CV, HP, BHP ou KW: as diferentes formas de medir a potência
São várias as unidades utilizadas para medir a potência de um automóvel. Variam de país para país, e a mais comum é em cv (“cavalo-vapor”). Mas isso também pode ser registrado em hp, bhp e kW. Para entender como funciona essa medição, é preciso recuar ao século XVIII, início da Revolução Industrial, para melhor contextualizar o uso de cavalos como unidade de potência.
por Ricardo Caruso

Naquele período é que encontraremos o escocês James Watt, famoso inventor, químico e engenheiro. Entre os muitos feitos conquistados por ele, talvez o mais importante e conhecido foi o de ter evoluído substancialmente a máquina a vapor criada por Thomas Newcomen em 1712, que se mantinha basicamente inalterada durante décadas.
Após fazer reparos em uma dessas máquinas e aproveitar para fazer muitas experimentações na década de 1760, James Watt encontrou soluções que acabaram aumentando bastante o rendimento da máquina a vapor. Com seu trabalho, o ganho em eficiência foi brutal —o consumo reduzido em 75%—, assim como em aumento de potência e a relação custo/benefício, que passaram a ser muito superiores.
No entanto, foi apenas em 1781 que Watt conseguiu ter a sua máquina a vapor realmente útil, com os cuidados de construção necessários para ser comercializada. E foi aí que surgiram as primeiras questões sobre como divulgar e promover os ganhos em eficiência obtidos em relação à máquina de Newcomen.
Inicialmente, Watt criou um sistema de remuneração por royalties, onde os seus clientes pagariam a ele 1/3 das economias conseguidas ao usar a sua máquina em comparação com outras. A questão era como fazer com que os novos clientes percebessem as vantagens da sua máquina quando nunca tinham tido contato com esta nova tecnologia.
Na época, não existia uma unidade para medir os ganhos e vantagens de uma tecnologia diante de outra. Era preciso encontrar uma solução e, como uma vez inventor, sempre inventor, Watt decidiu criar uma unidade de medida que permitisse a rápida comparação da sua máquina com a “máquina” mais usada na época para todo o tipo de trabalhos: o bom e velho cavalo.
Assim se tornava bem mais fácil explicar e comparar a performance da sua máquina. Na teoria, ter uma motorização com 1 cv de potência seria o equivalente a ter um cavalo em termos de produtividade. E assim nascia a unidade de medida horsepower (“cavalo-potência”, ou “hp”), que se tornaria o atual “cavalo-vapor” (cv).
Não se sabe exatamente as experiências que James Watt testou para determinar a equivalência da potência de um cavalo. Não se sabe ao certo como chegou aos números finais, existindo diversas versões sobre essas experiências.
No entanto, não existem dúvidas quanto à raça de cavalo que serviu de referência: o cavalo de tração. Era uma raça robusta, tipicamente usada na Europa em trabalhos em minas ou lavouras, exatamente os cenários onde a sua máquina a vapor mais podia ser usada.
No final, ficou determinado que um “cavalo-vapor” equivaleria a 33.000 libras-pés por minuto, já que a potência é o equivalente ao trabalho realizado sobre uma unidade de tempo. Esta medida define a quantidade de trabalho mecânico realizado em uma unidade de tempo. Ela foi estabelecida por Watt ao calcular que um cavalo de tração era capaz de erguer -na definição clássica do sistema métrico- verticalmente, em um segundo, uma massa de 75 kg a 1 metro de altura. Na imagem abaixo podemos ver a representação do cálculo e a experiência efetuada para chegar a este resultado:

Independente dos cálculos efetuados para determinar o seu valor, o “cavalo-vapor” passou a ser a principal unidade para determinar a potência dos motores e ainda hoje é a mais usada. E é também devido a essas diferentes formas de cálculos que existem as difrenças entre cv, hp ou bhp.
As contribuições de Watt para o avanço das máquinas a vapor levariam a que se adotasse o seu sobrenome, “Watt”, como medida de potência padrão pelo SI (Sistema Internacional de Unidades) em 1972. Mas ainda continuamos a querer saber a potência do motor em “cavalos” e não em watts (W), ou melhor, quilowatts (kW). Assim, um cavalo-vapor corresponde a 735,5 W ou 0,7355 kW, e um horsepower corresponde a 745,6 W.
O BMW M5 2026 comercializado nos Estados Unidos, por exemplo, entrega a potência combinada de 717 hp, gerada por um motor 4.4V8 biturbo aliado a um sistema híbrido plug-in. No Brasil, esse mesmo carro é anunciado com 727 cv. Se você acompanha regularmente a atualidade dos automóveis, a dúvida é inevitável: afinal, qual é a potência correta?
Pode parecer que o modelo vendido no Brasil é mais potente que o norte-americano, ou que os fabricantes camuflam a potência real. Mas não é nada disso. O carro é exatamente o mesmo e, tomando o exemplo do BMW M5, o sistema híbrido continua produzindo exatamente a mesma potência.
O que muda então? Apenas a unidade de medida utilizada para a expressar. Tal como acontece quando convertemos quilômetros em milhas ou litros em galões ou centímetros de altura em polegadas, também a potência de um motor pode ser apresentada em diferentes unidades.
É precisamente isso que explica porque um mesmo modelo pode apresentar números diferentes conforme o mercado onde é comercializado.
E por que existem várias unidades de medida? A resposta está na história. Diferentes países adotaram diferentes formas de medir a potência dos motores. Na Europa Continental, a unidade mais utilizada continua a ser o “cavalo-vapor” (cv). Por outro lado, nos países anglo-saxônicos, como o Reino Unido e os Estados Unidos, é habitual recorrerem ao brake-horsepower (bhp) e horsepower (hp), respetivamente.
Do outro lado do mundo, na Austrália, por exemplo, deixaram de lado os “cavalos” e adotaram o quilowatt (kW), a unidade oficial do Sistema Internacional, utilizada nas homologações e documentação técnica, que é a medida-padrão universal. Na prática, todas medem exatamente a mesma coisa: a potência produzida por um motor. O que muda, como explicamos, é a forma de a apresentar.
Cv, hp, bhp e kW: o que significa
Cv (cavalo-vapor): como descrevemos no início, é a unidade mais utilizada no Brasil e em grande parte da Europa. O nome deriva do francês —“cheval-vapeur“— e corresponde, na prática, ao “PS” (Pferdestärke, “cavalo-vapor” em alemão…), utilizado na Alemanha. É por isso que muitos fabricantes alemães anunciam a potência dos seus modelos em PS. Apesar disso, para efeitos práticos, “PS” e “cv” representam exatamente o mesmo valor.
Hp (horsepower): o horsepower é utilizado em especial nos mercados britânico e norte-americano. Embora meça a mesma grandeza física, corresponde a um valor ligeiramente superior ao nosso “cavalo-vapor”. É medido no viraqrequim, com os acessórios necessários intsçados para que o motor funcione de maneira autônoma. A diferença é pequena, mas suficiente para alterar os números apresentados nas fichas técnicas.
Bhp (brake horsepower): é utilizada sobretudo no Reino Unido, mas está em desuso. É uma medida que indica a potência real gerada pelo motor de um veículo direto no virabrequim (ou no volante do motor), antes de passar pela caixa de câmbio e perder energia até chegar às rodas. É um valor muito próximo do clássico “cavalo-vapor” (CV), mas é obtido por meio de um sistema de frenagem específico para testar o motor isolado.
kW (quilowatt): o quilowatt faz parte do Sistema Internacional de Unidades (SI) e é a unidade oficial utilizada nas homologações. É também por essa razão que muitos fabricantes apresentam a potência dos seus motores em kW nas fichas técnicas, convertendo depois esse valor para as unidades de medida de cada mercado.
E por que os valores são diferentes?
Voltemos ao exemplo do BMW M5. Nos Estados Unidos, a marca anuncia 717 hp e no Brasil a marca alemã anuncia 727 cv. Mas o motor, como já explicamos, é exatamente o mesmo e não mudou nem ganhou potência durante a travessia do Atlântico.
Tomando o quilowatt como referência -por ser a unidade oficial do Sistema Internacional- as equivalências são as seguintes:
- 1 kW = 1,3596 cv;
- 1 kW = 1,341 hp;
- 1 cv = 0,7355 kW;
- 1 hp = 0,7457 kW;
- 1 hp = 1,0139 cv;
- 1 cv = 0,9863 hp.
Ainda que existam várias outras unidades, e todas estão corretas, mas pelo bem da clareza, o melhor seria adotar aquela que é igual em qualquer parte do mundo, o quilowatt.
Curiosamente, apesar de o kW ser a unidade-padrão, continua sendo muito raro ouvir alguém dizer que um Ferrari tem 588 kW de potência. É muito mais provável ouvir que ele tem 800 cv, e isso não é por acaso. Além da tradição, também há uma componente emocional, naturalmente explorado pelo marketing. Quanto maior o número, mais ele se torna impressionante.
Curiosamente, foi James Watt que inventou o termo horsepower no século XVIII, para tentar vender máquinas a vapor a mineiros habituados a usar cavalos. Mais tarde, o seu sobrenome acabou batizando a unidade científica (Watt) que praticamente “mata” os “cavalos”…
