Blog dos Caruso

Faleceu o inventor da “Seta de Moylan”. E você sabe o que é isso?

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Por vezes, surgem invenções com a capacidade de mudar o mundo como o conhecemos, como internet, celulares, Inteligência Artificial… Outras vezes, aparecem soluções discretas, bastante simples e baratas, mas que acabam por facilitar a vida de milhões. Uma delas é a “Moylan Arrow”, ou “Seta de Moylan”. Com certeza você já deparou com ela, mas não está ligando o nome à ideia.

O início desta história nos leva a 1986. James Moylan era um antigo engenheiro da Ford, e ao dirigir um carro da empresa rumo a uma reunião, em Dearborn, reparou que tinha pouco combustível no tanque e parou num posto para abastecer.

Por não conhecer muito bem o carro que dirigia, aconteceu exatamente o mesmo que já aconteceu com todos nós. No posto de combustível, parou num ponto em que a mangueira da bomba estava do lado oposto ao bocal de abastecimento do carro.

Superado o pequeno momento de frustração, Moylan continuou a viagem para a Ford, mas com uma nova ideia ganhando forma em sua cabeça: por que não criar uma forma de informar o motorista do lado correto do bocal de abastecimento, antes mesmo dele sair do carro?

Como vimos antes, Moylan trabalhava na Ford, como desenhista de acabamentos internos. Não era engenheiro de motores nem responsável por grandes trabalhos de estilo. O seu terreno eram os detalhes. E foi precisamente em um desses detalhes que deixou uma marca duradoura na história do automóvel.

Quem conduz o mesmo carro todos os dias dificilmente tem este tipo de distração com a posição do bocal do tanque. No entanto, para quem tem uma função relacionada com frotas ou usa carros diferentes no seu dia-a-dia —por exemplo, um jornalista especializado em automóveis…—, esta pequena invenção foi bem-vinda.

Moylan acabou por fazer o que poucos fazem e transformou este “incômodo” numa solução. Naquele mesmo dia,17 de abril de 1986, redigiu um memorando interno onde propunha algo simples: criar um símbolo junto ao indicador de combustível que mostrasse, de forma clara, de que lado do carro estava a tampa do tanque.

O primeiro esboço nem sequer era uma seta. Mostrava um carro visto de cima, com a tampa do tanque exageradamente destacada (como se pode ver na imagem abaixo do memorando, do lado inferior direito). A ideia acabou por ser lapidada até chegar à sua forma mais pura e simples: uma pequena seta, apontando para a esquerda ou para a direita. Informação instantânea. Zero distração visual.

James Moylan arrow - memorando
Tradução: “Gostaria de propor uma pequena adição aos futuros gráficos do painel de instrumentos em todos os automóveis de passageiros e comerciais. O indicador ou símbolo que tenho em mente estaria localizado junto ao medidor de combustível e indicaria de forma simples ao motorista de que lado do veículo se encontra a tampa do depósito de combustível.
Com base na minha experiência pessoal, ao aproximar-me das bombas de combustível com carros da frota da empresa, considero que este pequeno indicador eliminaria as suposições sobre de que lado devo estacionar.
Mesmo que, no futuro, todas as linhas de produtos Ford venham a ter o depósito localizado do mesmo lado, tendo em conta o reduzido investimento necessário por parte da empresa, acredito que seria uma funcionalidade conveniente e vantajosa não só para famílias com dois carros, mas também para usuários de frotas e, especialmente, clientes de aluguel de automóveis.
Atenciosamente,
James N. Moylan”

A estreia aconteceu no final da década de 1980, em modelos como o Ford Escort, por exemplo, antes de se espalhar pelas restantes linhas da marca e de ser adotada por diversos outros fabricantes. Atualmente, é difícil encontrar um automóvel novo que não inclua este detalhe, mesmo em painéis de instrumentos mais modernos. Um detalhe pequeno, discreto, quase invisível e, ainda assim, genial.

Durante décadas, milhões de motoristas confiaram e confiam nesta pequena seta, sem nunca se perguntarem quem a tinha imaginado. A verdade é simples: aquela seta economizou tempo, evitou constrangimentos e resolveu um “problema” com uma eficiência rara.

Curiosamente, Moylan nunca pediu reconhecimento pela sua ideia nem reivindicou a sua autoria. Durante anos, o seu nome permaneceu desconhecido, mesmo quando a sua invenção já fazia parte do quotidiano de milhões de pessoas. Só muito tempo depois, graças a pesquisas jornalísticas e ao trabalho dos arquivistas da Ford, o memorando original foi descoberto. O próprio chefão da marca, Jim Farley, chegou a compartilha-lo publicamente nas redes sociais.

Nesta história, há algo profundamente admirável. Num mundo obcecado pela eletrificação, telas digitasis maiores e potências absurdas, a “Moylan Arrow” nos lembra que o verdadeiro progresso também vive nos gestos simples.

James Moylan faleceu aos 80 anos. Não deixou um legado de dimensão astronômica, mas deixou algo ainda melhor: uma solução simples, barata, honesta e universal.


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