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Clássicos canadenses. Sim, eles existem…

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Carros que eram visualmente familiares e exóticos ao mesmo tempo, os modelos do mercado de origem norte-americana para os canadense sempre fascinaram os entusiastas estadunidenses. Aqui, AUTO&TÉCNICA mostra essas versões exclusivas de carros para o Canadá, mas que foram criados em Detroit, como o Acadian Canso 1966, que mostramos nessa ilustração abaixo.

por Ricardo Caruso

1966 Acadian Canso

A história automotiva canadense é antiga. Em 1867, Henry Seth Taylor, relojoeiro e joalheiro daquele pais, apresentou um veículo a vapor na Feira de Stanstead, em Quebec. A carroça a vapor de Taylor foi o primeiro “automóvel” criado no Canadá, mas ele logo caiu em um riacho; a verdade é que ele não incluía freios no seu projeto. Foi encontrado décadas depois desmontado e abandonado em um galpão e foi restaurado.

.A carroça a vapor de Seth Taylor.

Logo após o fracasso da carroça a vapor de Taylor, a indústria automotiva canadense decolou. Nelson e Milton Good criaram a LeRoy Manufacturing Company em 1899, apresentando o primeiro automóvel movido a gás produzido em larga escala para venda no Canadá, na verdade a mistura de um Oldsmobile e um American Mobile. A LeRoy foi seguida de perto por uma organização da qual você talvez já tenha ouvido falar: a Ford Motor Company of Canada. Gordon M. McGregor, de Windsor, fechou um acordo com Henry Ford apenas um ano após o início da produção da Ford em Detroit. Entre 1918 e 1923, o Canadá tornou-se o segundo maior produtor de veículos do mundo.

Infelizmente, LeRoy seguiu os passos de Taylor e criou um automóvel sem freios. A LeRoy Manufacturing faliu em 1907. Ford, no entanto, obteve sucesso vendendo o Modelo C (e, posteriormente, o Modelo T) no Canadá, esse sim um veículo com freios. O Modelo C original foi comercializado como “Carro de Médico”, sabe-se lá porquê…

Com população maior, acesso a recursos e produção mais barata, a influência dos Estados Unidos na indústria automotiva canadense tornou-se algo que deixou o governo cauteloso. Muitos dos automóveis produzidos naquela época vinham com um estilo tipicamente americano. Em 1950, a Buick encontrou um novo mercado no Canadá, na região de Newfoundland. Mas os carros de luxo não conseguiram sobreviver às estradas locais. Com chassis rachados e quebrados ameaçando sua reputação, a Buick enviou engenheiros para Newfoundland para criar um carro digno do Canadá. A Buick rapidamente aprendeu que, para sobreviver na natureza selvagem canadense, era preciso ser forte. Assim eles criaram o Buick feito para o Canadá, que tinha chassi pesado e reforçado, molas especialmente temperadas e amortecedores excepcionalmente eficientes.

Em 1936, o governo canadense impôs uma tarifa sobre carros importados na tentativa de proteger sua base de produção automotiva e incentivar a venda de produtos canadenses. Durante esse período, o Canadá passou a ter a indústria automotiva só para consumo interno. Começou a produzir carros indisponíveis nos Estados Unidos, como o Pontiac Beaumont, o Ford Monarch e o Chrysler Fargo.

Percebendo que o tarifaço estava, na verdade, prejudicando a economia canadense ao limitar o comércio com os Estados Unidos, mudanças foram necessárias. O Autopact de 1965 removeu as tarifas entre os Estados Unidos e Canadá em vigor, permitindo que veículos fossem vendidos através da fronteira sem impostos. O Canada–United States Automotive Products Agreement (Acordo de Produtos Automotivos Canadá-Estados Unidos), comumente conhecido como Autopact, foi o acordo comercial entre  o Canadá e os Estados Unidos assinado pelo primeiro-ministro Lester B. Pearson e pelo presidente Lyndon Johnson em janeiro de 1965. 

Embora com esse acordo os modelos exclusivamente canadenses tenham chegado ao fim, a década de 1960 e além dela ainda viu belos carros criados e produzidos no Canadá, como o Manic GT, o Chevrolet Corvair e o Bricklin SV-1. Hoje, as montadoras canadenses continuam operando. A economia de combustível continua forte, com o transporte consumindo cerca de metade de todo o petróleo usado no Canadá, e os automóveis são responsáveis ​​por cerca de metade dessa quantidade.

Mas viltando à história. A indústria automobilística dos Estados Unidos e sua prima canadense têm idades quase idênticas. Quase imediatamente após se estabelecerem em Detroit, no início do século passado, as montadoras começaram a organizar operações canadenses, já que estavam próximas, literalmente do outro lado do rio. O Rio Windsor no Canadá é o mesmo Rio Detroit, que separa a cidade canadense de Windsor da cidade de Detroit, nos Estados Unidos. As divisões canadenses prosperaram e, eventualmente, ofereceram suas próprias marcas e modelos adequados às condições únicas de mercado do seu país.

À primeira vista, essas versões canadenses dos carros americanos hoje parecem simplistas, até compreendermos alguns fatos importantes sobre o mercado automotivo do Canadá. O país é ligeiramente maior que os Estados Unidos em área, mas tem apenas cerca de 10% da população, com muito menos cidades e distâncias consideráveis ​​entre elas.

Como resultado, as redes de concessionárias de carros no Canadá ficaram extremamente sobrecarregadas. Os alinhamentos de marcas aparentemente estranhos -revendedoras Ford vendendo modelos baseados nos Mercury, Pontiac vendendo Chevrolet com aparência levemente modificada e assim por diante— tinham como objetivo fornecer a cada franquia de lojistas locais, de Montreal a Moose Jaw, a mais ampla linha de produtos possível. Vendo dessa perspectiva, as mutações dos modelos fazem todo o sentido.

Este não é um levantamento completo dos modelos exclusivos de carros canadenses, apenas uma ideia de como a coisa fluiu.

1940 Pontiac Arrow Coach

Um dos primeiros veículos da General Motors específicos para o Canadá foi o Pontiac Arrow, lançado em 1939 (que foi apresentado em 1940). Os emblemas e a grade diziam se tratar de um Pontiac, mas o resto do carro era todo Chevrolet. O Arrow tinha o mesmo chassi de 113 polegadas (2,87 metros) de distância entre-eixos do Chevrolet Master e era equipado não com motores Pontiac de seis ou oito cilindros em linha, mas com o motor Chevrolet de seis cilindros de válvulas no cabeçote. Além da linha Arrow, com preço similar ao da Chevrolet, as concessionárias Pontiac canadenses também ofereciam modelos Pontiac em versão dos Estados Unidos nesse período.

Monarca de 1949

A Ford do Canadá lançou a marca Monarch em 1946 para oferecer às concessionárias Ford um carro de passeio na faixa de preço do Mercury (a imagem acima mostra o carro de 1949). E o Monarch era na verdade um Mercury, ou mais ou menos era, mas com grade, emblemas e acabamentos exclusivos. A plaqueta de identificação Monarch foi abandonada em 1961, apenas para reaparecer nos Estados Unidos em 1975 na versão Mercury do Ford Granada, um carro quase luxuoso.

Dodge Mayfair V-8 2 portas hardtop 1957

Aqui está um produto da Chrysler com dupla personalidade: o Dodge Mayfair 1957 era um Dodge na frente e um Plymouth na traseira, com um conjunto de suspensão Plymouth nas quatro rodas. A intenção era oferecer às concessionárias Dodge-DeSoto no Canadá um carro para vender na popular linha de baixo custo do Plymouth. Os entusiastas da Mopar gostam de chamar por lá essas misturas Dodge-Plymouth de “Plodges”. Outros modelos Plodge dos anos 1950 incluíam o Regent e o Crusader.

Meteor Montcalm 1960, quatro portas, capota rígida

Assim como o Monarch era um produto baseado na Mercury oferecido pelas concessionárias Ford, o Meteor (que era uma marca da Ford para o mercado canadense de 1949-1976) era na verdade um Ford rebatizado, comercializado pela rede canadense Lincoln-Mercury. Aqui, vemos um Meteor Montcalm de quatro portas, modelo 1960, com capota rígida, que lembra bastante o Ford americano do mesmo ano. A Meteor foi uma das marcas canadenses mais populares, frequentemente ocupando o quarto lugar em vendas, atrás apenas de Chevrolet, Ford e Pontiac.

1960 Fod Frontenac f

O Ford Frontenac foi uma edição especial de apenas um ano, oferecida só em 1960, e posicionada como uma marca independente, mas comercializada pelas concessionárias Lincoln-Mercury. Na verdade era um Ford Falcon com uma grade mais elaborada. O Frontenac proporcionou às concessionárias Lincoln-Mercury uma entrada na categoria dos carros compactos. Foi descontinuado em 1961, substituído pelo Mercury Comet. O slogan inexplicável da marca era “The Frontenac Eventful”, um trocadilho para “Frontenac cheio de novidades”…

Pontiac Strato-Chief hardtop e sedan 1969

Os Pontiac canadenses dos anos 1950 e 1960 são um quebra-cabeça divertido para os fãs de carros de ambos os lados da fronteira. O estilo é Pontiac puro, mas o chassi e as dimensões da distância entre-eixos são Chevrolet, assim como os motores: toda a gama de motores V8 small ou big block da Chevrolet, além do venerável seis cilindros. A Pontiac canadense também oferecia modelos básicos mais simples, com níveis de acabamento inferiores aos de seus equivalentes americanos, como, por exemplo, o Pathfinder (não confundir com o Nissan de mesmo nome) e os Strato-Chief Sedan e Sport Coupe de 1969, mostrados acima.

Acadian Canso Sedan e Sport Coupe 1966

A marca Acadian da GM (1962-1971) é frequentemente descrita como um “Pontiac canadense”, mas isso não é exatamente correto. Na verdade, o Acadian era uma marca separada, comercializada por meio da rede de concessionárias Pontiac-Buick no Canadá. Os modelos incluíam o Canso, o Chevy II levemente remodelado e o Beaumont, um modelo baseado no Chevelle que acabou sendo desmembrado como marca separada. Mostrados acima (e na ilustração de abertura desta matéria) o Canso Sedan e o Sport Coupe de 1966.


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