer mortal disposto a desembolsar um caminhão de dinheiro.

Após 12 anos de produção, que dobraram a duração de qualquer geração anterior, a Dodge encerrou a sétima geração, mas não o molde anterior.

Agora que o Charger finalmente se consolidou como sedã, a Dodge fez o que historicamente sempre fez: mudou tudo. Em março de 2024, a oitava geração do Charger chegou ao mercado em uma variedade de versões, incluindo uma edição cupê e versões totalmente elétricas. O Charger Daytona R/T e o Daytona Scat Pack retornaram como cupês exclusivamente elétricos. A edição Scat Pack, mais potente, prometia 670 cv de potência. Mas nada de desespero, fãs de combustão interna; o mais recente Charger também vem com a opção do tradicional motor a gasolina, embora não com o bom e velho V8 Hemi que o serviu tão bem. Em vez disso, um seis cilindros em linha biturbo, que oferece duas versões, a mais potente atinge 550 cv! A Dodge espera lançar mais motores a combustão e os sedãs a partir deste ano.

Para os fãs do Dodge Charger, seja dos bons tempos de destruidor de asfalto do final dos anos 1960 ou das versões destruidoras de pneus que chegaram na década de 2010, podem esperar que a marca continue oferecendo modelos Charger potentes, mesmo que eles façam nascer a potência de formas completamente diferente. O Charger provou ser maleável ao longo dos anos. Ele vai comemorar seu 60º aniversário em 2026, apesar das interrupções na produção, e mudou quase tanto quanto a indústria automotiva mudou.

Se o Charger provou algo ao longo de sua ilustre carreira, é que sempre haverá espaço no mercado para carros que impressionam. Seu apelo duradouro, marcado por uma potência surpreendente -e talvez desnecessária- é uma prova do compromisso da Dodge em sempre produzir veículos de alto desempenho e que façam sonhar.


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