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Chrysler LHX 1996 conceito: o futuro que a marca ousou desenhar

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Houve uma época em que os grandes fabricantes de carros norte-americanos ainda acreditavam que um automóvel-conceito poderia fazer muito mais do que simplesmente chamar a atenção em um Salão. Ele poderia funcionar como uma declaração clara e objetiva de intenções, antecipar tecnologias, testar a reação do público e, principalmente, mostrar como a empresa imaginava o seu automóvel dos anos seguintes.

por Ricardo Caruso

Foi exatamente esse o papel desempenhado pelo Chrysler LHX, conceito apresentado pela marca em 1996, há 30 anos. Longe de ser apenas um exercício de estilo, o enorme sedã americano foi concebido como uma espécie de manifesto sobre o futuro dos automóveis de luxo da Chrysler. Seu desenho antecipava a segunda geração dos modelos derivados da plataforma LH, que chegaria ao mercado a partir de 1998, enquanto sua cabine e seus recursos tecnológicos procuravam imaginar como seria viajar em um automóvel de luxo um pouco mais adiante, no início do século XXI.

O LHX nunca chegou às concessionárias. Foi apenas um protótipo. Mas sua importância está justamente aí: poucas vezes um carro-conceito conseguiu ficar tão próximo de um futuro modelo de produção e, ao mesmo tempo, conservar a aparência tão radical.

A Chrysler em busca de um novo rosto

Para entender o LHX é preciso voltar alguns anos no tempo. No início da década de 1990, a Chrysler passava por uma transformação profunda, entre uma crise e outra. A empresa havia desenvolvido uma nova “família” de automóveis de grande porte utilizando a plataforma LH, responsável por modelos como Chrysler Concorde, LHS, New Yorker, Dodge Intrepid e Eagle Vision.

Essa arquitetura introduziu uma das ideias mais importantes do desenho da Chrysler daquele período: o conceito cab-forward, ou cabine avançada. O habitáculo era deslocado para a frente, com o para-brisa bem inclinado começando muito próximo do eixo dianteiro. O resultado era uma carroceria visualmente mais longa, com balanços menores e espaço interno aparentemente maior. No Brasil, o melhor exemplo disso foi o Chrysler Stratus, importado que fez muito sucesso por aqui.

Era uma solução particularmente inteligente para uma época em que os fabricantes americanos começavam a abandonar os enormes sedãs tradicionais, de capô comprido e cabine recuada, em favor de formas mais aerodinâmicas. O LHX levou essa filosofia ao extremo.

Se os primeiros carros da base LH de produção já pareciam modernos, o conceito apresentado em 1996 parecia ter vindo de uma década posterior. A própria Chrysler tratava o LHX como uma ponte entre passado e futuro. Tom Gale, então vice-presidente executivo de desenho e operações internacionais da empresa, chamou o conceito de heritage design: a ideia de recuperar elementos estéticos importantes do passado e reinterpretá-los de maneira contemporânea.

Não era uma tentativa de fazer um carro retrô. Muito pelo contrário. A intenção era utilizar a tradição como ponto de partida para criar uma linguagem completamente nova.

Um sedã que parecia estar em movimento

O primeiro impacto provocado pelo LHX vinha de suas proporções. Era um automóvel gigantesco: aproximadamente 5,45 metros de comprimento, quase 1,98 m de largura e cerca de 1,30 m de altura, com impressionantes 3,15 metros de distância entre-eixos.

Mas as dimensões, sozinhas, não explicam sua aparência. A carroceria tinha uma superfície extremamente limpa e a linha de cintura parecia avançar continuamente da dianteira para a traseira. O enorme para-brisa e o vidro traseiro eram muito inclinados, contribuindo para a sensação de velocidade mesmo quando o carro estava parado. O LHX parecia estar permanentemente inclinado para a frente.

A dianteira era uma das partes mais marcantes. A então tradicional grade Chrysler em formato de “egg-crate” (caixa de ovos) permanecia reconhecível, mas havia sido reinterpretada dentro de uma frente baixa e extremamente aerodinâmica. Ao lado da grade apareciam conjuntos ópticos formados por elementos elipsoidais, que davam ao carro uma expressão muito agressiva.

Não havia excesso de cromados nem enfeites gratuitos. A agressividade vinha principalmente da forma. Era uma característica recorrente do trabalho de desenho da Chrysler naquele período: criar automóveis reconhecíveis à distância sem depender de uma quantidade exagerada de detalhes.

Rodas de outro mundo

Outro elemento que chamava imediatamente a atenção era o conjunto de rodagem. O LHX utilizava rodas de alumínio polido de 19 polegadas na dianteira e 20 polegadas na traseira, dimensões extraordinárias para um sedã de 1996. Os pneus eram Goodyear, especialmente produzidos para a ocasião.

Hoje, rodas de 20 polegadas em automóveis de luxo são relativamente comuns. Na metade dos anos 1990, porém, elas transmitiam uma imagem quase experimental. A diferença de diâmetro das rodas entre os dois eixos também reforçava visualmente a postura do automóvel.

As rodas traseiras maiores faziam a carroceria parecer ainda mais apoiada sobre o eixo posterior, enquanto os enormes vãos das caixas de roda davam ao sedã aparência quase esportiva. O LHX não pretendia parecer simplesmente confortável. Queria parecer rápido.

Uma pintura que mudava de personalidade

A pintura também fazia parte do espetáculo criado pela Chrysler. O protótipo recebeu uma tonalidade chamada “Silver Green”, acabamento que podia alterar sutilmente sua aparência de acordo com a iluminação e o ambiente.

Era uma solução típica dos conceitos daquela época, quando os departamentos de desenho utilizavam pintura, materiais e iluminação como ferramentas para enfatizar as formas da carroceria. Sob determinadas condições de luz, o LHX podia parecer prateado; em outras, assumia uma tonalidade esverdeada.

Isso ajudava a destacar as superfícies curvas e a reforçar a percepção de que se tratava de um objeto com soluções muito avançadas.

Tecnologia sem exageros

Curiosamente, o LHX não apostava apenas em soluções futuristas. A Chrysler procurou combinar tecnologia com elementos que continuassem familiares ao usuário de um automóvel de luxo, em especial entre os fãs da marca, quese tão fiéis quanto a torcida do Corinthians.

O interior seguia a mesma filosofia. Em vez de criar uma cabine cheia de telas, comandos extravagantes e formas que rapidamente envelheceriam, os desenhistas adotaram uma arquitetura relativamente limpa, utilizando materiais nobres e formas simples. O habitáculo recebia couro, madeira, elementos cromados e alumínio polido.

O objetivo era fazer com que o interior parecesse sofisticado, e não simplesmente futurista. E essa distinção é importante. Muitos conceitos dos anos 1990 eram verdadeiros exercícios de ficção científica. O LHX, por outro lado, tentava responder a uma pergunta mais prática: como seria um automóvel de luxo da Chrysler daqui alguns anos?

O painel central

Entre as características mais interessantes estava o posicionamento do painel de instrumentos. O LHX adotava uma configuração em que os instrumentos eram concentrados em posição central, solução que permitia ao motorista e ao passageiro visualizar parte das informações.

Hoje a ideia não parece tão estranha. Em 1996, entretanto, ainda era bastante incomum em um grande sedã americano. A preocupação da Chrysler era também criar uma cabine visualmente mais aberta, clara, iluminada. O painel não deveria funcionar como uma enorme barreira entre motorista e passageiro.

Isso foi a antecipação de uma tendência que ganharia força posteriormente: o uso do interior como ambiente de convivência e não apenas como posto de comando.

Câmeras no lugar dos espelhos

Talvez uma das características mais futuristas do LHX estivesse nas laterais externas. O conceito experimentava um sistema de câmeras para substituir a função dos espelhos retrovisores convencionais. Pequenas câmeras montadas nas regiões das colunas dianteiras transmitiam imagens para o interior do veículo.

É importante lembrar o contexto. Em 1996, uma solução desse tipo estava muito distante da realidade dos automóveis de produção. Câmeras digitais ainda não apresentavam a mesma qualidade, tamanho e custo encontrados décadas depois.

O LHX, portanto, antecipava uma tecnologia que somente muitos anos mais tarde começaria a aparecer efetivamente em automóveis de série. Hoje, olhando para trás, essa talvez seja uma das características que mais revelam o caráter visionário do projeto.

Navegação por satélite

Outro recurso previsto para o LHX era um sistema de navegação por satélite. Novamente, é preciso colocar a tecnologia em perspectiva. Navegação por GPS em automóveis ainda era uma novidade extraordinária. Smartphones, aplicativos de mapas e sistemas de navegação conectados estavam muito longe de existir.

O LHX imaginava um futuro no qual o automóvel seria capaz de fornecer ao motorista informações digitais durante a viagem. A ideia de que um sedã pudesse conhecer sua localização e ajudar o motorista a chegar ao destino parecia algo muito futurista em 1996. Hoje é banal.

Um V6 para mover o gigante

Apesar da aparência quase espacial, o LHX não utilizava um motor experimental de arquitetura extravagante e combustíveis alternativos. Sob o longo capô estava uma evolução do clássico 3.5V6 Chrysler, integrante da “família” de motores utilizada nos modelos LH.

Era um V6 de 3.518 cm³, com comando de válvulas simples em cada por bancada e quatro válvulas por cilindro, totalizando 24 válvulas. A potência divulgada era de aproximadamente de 253 cv, enquanto o torque chegava a aproximadamente 35 mkgf. A alimentação era feita por injeção eletrônica sequencial e o câmbio era automático de quatro velocidades, associado à tração dianteira.

A escolha do V6 era significativa. O LHX não precisava de um enorme V8 para representar a Chrysler do futuro. A empresa queria demonstrar que um motor relativamente compacto poderia proporcionar desempenho adequado a um automóvel de luxo de grandes dimensões.

Tração dianteira e espaço

A utilização da tração dianteira fazia parte da filosofia que norteou o projeto da linha LH. A Chrysler havia escolhido esse caminho para combinar grandes dimensões externas com aproveitamento eficiente do espaço interno. O motor e o conjunto motriz eram posicionados de maneira a permitir uma cabine bem avançada e habitáculo espaçoso. No LHX, essa característica foi levada ao extremo.

A enorme distância entre eixos de 3,15 metros, permitia criar um interior muito generoso para quatro adultos. O conceito não era apenas muito comprido. Era espacialmente eficiente.

A Chrysler queria que seus futuros sedãs oferecessem uma sensação de espaço comparável à de automóveis ainda maiores, sem recorrer às proporções tradicionais dos grandes carros americanos daqueles tempos.

O paradoxo do LHX

É justamente aqui que aparece a parte mais interessante da história. O LHX parecia um carro completamente novo, mas sua missão era antecipar algo que a Chrysler realmente pretendia colocar nas ruas.

Publicações da época já observavam que o conceito carregava características estéticas e mecânicas que seriam encontradas na próxima geração dos sedãs de luxo da marca, então esperados para o ano-modelo 1998. E foi exatamente isso que aconteceu.

Chrysler Concorde 1998

O Chrysler Concorde (imagem acima) e seus “irmãos” de segunda geração, apresentados para 1998, adotaram uma interpretação mais racional das ideias mostradas pelo LHX. O conceito de dois anos antes, portanto, não foi um exercício isolado. Foi um laboratório.

Do LHX para os carros de produção

A segunda geração da plataforma LH na Chrysler -plataforma esta que teve origem no Eagle Premier, desenvolvido pela American Motors em parceria com a Renault, mas isso é história para depois- chegou ao mercado para o ano-modelo 1998.

Os modelos de produção eram naturalmente mais conservadores. Não havia as enormes rodas do protótipo, nem a carroceria extremamente baixa, nem todas as soluções eletrônicas experimentais. Mas a linguagem visual estava lá. O perfil aerodinâmico, a cabine avançada, as superfícies fluidas e a preocupação em criar uma aparência mais moderna e dinâmica eram claramente derivados do caminho aberto pelo LHX.

O LHX havia cumprido sua missão.

Um carro que envelheceu bem

Existe uma ironia na história do LHX. Alguns conceitos dos anos 1990 envelheceram muito mal. Quando vistos hoje, parecem caricaturas de uma visão de futuro que nunca aconteceu ou uma daquelas criações desastrosas da Hot Wheels.

O LHX é diferente. Parte de sua tecnologia evidentemente ficou datada. As câmeras, os sistemas de navegação e a instrumentação experimental pertencem a uma época em que a eletrônica automotiva ainda estava dando seus primeiros grandes passos.

Mas a carroceria continua impressionante. Seu perfil longo e baixo, a cabine avançada, os grandes vidros, a ausência de ornamentos excessivos e as enormes rodas ainda produzem uma sensação de modernidade. Isso demonstra a qualidade do trabalho de Tom Gale e de sua equipe. Eles não tentaram desenhar o futuro apenas por meio de efeitos visuais. Tentaram apenas encontrar uma nova proporção para o automóvel.

Tom Gale esteve por trás de uma geração de projetos que transformou radicalmente a imagem da empresa. A Chrysler daquela época produzia carros que muitas vezes pareciam diferentes de qualquer outro produto americano. O Viper, o Prowler, o PT Cruiser, os LH e conceitos como o LHX faziam parte de uma mesma cultura de desenho: criar automóveis com identidade forte.

No caso do LHX, a proposta era ainda mais sofisticada. O Viper representava desempenho e emoção. O Prowler explorava a interpretação moderna do hot rod. O PT Cruiser era nostalgia pura. O LHX procurava reinventar a grande limusine americana. E todos ajudaram a construir uma nova imagem para a Chrysler.

Talvez o maior mérito do LHX tenha sido justamente não virar um carro de produção. Se tivesse chegado às concessionárias exatamente como apareceu em 1996, provavelmente teria sido caro demais, complexo demais e tecnologicamente difícil de produzir. E difícil de vender.

As rodas gigantes, as câmeras, o interior artesanal e determinadas soluções construtivas precisariam ser adaptadas. Mas um conceito não precisa ser produzido para ser importante. Sua função é abrir caminhos, e o LHX abriu vários.

Mostrou que um grande sedã poderia ser aerodinâmico sem perder imponência. Demonstrou que tradição e modernidade não eram necessariamente opostos. E comprovou que tecnologia poderia ser integrada ao automóvel sem transformar seu interior em uma cabine de ficção científica.

O legado

Visto hoje, três décadas depois, o Chrysler LHX é uma espécie de cápsula do tempo. Ele representa o otimismo tecnológico dos anos 1990, quando a indústria automotiva acreditava que os próximos automóveis seriam cada vez mais inteligentes, aerodinâmicos e eletrônicos.

Mas também representa uma das fases mais ousadas da Chrysler. O LHX foi apresentado em um momento em que a empresa ainda tinha coragem de experimentar. Seu desenho influenciou a segunda geração dos grandes sedãs LH e ajudou a consolidar uma linguagem visual que marcaria a Chrysler no final dos anos 1990 e começo dos anos 2000.

O LHX nunca foi emplacado, nunca entrou em uma linha de montagem e nunca foi vendido. Mas cumpriu uma função talvez mais importante: mostrou o caminho antes que a estrada existisse. E é exatamente por isso que o Chrysler LHX 1996 continua sendo um dos conceitos mais interessantes da história recente da indústria americana.


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