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Pulsar NX 1986: o revolucionário Nissan “4 em 1”

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Para quem cresceu interessado em carros nos anos 1980, o Brasil foi uma decepção. Mas em mercados mais desenvolvidos, foi um período de muitas novidades, e carros como o Nissan Pulsar NX (EXA no Japão) significam o auge do que aquela época significava até mesmo em nível pessoal: experimentação, superar limites, ir em busca do que era novo e legal, e se destacar, por conta dos cabelos longos, maquiagem carregada ou ideias malucas sobre música e cinema.

por Ricardo Caruso

Em sua configuração-base, o Nissan EX era um simpático cupê.

Alguns chamaram esse Nissan de “o canivete suíço dos carros”, enquanto outros o viam como um “carro-camaleão”. Mas a melhor analogia -mais apropriada para a época- via o Pulsar NX como algo parecido com um “Transformer”, afinal ele vinha com peças de carroceria removíveis e intercambiáveis, ​​que você podia trocar na sua garagem e assim modificar o carro. Claro que não era uma operação simples, mas esse era o diferencial do carro.

Durante a década de 1980, a indústria automotiva japonesa viveu um dos seus períodos mais criativos. Em meio à explosão econômica do Japão, fabricantes buscavam conquistar mercados internacionais com produtos cada vez mais sofisticados, tecnológicos e diferenciados. Foi nesse contexto que surgiu o Nissan Pulsar NX, um automóvel que fugia completamente dos padrões estabelecidos para um cupê compacto da época.

Conhecido em alguns mercados como Nissan EXA, o modelo vendido nos Estados Unidos como Nissan Pulsar NX representava uma proposta ousada: unir esportividade, versatilidade e soluções inéditas de carroceria em um único veículo. Ele podia ser um cupê, wagon, conversível ou picape, ao gosto e necessidade do dono.

Hoje, o Pulsar NX ocupa um lugar de destaque na história dos automóveis e entre os entusiastas dos chamados Japanese Domestic Market (JDM) e dos esportivos compactos dos anos 1980, sendo lembrado como um dos projetos mais originais e interessantes da história da Nissan.

A origem do projeto

O nome Pulsar já era utilizado pela Nissan desde o fim da década de 1970 em uma linha de automóveis compactos com tração dianteira. Entretanto, a marca desejava criar uma versão mais emocional e voltada ao público jovem, especialmente no mercado norte-americano.

Nissan Pulsar EXA 1982, compacto pronto para agradar o mercado norte-americano.

A primeira geração do EXA (acima) apareceu em 1982, mas foi a segunda geração, lançada em 1986, que se transformaria no Pulsar NX (no Japão vendido como EXA) conhecido mundialmente. O carro utilizava a plataforma do Nissan Sunny/Pulsar N13, compartilhando diversos componentes mecânicos com hatchs convencionais, porém apresentava uma carroceria completamente exclusiva.

A Nissan comercializava o carro com o nome EXA no Japão, anunciado como “um conversível multifuncional“.

Seu desenho foi desenvolvido para transmitir modernidade. Linhas angulares, superfícies limpas, faróis escamoteáveis e uma traseira bastante peculiar, que davam ao modelo personalidade própria. Em uma época em que muitos cupês compactos tentavam imitar esportivos maiores, o Pulsar NX escolheu um caminho diferente: ser inovador.

As linhas eram bastante avançadas e dentro do que se usava na época em desenhos mais esportivos.

O conceito “Sportbak”

O grande destaque do Pulsar NX era seu sistema denominado “Sportbak”; no Japão era chamado de “Canopy”. Tratava-se de um conjunto removível de peças que permitia transformar o carro em diferentes configurações. O proprietário podia retirar o teto do tipo T-top e substituir toda a seção traseira por módulos distintos.

Nesta configuração, uma picape targa. Mas podia ser um conversível também…
Aqui, o Pulsar NX em sua elegante forma de cupê.

Na configuração tradicional, o carro assumia a forma de um elegante cupê esportivo de dois lugares mais dois assentos traseiros ocasionais. Entretanto, com a aplicação do conjunto “Sportbak” (ou “Canopy”), ganhava uma área traseira ampliada, praticamente transformando-se em uma pequena wagon esportiva (abaixo).

Era uma solução extremamente criativa e rara na indústria automobilística. O conceito aplicado pela Nissan buscava oferecer o melhor dos dois mundos: o estilo de um cupê e a praticidade de um hatch com maior capacidade de carga.

Embora a ideia tenha despertado curiosidade e recebido elogios pela originalidade, o elevado custo do acessório limitou sua popularidade. Ainda assim, tornou o Pulsar NX um dos carros mais interessantes dos anos 1980.

Desenho futurista

O visual do Pulsar NX refletia perfeitamente a linguagem de desenho seguida na época.

A dianteira era dominada pelos faróis escamoteáveis, um dos símbolos máximos da esportividade nos anos 1980. O capô baixo e inclinado contribuía para uma aparência agressiva, enquanto a ampla área envidraçada favorecia a visibilidade.

Nas laterais, chamavam atenção as linhas geométricas e os vincos bem definidos. Já a traseira possuía desenho elevado e amplas lanternas horizontais integradas ao conjunto.

Internamente, o ambiente seguia a filosofia típica dos esportivos japoneses daquele período. O painel apresentava instrumentos de leitura clara, comandos voltados ao motorista e excelente ergonomia.

Apesar das dimensões compactas, havia preocupação com o conforto, oferecendo itens pouco comuns para veículos acessíveis da época.

Mecânica eficiente

O Pulsar NX utilizava motores de quatro cilindros da “família” E da Nissan. Nos Estados Unidos, a gama incluía inicialmente o motor E16i, de 1.6 litros e injeção eletrônica monoponto, desenvolvendo aproximadamente 70 cv de potência máxima.

Posteriormente, surgiram versões mais potentes equipadas com o conhecido CA16DE, um moderno motor de 1.6 litros com duplo comando de válvulas no cabeçote (DOHC) e quatro válvulas por cilindro. Esse motor entregava cerca de 110 cv, desempenho bastante respeitável para um automóvel compacto do final dos anos 1980.

As transmissões disponíveis incluíam câmbio manual de cinco marchas e automático de três ou quatro velocidades, dependendo do mercado e do ano-modelo.

Embora não fosse um esportivo puro, o baixo peso do conjunto proporcionava respostas ágeis e comportamento divertido ao volante.

Dinâmica surpreendente

Outro aspecto interessante do Pulsar NX era seu refinamento dinâmico. A suspensão dianteira independente do tipo McPherson era complementada por um sofisticado sistema traseiro independente, solução ainda relativamente rara entre compactos daquela época.

Interior típico dos carros da década de 1980, confortável e elegante.

Essa configuração favorecia a estabilidade em curvas e contribuía para uma condução equilibrada. A direção precisa e a boa distribuição de massas reforçavam a sensação esportiva.

Jornalistas especializados norte-americanos destacavam que o Pulsar NX entregava uma experiência de condução mais envolvente do que muitos concorrentes diretos, ainda que o desempenho absoluto não fosse seu principal atributo.

Equipamentos avançados

Dependendo da versão e do mercado, o Nissan podia oferecer uma lista de equipamentos bastante generosa.

Entre os itens disponíveis estavam:

  • teto removível do tipo T-Top;
  • vidros elétricos;
  • travas elétricas;
  • retrovisores com ajuste elétrico;
  • ar-condicionado;
  • sistema de som premium;
  • volante esportivo;
  • rodas de liga-leve;
  • acabamento interno diferenciado.

Para um automóvel compacto produzido há 40 anos, tratava-se de um conjunto bastante sofisticado, interessante aainda nos dias de hoje..

Concorrentes da época

Nos Estados Unidos, o Pulsar NX enfrentava rivais como:

  • Honda CR-X;
  • Toyota Corolla FX16;
  • Mazda MX-3 (já no início dos anos 1990);
  • Ford EXP.

Entretanto, nenhum deles oferecia algo comparável ao sistema “Sportbak”. O Nissan destacava-se justamente por propor uma versatilidade inédita em seu segmento.

Sucesso moderado

Apesar da originalidade, o Pulsar NX nunca alcançou volumes expressivos de vendas e saiu de linha em 1990.

Diversos fatores contribuíram para isso. Seu posicionamento de mercado era difícil de explicar ao consumidor: não era exatamente um cupê tradicional, nem um hatch convencional, nem uma wagon, nem um conversível. Como transmitir ao público que era tudo isso ao mesmo tempo?.

Além disso, o aumento da popularidade dos utilitários esportivos compactos e a preferência crescente por modelos de quatro portas reduziram o apelo dos cupês pequenos no final da década de 1980.

A produção foi encerrada em 1990, sem um sucessor direto com características semelhantes.

O Pulsar NX clássico?

Décadas após o fim de sua fabricação, o Nissan Pulsar NX enfim conquistou reconhecimento entre colecionadores que tem acesso a ele.

Os exemplares equipados com o motor CA16DE e, principalmente, aqueles preservados com o raro conjunto “Sportbak” comleto, tornaram-se altamente desejáveis entre os esportivos japoneses clássicos.

Seu valor histórico reside justamente em sua ousadia. Em uma indústria frequentemente guiada pela racionalidade exagerada, o Pulsar NX representou uma tentativa genuína de inovação.

Considerações finais

O Nissan Pulsar NX é a prova de que os automóveis mais interessantes nem sempre são os mais vendidos.

Com seu desenho futurista, soluções modulares inéditas e dinâmica competente, o modelo demonstrou a vontade da Nissan em testar novas ideias durante aquele período, talvez o mais criativos da indústria japonesa.

Resumindo: os painéis do teto eram removíveis, tornando o Nissan EXA/NX em um conversível targa; era – só acomodar o teto no porta-malas. No Japão, o EXA era comercializado com destaque como um cupê ou shooting break, este último com o sobrenome “Canopy”, e era preciso comprar as partes do teto à parte. Os americanos, por sua vez, podiam comprar o carro com os dois tetos e os componentes necessários, e o sobrenome “Sportbak”.

O EXA japonês em seu conjunto batizado de “Canopy”.

Hoje, ele permanece como um dos grandes “cult cars” dos anos 1980: um automóvel que desafia classificações, desperta curiosidade por onde passa e simboliza uma época em que a originalidade ainda encontrava espaço nos departamentos de engenharia e design.

As quatro configurações destacadas para o mercado do Japão.

No Brasil não há registro de nenhum deles, pois ele saiu de linha antes mesmo da liberação dos importados aqui e a Nissan só se instalou no País em 2000. Uma ou outra importação independente pode ter acontecido.

Para os apaixonados por carros japoneses clássicos, o Pulsar NX não é apenas uma raridade. É um lembrete de que a inovação, mesmo quando não alcança sucesso comercial imediato, pode deixar um legado duradouro na história do automóvel.


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