Martini Racing: elegância em alta velocidade
A jornada imortal da Martini Racing nas pistas
No mundo do automobilismo, poucas imagens são tão instantaneamente reconhecíveis quanto as listras azul escuro/azul-claro/vermelha sobre fundo branco ou prateado. Mais do que um simples patrocínio, a Martini Racing tornou-se um símbolo de estilo, performance e uma das identidades visuais mais icônicas da história das competições.
De Le Mans às florestas lamacentas do WRC, passando pela Fórmula 1 e DTM, a marca italiana de bebidas escreveu capítulos de glória e vitórias que moldaram a cultura das pistas de competição.
Assim, Martini Racing é o nome que batizou e batiza várias equipes de corrida patrocinadas pela empresa italiana Martini & Rossi, uma destilaria italiana que produz o vermute Martini -a bebida preferida de James Bond- em Turim. O envolvimento da Martini com o automobilismo começou em 1958 com o Martini International Club, fundado pelo Conde Metello Rossi di Montelera da Martini & Rossi, que patrocinava diversas atividades esportivas na época.
por Rubens Caruso Junior

O Despertar de um Ícone (1968 – 1971)

A história de como essa fabricante de bebida se tornou uma grande patrocinadora do automobilismo começou com um homem chamado Paul Goppert, que era responsável pela publicidade e relações públicas da Martini na Alemanha.

Paul Goppert decidiu fazer uma incursão inicial no automobilismo de alto nível e juntou-se a dois pilotos de corrida consagrados, Paul Richards e Charlie Kolb, para preparar dois Alfa Romeo Giulietta SZ “Coda Tronca” para competir na “3 Horas de Daytona” em 1962.

O que tornava o carro especialmente significativo não era a cor, que era vermelha, mas sim o fato de que os para-lamas dianteiros de cada um deles ostentavam a inscrição “Martini & Rossi Racing Team” em letras brancas. Assim, a Martini estava fazendo sua estreia no automobilismo de resistência de alto nível. Começaram humildemente na “3 Horas de Daytona” de 1962 e obtiveram resultados promissores. A história oficial da Martini Racing começou em 1968. Foi naquele ano que a marca aproveitou as novas regras da FIA, que permitiam patrocínios comerciais, para se unir à Porsche.

O final da década de 1960 e a década de 1970 toda foi a era das calças “boca de sino”, sapatos com sola plataforma e pinturas psicodélicas, para dar a impressão visual de tudo estar sob efeito de LSD, mesmo quando não se estava. Janis Joplin tinha um Porsche 356 com pintura psicodélica, e John Lennon tinha seu Rolls-Royce pintado com um visual psicodélico.
Portanto, se alguma vez uma pintura psicodélica fosse aparecer em um carro de corrida, a década de 1970 seria, sem dúvida, o ano em que isso deveria acontecer. E aconteceu. Paul Goppert tinha um amigo chamado Hans-Dieter Dechent, concessionário da Opel na Alemanha. Dechent era fã das corridas, com predileção por provas de longa distância e carros da Porsche, e ainda apreciador de pinturas psicodélicas únicas e chamativas, como a que usava seu Porsche 917 LH (“Lang Heck”, versão longa) de corrida, e contou com a colaboração do desenhista da Porsche, Anatole Lapine, para criar uma pintura artística bem ao estilo dos anos 1970, com roxo e linhas onduladas em verde fluorescente fosco.

Essa pintura fez dele talvez um dos Porsche de corrida mais admirado de todos os tempos. Ele participou da “24 Horas de Le Mans” de 1970 e conquistou o segundo lugar, pilotado por Gerard Larrousse e Willi Kauhsen. E não foi só isso. O “Hippie Car”, como ficou conhecido, chamou a atenção da equipe Martini & Rossi International.

Em 1971, nasceu o que é reconhecido como a pintura clássica da Martini Racing. A nova pintura não parecia uma obra de arte sobre rodas criada sob o efeito de uma mistura de LSD e chás de cogumelos. Era uma pintura ao mesmo tempo artística e profissional, que aplicava as cores da Martini nas ondas psicodélicas do Hippie Car. O impacto foi imediato e avassalador. Em 1971, o lendário Porsche 917KH com as cores da Martini venceu a “24 Horas de Le Mans”, estabelecendo um recorde de distância que permaneceria intocado por quase quatro décadas.

Domínio em Múltiplas Frentes
A Martini nunca se contentou em participar carros de competição em apenas uma categoria. Sua presença se ramificou de forma estratégica nas pistas, unindo-se sempre a engenharia de ponta:
Endurance (Resistência): Após o sucesso com a Porsche nos anos 1970 (vencendo Le Mans novamente em 1976 e 1977 com o 936), a Martini formou uma parceria histórica com a Lancia nos anos 1980, competindo com os modelos LC1 e o feroz LC2 no Grupo C.


Rali (WRC): É aqui que a lenda se tornou imortal. A colaboração Lancia-Martini nos anos 1980 e 1990 resultou em uma das eras mais dominantes do esporte. Com o Lancia Delta Integrale, a equipe conquistou o incrível recorde de seis títulos mundiais de construtores consecutivos (1987-1992).

DTM: A história da Martini Racing no DTM (Deutsche Tourenwagen Meisterschaft) está diretamente ligada à icônica parceria com a Alfa Romeo durante a metade da década de 1990. A famosa pintura com as listras azul escura, azul clara e vermelha sobre fundo branco ou vermelho tornou-se um dos visuais mais memoráveis da história do automobilismo de turismo. Antes da parceria oficial com a Martini, a Alfa Romeo já tinha revolucionado o DTM em 1993 com o Alfa Romeo 155 V6 TI, quebrando a hegemonia alemã (Mercedes, BMW, Opel) logo na sua temporada de estreia com o piloto Nicola Larini. Com a chegada da Martini (1995-1996) a equipe oficial da Alfa Romeo (Alfa Corse) passou a contar com o patrocínio master da Martini Racing.

Fórmula 1: A marca teve diversas passagens pela categoria máxima do automobilismo. Patrocinou a equipe Tecno (1972), a Brabham de Bernie Ecclestone (1975-1978) —onde o brasileiro José Carlos Pace conquistou sua única e apoteótica vitória, em Interlagos em 1975— e a Lotus (1979). Após um hiato, retornou com a Williams entre 2014 e 2018, devolvendo o glamour da suas cores ao grid moderno.





Principais Conquistas e Números Relevantes

Abaixo, um resumo do que coloca a Martini no topo do mundo das competições:
| Categoria | Principal Carro | Títulos/Vitórias Notáveis |
| Le Mans | Porsche 917 / 936 | Vencedora em 1971, 1976 e 1977 |
| WRC (Rali) | Lancia Delta Integrale | Seis Títulos de Construtores (87-92) |
| Fórmula 1 | Brabham BT44B / BT45 | Vitórias em GPs (Brasil e Alemanha 1975) |
| Turismo (DTM) | Alfa Romeo 155 V6 TI | Domínio no campeonato italiano e alemão nos anos 90 |
Além do Asfalto: O Legado do “Estilo Martini”
A Martini Racing não se limitou aos carros. Nos anos 1970, a marca também deixou sua marca nas competições de Powerboats (lanchas de alta velocidade), vencendo campeonatos mundiais em 1973 e 1974.

O que torna a Martini diferente de outros patrocinadores é a sua capacidade de se fundir à máquina. O desenho das listras não era apenas aplicado, ele era desenhado para acompanhar as formas aerodinâmicas dos carros, tornando-os objetos de arte.

Hoje, mesmo fora de patrocínios master em grandes categorias, a “livery” da Martini continua sendo uma das mais requisitadas em restaurações de carros clássicos e edições especiais de colecionadores.

A história da Martini nas pistas é a prova de que, no automobilismo, a velocidade e a elegância podem —e devem— andar juntas. E se for vencendo, melhor ainda.

