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TESTE: Ram Dakota Warlock 2.2

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O retorno de um nome que marcou época

Depois de mais de duas décadas, o nome Dakota voltou ao Brasil. Não mais com a marca Dodge, agora com a marca Ram, equipada com motor turbodiesel de 200 cv, câmbio automático de oito marchas, tração 4×4 e uma proposta que combina trabalho, lazer e imagem de produto premium. Na versão Warlock (bruxo ou mago, em inglês), a nova picape aposta ainda mais na personalidade aventureira.

por Ricardo Caruso

Há nomes de veículos que simplesmente desaparecem do mercado. Outros permanecem na memória dos consumidores mesmo depois de anos fora das concessionárias. O nome Dakota pertence à segunda categoria.

Poucos nomes carregam tanta tradição e admiradores no segmento das picapes médias quanto a Dakota. O modelo foi lançado nos Estados Unidos em 1987 e ficou em linha até 2011, e no Brasil foi produzida de 1998 a 2001. Agora o nome Dakota está de volta, graças à Ram, em nova e bem-vinda geração.

Quando a picape Dodge Dakota chegou ao Brasil, no final dos anos 1990, representava uma espécie de ruptura com o padrão das picapes nacionais. Era maior e mais sofisticada que as compactas então disponíveis, mas ainda suficientemente racional para não entrar no território das grandes -ou gigantescas- picapes norte-americanas. Produzida na fábrica da Chrysler de Campo Largo, no Paraná, entre 1998 e 2001, ela teve produção de apenas 14.850 unidades no País.

Agora, 25 anos depois do encerramento daquela primeira jornada brasileira, a Dakota está de volta. Mas o mundo mudou, e a picape também. Sob o emblema da Ram, a nova Dakota chega para ocupar um espaço muito particular dentro da linha da marca: acima da Rampage e abaixo da 1500, entrando direto no disputadíssimo segmento das picapes médias.

Apresentada no Brasil no final do ano passado, é feita em Córdoba, na Argentina, e usa a mesma plataforma derivada da Changan/Peugeot Landtrek/Fiat Titano. É equipada com motor 2.2 turbodiesel de 200 cv e 45,9 mkgf de torque máximos, e câmbio automático de oito marchas com sistema de tração 4×4.

E é justamente aí que começa a parte mais interessante deste teste.


Diferente daquela que conhecemos

É importante deixar claro desde o início: a Dakota 2026 não é uma evolução direta da antiga Dodge Dakota, e em comum tem apenas o mesmo nome. Lembrando que a linhagem de picapes Dodge nacionais começou bem antes, com as D100 (1969-1975).

A primeira Dakota brasileira pertencia a uma época em que a Chrysler tentava reconstruir uma então nova estratégia própria para o mercado nacional, tempos depois de ter sido eliminada do mercado pela Volkswagen.

A Dakota nacional, dos anos 1990. Belas linhas, cheia de qualidades e vida curta.

A nova picape Dakota nasce em outra realidade industrial, dentro da gigante estrutura da Stellantis, compartilhando arquitetura e componentes com outros produtos do grupo.

Isso não significa, entretanto, que o nome Dakota tenha sido escolhido por acaso.

A própria Ram recupera a história do modelo como parte de sua estratégia de entrada no segmento médio. A empresa lembra que a Dakota original chegou a alcançar cerca de 10% de participação no segmento em determinado momento de sua curta trajetória brasileira.

A nova geração procura fazer algo semelhante conceitualmente, mas com outra receita: em vez de tentar simplesmente ser uma picape média tradicional, procura oferecer a imagem e o acabamento associados inexoravelmente à marca Ram em um veículo de dimensões e preço compatíveis com o segmento médio.

É uma proposta bastante diferente daquela da antiga Dodge. E também explica boa parte da existência da versão Warlock.


E o que é a Dakota Warlock?

Na nova linha, a Dakota chega inicialmente em duas configurações: Warlock e Laramie.

A primeira -que AUTO&TÉCNICA avaliou neste teste- é a versão de aparência mais agressiva e aventureira. A segunda procura aproximar a Dakota do universo tradicional das Ram, com maior quantidade de elementos cromados e uma interpretação mais luxuosa.

➤ Confira o teste da Ram Dakota Laramie aqui.

Na Warlock, a receita visual é deliberadamente mais escura, mais raíz. Grade, logotipos, capas dos retrovisores e determinados elementos externos recebem acabamento em preto. As rodas de liga leve são menores que as da Laraie, de 17 polegadas com pneus 265/65 de uso misto, enquanto o conjunto visual é completado pelo Rambar, o “santoantônio” característico da versão.

O resultado é uma picape que não tenta parecer delicada. Ela tem presença. E isso é particularmente importante em um mercado no qual a imagem do veículo tornou-se quase tão importante quanto sua capacidade de carga.


Desenho: para ser reconhecida

A Dakota Warlock não precisa e não quer ser confundida com uma picape convencional. A dianteira é alta, larga e vertical, característica fundamental para transmitir a identidade Ram. A enorme grade frontal concentra boa parte da personalidade do veículo, enquanto os elementos escurecidos reforçam a proposta da Warlock. Um ótimo trabalho da Stellantis, feito a partir da Fiat Titano.

A versão também utiliza bastante plástico preto na dianteira e nas molduras das caixas de roda. Em uma outra picape, daquelas destinadas exclusivamente ao asfalto e idas ao shopping center, isso poderia parecer apenas uma solução estética. Aqui, entretanto, há coerência entre forma e proposta.

A Warlock quer deixar claro que está preparada para sair do asfalto quando necessário. E, mais importante, ela tem recursos mecânicos para fazer isso. O conjunto de rodas de 17 polegadas com pneus 265/65 de uso misto oferece uma relação interessante entre conforto, resistência e capacidade de absorção em pisos ruins.

Não se trata, claro, de uma picape especializada em trilhas radicais. A proposta é outra: permitir que o proprietário transite por estradas de terra, lama, areia, cascalho e terrenos de baixa aderência sem precisar tratar sua picape com cuidados como se estivesse ao volante de um automóvel de passeio.


Dimensões de picape grande

Apesar de ser classificada comercialmente como média, a Dakota está longe de ser pequena. São 5,36 metros de comprimento, 3,18 m de distância entre-eixos, 1,82 m de altura (sem a antena) e cerca de 1,96 m de largura. O vão livre do solo fica na casa dos 23 centímetros.

Esses números colocam a Dakota direto no território das picapes médias tradicionais, como Toyota Hilux, Ford Ranger, Chevrolet S10, a própria Fiat Titano, Mitsubishi L200 e Nissan Frontier. Na prática, isso significa uma cabine dupla espaçosa, caçamba generosa e posição de dirigir elevada. E também significa que o motorista precisa se acostumar com as dimensões.

Em estacionamentos apertados, garagens típicas de prédios ou ruas estreitas, a Dakota deixa claro que não é um automóvel comum. Exige uma dose extra de atenção. Mas por outro lado, justamente esse porte mais avantajado contribui para a sensação de segurança e robustez ao volante.


Capacidade para trabalhar

Por trás do visual mais agressivo existe uma picape que precisa cumprir sua função básica, que é a de transportar cargas. Nesse quesito, ela aparece bem. A caçamba tem 1.210 litros de volume e capacidade de carga de 1.020 kg. O limite de reboque chega a 3.500 kg.

São números importantes porque mostram que a Dakota não foi concebida apenas para transportar bicicletas, pranchas e malas nos fins de semana. Ela efetivamente pode trabalhar.

A capacidade de carga superior a uma tonelada permite transportar equipamentos, ferramentas, materiais e cargas típicas de atividades rurais ou profissionais. E o limite de reboque de 3,5 toneladas amplia bastante essa versatilidade.

Nesse aspecto, a Dakota entra no território mais tradicional das picapes médias: um veículo que pode servir simultaneamente como automóvel familiar, instrumento de trabalho e veículo recreativo. Ou ir para a luta em terrenos ruins.


O 2.2 turbodiesel

Sob o capô está um dos componentes mais importantes do projeto. Trata-se do excelente 2.2 turbodiesel de quatro cilindros, com 2.184 cm³ de cilindrada exata, potência máxima de 200 cv a 3.500 rpm e torque de 45,9 mkgf a apenas 1.500 rpm.

Esse motor é de origem italiana, desenvolvido pela Stellantis. Trata-se do 2.2 Turbodiesel Pratola Serra, inicialmente importado da Europa e com produção nacionalizada no complexo do Grupo em Córdoba, na Argentina

À primeira vista, seus números podem até parecer discretos quando se comparados aos motores V6 a gasolina utilizados por algumas concorrentes. Entretanto, engenharia não se resume à potência máxima. O motor 2.2 or entrega 200 cv de potência e torque elevado disponível em baixas rotações, característica fundamental para aplicações em picapes.

O turbo de geometria variável reduz significativamente o atraso das respostas, a injeção common rail trabalha com altíssima pressão e o gerenciamento eletrônico controla com extrema precisão a dosagem de combustível. Resultado: acelerações interessantes desde pouco acima da marcha lenta.

Mesmo transportando carga, o motor demonstra enorme elasticidade. Em retomadas de velocidade entre 80 e 120 km/h, a Dakota transmite sensação de que sobra força. A faixa útil de torque é bastante ampla, permitindo condução tranquila sem necessidade constante de reduções.

A característica de motor que mais interessa em uma picape é o torque. Os 45,9 mkgf disponíveis a baixa rotação fazem diferença principalmente quando o veículo está carregado, subindo uma serra ou transitando em baixa velocidade fora de estrada.

O motor 2.2 não precisa ser constantemente levado a rotações elevadas. Ele trabalha melhor explorando justamente sua faixa intermediária de força.

Câmbio de oito marchas

Se o motor é importante, a transmissão é uma das surpresas agradáveis do conjunto.

A Dakota utiliza câmbio automático de oito marchas, da ZF Friedrichshafen (modelo ZF8HP) com escalonamento que permite aproveitar a faixa de torque do 2.2 sem sacrificar o conforto em velocidades de estrada. Na condução cotidiana, a transmissão tende a privilegiar rotações relativamente baixas; em estrada, isso resulta em funcionamento silencioso e consumo mais favorável.

Em ultrapassagens, basta uma pronta pressão no acelerador para que a caixa reduza algumas marchas e coloque o motor na faixa mais eficiente de torque e potência. A caixa ZF8HP oferece trocas de marcha rápidas, quase imperceptíveis. E nas estradas, reduz rapidamente quando necessário e, em uma eventual condução “esportiva”, alonga as marchas sem hesitação. O escalonamento demonstra equilíbrio correto entre desempenho e economia de combustível.

Em nossas medições, a Dakota Warlock repetiu os bons números da Laramie, com aceleração de zero a 100 km/h em 10,1 segundos e velocidade máxima limitada a 180 km/h. Retomadas entre 60 e 100 km/h acontecem rapidamente, em cerca de 6 segundos. Mesmo transportando carga ou rebocando implementos, a reserva de torque permanece suficiente.

Para uma picape de mais de duas toneladas, são resultados expressivos. Não transforma a Dakota em um veículo esportivo —nem essa é sua finalidade—, mas deixa claro que não falta fôlego em momento algum.


Ao volante

A primeira impressão ao dirigir a Dakota é de uma picape que procura ser mais civilizada do que sua aparência sugere. O 2.2 diesel não entrega aquela sensação de “coice” típica de alguns motores turbodiesel maais antigos. O torque chega de maneira progressiva, e o câmbio trabalha para manter o propulsor sempre na faixa mais eficiente. Isso torna a sua condução mais fácil.

Na cidade, a Dakota exige atenção por causa de suas dimensões, mas o conjunto motor-transmissão reduz bastante o esforço do motorista. Na estrada, a história melhora ainda mais. Com oito marchas, o motor pode trabalhar em baixa rotação durante os deslocamentos constantes, enquanto o torque disponível permite retomadas sem necessidade de grandes intervenções do motorista.

Os números oficiais de consumo divulgados para o modelo ficam em 9,7 km/litro na cidade e 10,8 km/l na estrada, no ciclo de etiquetagem do Inmetro. Durante toda nossa avaliação, o consumo foi melhor que isso e mostrou-se compatível com a proposta do veículo. Marcamos 11,8 km/litro na cidade e 13,5 km/l na estrada.

O resultado é também a autonomia elevada, favorecida pelo tanque de combustível de boa capacidade. São 80 litros, o que permite autonomia teórica de 1.080 km. Para quem percorre grandes distâncias, esse é um dos pontos fortes da Dakota.


Tração 4×4: a Warlock ganha sentido

É aqui que a palavra Warlock deixa de ser apenas decoração e a transformação acontece. A Dakota oferece sistema de tração 4×4 automática, além de modos 4×2 e 4×4 com reduzida.

Para o uso cotidiano, o motorista pode manter o veículo em configuração adequada ao asfalto. Quando o piso muda, o sistema permite distribuir o torque para melhorar a capacidade de tração. Há ainda modos de condução específicos, incluindo Normal, Sport, Snow (Neve) e Sand/Mud (Areia/Lama).

Em estrada de terra, a combinação de vão livre elevado, pneus de uso misto, torque abundante e tração 4×4 transforma a Dakota em um veículo muito mais versátil do que uma picape urbana convencional. No barro, a disponibilidade de reduzida é particularmente importante. Não é simplesmente colocar as quatro rodas para tracionar, é poder multiplicar o torque disponível nas rodas quando a velocidade precisa ser baixa e o esforço, elevado.


Suspensão

Toda picape média enfrenta o mesmo dilema. De um lado, precisa transportar carga e, de outro, o proprietário espera conforto de automóvel quando está dirigindo com a caçamba vazia. A suspensão da Ram Dakota Warlock usa arquitetura independente com braços duplos (duplo A) e molas helicoidais na dianteira, e eixo rígido com feixe de molas na traseira.

É um conjunto tradicional para uma picape, que precisa suportar situações de carga e/ou trabalho. Na condução sem carga, porém, esse tipo de construção pode transmitir mais irregularidades do piso. A calibração consegue ser relativamente confortável, em especial no início do curso da suspensão, contribuindo para um rodar mais agradável em pisos irregulares.

Esse comportamento é importante porque demonstra que a Dakota procura buscar um certo equilíbrio. Ela não é uma picape esportiva, e também não é um utilitário exclusivamente profissional. Seu território é justamente o meio-termo.


Direção: leveza numa picape

A direção é eletricamente assistida, mas o diâmetro de giro é grande, de 14,1 metros, o que exige atenção em manobras e espaços mais apertados.

O volante apresenta peso relativamente leve, característica que ajuda em manobras urbanas e de estacionamento, mas para quem gosta de andar rápido, poderia transmitir um pouco mais de peso e comunicação em velocidades mais altas.

Isso não chega a comprometer o comportamento, e é mais uma questão de calibração e gosto pessoal. Para o público que utiliza a picape diariamente, com certeza a assistência que torna a direção mais leve será sempre uma vantagem, jamais um problema.


Freios: quatro discos

Outro ponto interessante está no sistema de frenagem. A Dakota utiliza discos nas quatro rodas, solução que contribui para maior consistência térmica e controle durante frenagens repetidas.

Assim, a Dakota Warlock possui freios a disco ventilados nas quatro rodas, com 332 x 32 mm na dianteira e 340 x 22 mm na traseira, além de freio de estacionamento com acionamento elétrico. A picape também conta com sistemas de segurança ativa ligados aos freios, como frenagem autônoma de emergência e controle eletrônico de estabilidade (ESC).

Em uma picape de aproximadamente duas toneladas, um bom sistema de frenagem é, em particula, relevante. O peso elevado exige que ele seja capaz de dissipar bastante energia. E, quando se acrescenta carga ou reboque, essa exigência aumenta de maneira significativa.


Segurança: uma boa diferença

Se a Dakota antiga era um produto de outra época, a nova está inserida em uma realidade completamente diferente em termos de segurança.

A versão Warlock conta com seis airbags, controle eletrônico de estabilidade, assistente de partida em rampa e descida, além de sistemas avançados de assistência ao motorista. Entre eles estão:

  • piloto automático adaptativo;
  • monitoramento de ponto cego;
  • alerta de colisão frontal;
  • frenagem autônoma de emergência;
  • detector de pedestres e ciclistas;
  • assistente de permanência em faixa;
  • câmeras com visão ampliada do entorno.

A central de câmeras pode oferecer uma visualização equivalente a 540°, incluindo recursos destinados a facilitar a condução fora de estrada.

Para uma picape que pretende ser utilizada tanto em rodovias quanto fora dela, esse “pacote” representa um salto tecnológico enorme em relação à Dakota original.


Por dentro, outra Dakota

É no interior que a nova picape, com mais clareza, tenta justificar a marca Ram que ostenta pela carroceria. O acabamento é superior ao que tradicionalmente se esperaria de uma picape média de perfil utilitário.

Na versão testada, os bancos são revestidos de material sintético que imita couro preto, com ajustes elétricos nos assentos dianteiros e logotipo Warlock bordado nos encostos. O banco traseiro é dividido na proporção 60/40 e possui função de rebatimento e reclinação. Cinco ocupantes conseguem viajar com bom espaço e conforto.

A central multimídia com tela de 12,3 polegadas concentra boa parte das funções do veículo e oferece Apple CarPlay e Android Auto sem fio, além de navegação integrada e informações específicas para condução fora de estrada.

O quadro de instrumentos digital, ar-condicionado automático de duas zonas, carregador de smartphone por indução e diversas tomadas USB completam o “pacote” tecnológico.

É uma cabine que procura convencer o motorista de que está ao comando de algo mais sofisticado do que uma simples ferramenta de trabalho.


Dakota x Dakota

Talvez uma comparação ráida interessante seja justamente entre as Dakota, antiga e nova.

A primeira Dakota brasileira chegou em um momento no qual as picapes médias ainda não tinham o domínio de mercado que possuem atualmente. Ela tinha desenho marcante, atualíssimo naqueles tempos, motorizações diferentes conforme a versão (incluindo o eternamente desejado 318V8 Magnum, evolução modernizada e com injeção eletrônica do clássico “318” que equipou os Dojões nacionais até o início dos anos 1980) e uma personalidade própria.

A nova Dakota chega a um mercado muito mais maduro e bastante exigente. Hoje, o consumidor encontra bons produtos, como Toyota Hilux, Ford Ranger e outras, além de outras opções no próprio Grupo Stellantis. A concorrência, portanto, é muito mais forte.

A estratégia da Ram não parece ser simplesmente competir pela maior capacidade de carga ou pelo menor preço. A marca procura adicionar uma variável difícil de medir em ficha técnica ou mesmo na prática: imagem de marca.

É justamente nesse posicionamento que a Dakota Warlock fica interessante diante da concorrência. A picape compartilha sua base técnica com a Fiat Titano, mas a Ram procura criar uma diferenciação entre elas através de acabamento, equipamentos, calibração, identidade visual e posicionamento de marca.

Na outra extremidade da própria “família” Ram está a 1500 importada. Maravilhosa como produto, mas grande demais e cara demais para o consumidor que procura uma picape média. A Dakota ocupa na prática o intervalo entre as Ram Rampage e a Ram 1500.

É uma estratégia semelhante àquela que a antiga Dodge Dakota cumpria no mercado norte-americano: um produto intermediário, posicionado entre as picapes menores e as grandes.

No Brasil de 2026, porém, isso ganhou uma nova interpretação.


E a Warlock?

A criação da versão Warlock revela uma preocupação da Ram em não transformar a Dakota simplesmente em uma Laramie mais despojada. A Warlock tem identidade e personalidade própria.

Os elementos escurecidos, as rodas menores com pneus de uso misto (a Laramie usa rodas 18×7,5 e pneus 265/60, e a Warlock rodas 17×7,5 calçadas com pneus 265/65), o Rambar e a proposta off-road fazem com que ela pareça mais adequada a quem pretende realmente utilizar a picape também em ambientes fora do asfalto.

A Laramie é mais elegante e a Warlock é mais irreverente. Uma procura aproximar a Dakota do luxo tradicional da Ram, enquanto a outra explora o lado aventureiro da marca. Há compradores nos dois casos.


O preço

No lançamento, a Dakota Warlock foi posicionada em R$ 289.990, e agora é vendida a R$ 249.990; enquanto a Laramie custa R$ 329.990. Os preços colocam a Dakota em uma faixa extremamente disputada.

Essa é provavelmente a questão mais importante para entender a Dakota. Ela não pretende estar simplesmente posicionada como uma das picapes médias mais barata. Seu argumento é oferecer uma combinação de motor diesel, 4×4, capacidade de carga, tecnologia, acabamento e identidade Ram.

O consumidor, portanto, não está comprando apenas centímetros a mais de caçamba ou uma coleção de “cavalos” de potência. Está comprando também a marca.

A antiga Dakota era, em boa medida, uma novidade. A nova chega em um mercado em que o consumidor já está acostumado com picapes mais sofisticadas. Hoje, uma picape pode e deve ter bancos elétricos, central multimídia gigante, câmeras, piloto automático adaptativo, frenagem autônoma, conectividade sem fio e acabamento semelhante ao de SUVs de luxo. Ar cindicionado eficiente e sistema de som apurado, nem se fala.

Por isso, a velha Dakota -ao menos como nome- precisava evoluir. E evoluiu. A nova geração não tenta reproduzir nada da antiga. Em vez disso, recupera seu nome e sua ideia central: ocupar o espaço entre as picapes convencionais e as grandes Ram. E existe uma ironia interessante nessa história.

A Dakota original brasileira não foi um grande sucesso comercial. Foram apenas 14.850 unidades produzidas e vendidas nacionalmente entre 1998 e 2001. Ainda assim, a marca Dodge tornou-a suficientemente importante para que seu nome fosse preservado durante décadas e posteriormente recuperado pela Ram.

Isso diz muito sobre a relação entre automóveis e memória afetiva. Um carro não precisa necessariamente vender centenas de milhares de unidades para deixar uma marca na história. Às vezes, basta ser diferente ou bem posicionado.

A primeira Dakota foi diferente porque trouxe ao Brasil uma interpretação pouco comum de picape média. A segunda é diferente porque tenta levar a imagem Ram para um segmento no qual a marca ainda não estava presente.


Conclusão

A Ram Dakota Warlock é uma picape que procura equilibrar três personalidades. A primeira é a utilitária, representada pela capacidade de carga superior a uma tonelada, caçamba de 1.210 litros e possibilidade de rebocar até 3.500 kg.

A segunda é a aventureira, expressa pela tração 4×4, reduzida, pneus de uso misto, vão livre elevado e modos específicos para terrenos de baixa aderência. E a terceira é a premium, perceptível no acabamento interno, bancos que imitam couro com ajustes elétricos, central multimídia de 12,3 polegadas e amplo “pacote” de segurança e assistência ao motorista (seu ADAS inclui frenagem autônoma de emergência, alerta de ponto cego, frenagem de emergência, câmeras e sensores de estacionamento).

O motor 2.2 turbodiesel de 200 cv e 45,9 kgfm não é apenas suficiente: entrega uma combinação coerente de força, consumo e desempenho. O câmbio de oito marchas e a direção leve também são elementos importantes para tornar a picape agradável no cotidiano.

O conjunto da obra não pretende transformar a Dakota em um veículo esportivo. Sua vocação, como já destacamos, é outra. Ela é uma picape confortável durante a semana, capaz de trabalhar quando necessário e pronta para enfrentar uma estrada de terra no fim de semana.

E faz isso utilizando uma das ferramentas mais poderosas da indústria automotiva: uma marca cobiçada e um nome conhecido. A Dakota saiu do Brasul como Dodge e voltou como Ram, em uma época completamente diferente daquela em que partiu. Não é mais um Dodge tentando encontrar espaço entre pequenas e grandes picapes. Agora é uma Ram, e isso muda completamente sua estratégia e percepção.

O sobrenome Warlock acompanha o mesmo nome Dakota, histórico, mas oferece uma interpretação contemporânea: diesel, 4×4, tecnologia, capacidade de carga, acabamento sofisticado e imagem deliberadamente agressiva. Seu maior mérito talvez esteja justamente nessa capacidade de conciliar universos que normalmente aparecem separados.

É uma picape que pode trabalhar, viajar, enfrentar terra e lama e, ao mesmo tempo, oferecer ao motorista uma cabine com equipamentos e acabamento próximos aos de um SUV de luxo. Mais do que simplesmente ressuscitar a Dakota, a Ram transformou o antigo nome em uma ponte entre duas gerações de picapes.

A Dakota original ajudou a abrir espaço no mercado brasileiro. A nova Dakota chega para disputar esse espaço em um segmento muito mais sofisticado, competitivo e exigente. E a Warlock é, talvez, a versão que melhor traduz essa nova personalidade: menos nostalgia, mais atitude.


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