Chevrolet colapsa na China, vendas caem 99% e a marca sai do mercado

A General Motors encerrou a venda de carros da marca Chevrolet na China, o maior mercado do mundo, após mais de duas décadas, reorientando a produção local para mercados emergentes e apostando na Buick e Cadillac. E isso pode afetar o Brasil.

A General Motors oficializou o fim das operações de produção e venda da marca Chevrolet na China, encerrando com isso um ciclo de 21 anos de presença direta no maior mercado automotivo do mundo. A decisão surge na sequência de um colapso sem precedentes nas vendas da marca norte-americana, que derreteram cerca de 99% ao longo da última década. Em 2014, no pico da sua popularidade naquele país, a Chevrolet vendeu mais de 767 mil automóveis entregues num único ano. Mas no ano passado, 2025, o volume de vendas desabou para menos de nove mil unidades, tornando insustentável a produção, manutenção da rede comercial e dos pontos de venda locais.
por Ricardo Caruso

O retumbante fracasso da Chevrolet em território chinês reflete a velocidade avassaladora com que o mercado automotivo local evoluiu e se transformou em direção aos chamados “Veículos de Nova Energia” (NEV, na sigla inglesa), classificação que abrange os modelos 100% elétricos e os híbridos plug-in. Enquanto os fabricantes locais, liderados por gigantes como a BYD e a Geely, dominaram a transição tecnológica com propostas acessíveis e fortemente focalizadas em software e conectividade, a linha da Chevrolet permaneceu parada no tempo e na contramão do mercado, permanecendo excessivamente dependente de motorizações tradicionais a combustão, aplicadas em modelos como o Malibu XL, Equinox, Blazer e Monza. Uma imperdoável falta de visão, de estratégia e cegueira em relação às exigências do consumidor chinês, o que acelerou a absoluta perda de relevância da marca junto do público.
Apesar da retirada completa do mercado, a GM não vai encerrar de vez, pelo menos por enquanto, sua atuação industrial naquele país. No âmbito da parceria com a estatal chinesa SAIC —cuja joint-venture SAIC-GM foi recentemente renovada—, as fábricas instaladas na China serão convertidas num ponto estratégico de exportação global. Os veículos da joint venture ali fabricados continuarão a ostentar o emblema da Chevrolet, mas terão como destino exclusivo os mercados emergentes (ou seja, mais pobres e menos exigentes) da América do Sul, México, Oriente Médio, África e Sudeste Asiático, tirando partido dos custos de produção e da eficiência da cadeia de abastecimento local.
Para o mercado interno chinês, a tentativa estratégica da General Motors passa a focalizar no reforço das suas marcas de posicionamento superior, como Buick e Cadillac, que ainda mantêm um certo nível de reconhecimento de marca e de quota de mercado consideravelmente mais sólido do que era a abandonada Chevrolet. A SAIC-GM prevê lançar pelo menos 30 novos modelos elétricos ou eletrificados até o final da década, alavancando o sucesso recente demonstrado pela linha Buick Electra por lá.
O Grupo assegurou ainda, em comunicado oficial, que a assistência técnica, garantia e fornecimento de peças de reposição para os mais de 7,5 milhões de proprietários de automóveis Chevrolet em circulação na China continuarão a ser integralmente garantidos pela estrutura da joint-venture.
Na década passada, Chevrolet e Saic desenvolveram a plataforma compartilhada GEM (“Global Emerging Markets”), que foi usada no Trax e no Monza no mercado chinês, e que também foi a base dos modelos Onix, Onix Plus, Tracker, Montana e, mais recentemente, no Sonic aqui no Brasil. A Saic vai desenvolver carros da Cadillac e da Buick para o mercado chinês, enquanto a General Motors terá a licença para exportá-los para outros mercados. A marca americana também continua autorizada a vender os carros da Wuling fora da China, como Spark EUV e Captiva EV, importados lançados no Brasil nos últimos dois anos.
