Segurança em risco? Fabricantes retiram um elemento essencial dos automóveis modernos
Até pouco tempo atrás, vigorava uma regra — não escrita — no setor automotivo, que agora está sendo esquecida: a necessidade de limpador de vidro traseiro em alguns carros.
por Ricardo Caruso

Aos poucos, as montadoras vão eliminando itens de seus carros. Primeiro foi o estepe (em muitos casos substituído por um selante e uma bomba de ar), depois acendedor de cigarros e cinzeiro (tudo bem que interior dos carros não é fumódromo), depois a alça interna (o famoso “pqp”) e agora é a vez do importante limpador traseiro, presente durante décadas em incontáveis automóveis, que está se tornando cada vez mais raro nos modelos recentes, em especial na Europa. Este equipamento, considerado essencial para garantir visibilidade traseira em condições adversas, está sendo eliminado em especial nos veículos elétricos, apesar de não existir qualquer alteração nas necessidades de segurança dos condutores.
Até há pouco tempo, vigorava uma regra não escrita no setor automotivo: os modelos hatch, wagons, minivans ou SUVs — e até alguns sedãs e cupês — incluíam sempre o limpador traseiro, enquanto esportivos com vidros muito inclinados dispensavam esse elemento. Esta distinção baseava-se em critérios de aerodinâmica, já que os modelos com traseira mais vertical acumulam mais sujeira no vidro traseiro devido aos vórtices de ar gerados durante a condução.
Na dianteira, o número de limpadores mais comum é dois, mas muitos modelos usam apenas um, e em casos raros, três limpadores são aplicados. Na traseira, o número vai de um (mais comum) chegando a dois, como aconteceu em alguns modelos conceituais ou especiais, ou mesmo disponíveis em algumas wagons Toyota e Datsun. Até mesmo quatro limpadores traseiros (dois externos e dois internos) são encontrados na história do automóvel. Só para constar, existiram diversos modelos com limpadores de faróis (para neve) ou mesmo uma tentativa de usar limpadores laterais, para liberar a visibilidade para os retrovisores externos. A conta ideal e mínima é mesmo dois limpadores dianteiros e um traseiro.

Mas a aplicação do limpador traseiro, que se tornou comum e hoje está correndo risco, encontrou sua popularização por meio de uma humilde wagon familiar, 15 anos depois do lançamento do acessório predileto da Pininfarina (abaixo). Era oferecido na linha Volvo 140 de 1969 (acima). Era perfeito para a wagon 145 “tijolo”, com seu vidro traseiro vertical.


A justificativa técnica para sua aplicação é consistente ao longo dos anos, mas a realidade mudou. Muitos motoristas não circulam a velocidades que permitam ao fluxo de ar manter o vidro limpo, o que torna o limpador traseiro indispensável em situações de chuva, lama, neve ou poeira acumulada. Mesmo assim, vários fabricantes estão dispensando este item, com destaque para os modelos elétricos que teoricamente privilegiam a eficiência aerodinâmica.

O fenômeno de buscar o limpador traseiro não é totalmente novo. Houve exceções históricas motivadas por pedidos de clientes, como o caso do empresário alemão Alfried Krupp von Bohlen, que em 1962 exigiu da Porsche a instalação de um limpador traseiro no seu 356, obrigando os engenheiros a perfurar o vidro para instalar o equipamento. Anos mais tarde, o primeiro 911 Turbo também adotou este elemento, algo raro num esportivo de alto desempenho, mas que o construtor alemão manteve ao longo de várias gerações. Nos anos 1970, a Dacon instalava limpadores traseiros em alguns de seus modelos transformados. Por volta de 1978 instalamos um limpador traseiro numa Brasília do ano, usando para isso um motorzinho elétrico de Jeep e uma haste de Porsche…


Na década de 1990, alguns modelos sedãs de quatro portas usaram este equipamento, incluindo versões do Ford Orion e do Peugeot 306 Sedan, apesar disso ser pouco usual em carros com porta-malas separados. Embora limitado a versões específicas, provou ser útil em velocidades reduzidas, quando a chuva ou a sujeira prejudicam a visibilidade traseira.

O desaparecimento do limpador traseiro é particularmente evidente nos veículos elétricos mais recentes. Modelos como os Hyundai Ioniq 5 e 6, Toyota bZ4x, Subaru Solterra, Lexus RZ, Kia EV4 e EV6 ou o Tesla Model Y não incluem o equipamento. Os fabricantes justificam a decisão com ganhos aerodinâmicos que, em teoria, aumentam a autonomia. Porém, não existe consenso sobre o impacto positivo real desta omissão e muitos motoristas consideram que a sua segurança e tranquilidade ao dirigir ficam comprometidas, sobretudo em zonas urbanas e em condições climáticas desfavoráveis. Os motoristas europeus são muito exigentes no assunto “segurança”, diferente dos brasileiros.