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Indústria automotiva entra no rearmamento da Europa

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A ligação entre o setor automotivo e a indústria militar não é nova. Ao longo do século XX, os fabricantes de automóveis foram forçados diversas vezes a contribuir para o esforço de guerra.

A indústria automotiva europeia está reforçando sua ligação histórica com o setor militar, num contexto de rearmamento acelerado daquele continente. Na França, a Renault estabeleceu uma parceria com a PME Turgis Gaillard para montar drones táticos na sua unidade de Le Mans, inicialmente destinados ao cenário de operações ucraniano, enquanto na Alemanha a Rheinmetall admite converter fábricas de automóveis, incluindo uma unidade da Volkswagen, para a produção de equipamento militar.

por Marcos Cesar Silva

De acordo com a imprensa especializada europeia, a produção dos drones associados à Renault poderá atingir até 600 unidades por mês no primeiro ano de atividade, integrando-se num esforço mais vasto de revitalização industrial e de reforço da capacidade defensiva europeia. Os recentes e crecentes conflitos e as imposições de Donald Trump causaram isso.

A ligação entre o setor de automóveis e a indústria militar não é nova. Durante o século passado, os fabricantes foram praticamente obrigados a contribuir para o esforço de guerra, dando origem a veículos militares emblemáticos. Um dos exemplos mais conhecidos é o Kübelwagen (imagem abaixo) -veículo utilitário leve derivado do Volkswagen Fusca- criado por Ferdinand Porsche, bem como a sua versão anfíbia, o Schwimmwagen 166.

Durante a II Guerra Mundial, dezenas de milhares destes veículos foram utilizados pelo exército alemão. Também marcas como BMW, Mercedes, Ford, General Motors e Renault participaram, em diferentes graus, no fornecimento de equipamento militar, em terra, ar e mar, um envolvimento que nem sempre ficou associado ao lado certo da história. Alguns, como a GM e a Ford, apoiaram de diferentes formas o nazismo e ganharam muito dinheiro com isso, o que é historicamente comprovado.

O exemplo mais recente desta convergência surge agora na França, com a colaboração entre a Renault e a empresa aeroespacial Turgis Gaillard, sediada em Neuilly-sur-Seine, principal contratada do Ministério da Defesa francês para programas aeronáuticos.

Apesar dos sigilos que obviamente envolvem essas questões, o Grupo Renault assinou um contrato para a montagem da estrutura de um drone tático em Le Mans. Os aparelhos terão envergadura próxima dos 10 metros e custo de produção descrito como “extremamente competitivo”. O projeto poderá envolver entre 100 e 200 trabalhadores e representa um contrato avaliado em cerca de US$ 1,2 bilhões ao longo de 10 anos.

A montadora francesa deixou claro, no entanto, que o seu papel não será o de “projetista de armamento”, mas o de parceiro industrial capaz de produzir em larga escala plataformas já desenvolvidas, tirando partido da sua experiência em produção em massa, controle de custos e confiabilidade industrial.

Também a Alemanha se prepara para reforçar a sua base industrial de defesa. A Rheinmetall, maior grupo de armamento daquele país, anunciou planos para converter duas fábricas de automóveis para a produção de equipamento militar, incluindo a unidade da Volkswagen em Osnabrück.

Atualmente dedicada à produção do T-Roc Cabriolet e de componentes para os Porsche 718 Cayman e Boxster, esta fábrica poderá produzir tanques e outros sistemas militares. A conversão permitiria ao governo alemão evitar os elevados custos associados à construção de novas instalações exclusivamente dedicadas à defesa.

Estas iniciativas refletem a decisão dos países europeus de reforçar rapidamente as suas indústrias de defesa diante do agravamento das ameaças externas. Os diversos ministérios da Defesa do continente procuram acelerar o desenvolvimento de capacidades de defesa e garantir meios para apoiar países aliados e OTAN, incluindo fora da União Europeia.

Da produção de automóveis à montagem de drones e tanques, a indústria europeia volta a desempenhar um papel central numa nova fase de militarização, em que eficiência industrial e capacidade produtiva são vistas como importantes ativos estratégicos.


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