Como nasceram os carrinhos Matchbox
Pequenas maravilhas em miniatura que há décadas alimentam sonhos automobilísticos e automotivos de gerações. Diversão para crianças e, principalmente, memórias de adultos. AUTO&TÉCNICA embarcou numa viagem nostálgica ao passado, para explorar a história da principal marca de carrinhos de metal fundido, a pioneira Matchbox.
por Ricardo Caruso (colecionador de Matchbox há mais de 40 anos)

Embora o mundo esteja passando pela transição dos brinquedos físicos para brinquedos digitais, poucas memórias da infância são tão marcantes para quem hoje tem mais de 50 ou 60 anos quanto os brinquedos com os quais nos divertíamos. De ícones como as bonecas Susi e Barbie (para as meninas), Comandos em Ação, Autorama ou o robô do Perdidos no Espaço, a opções mais práticas como Pega-Pega Trol, kits da Revell ou o Forte Apache, todos nós temos nossos favoritos.

No entanto, quando se trata de ícones de verdade, é difícil não mencionar os carrinhos de brinquedo, de preferência os “carrinhos de ferro”. Essas réplicas minúsculas e detalhadas de nossos veículos favoritos eram mais do que simples brinquedos: eram uma expressão de nossas personalidades em formação e, para alguns, a porta de entrada para o mundo de maravilhas automotivas. Mas onde tudo começou para a Matchbox, uma das marcas de carrinhos de metal fundido mais icônicas do mundo e que popularizou esse tipo de brinquedo?

A história dos carrinhos Matchbox começa na década de 1950, na Grã-Bretanha do pós-guerra, repleta de inovação e otimismo. A Lesney Products, uma pequena empresa londrina, foi o berço desses brinquedos icônicos. Os fundadores, Leslie Smith e Rodney Smith (não eram parentes), inicialmente produziam peças industriais e pequenos brinquedos com a marca Moko. No entanto, a sorte deles mudou drasticamente quando lançaram o primeiro carrinho Matchbox em 1953, na escala aproximada de 1/64.

A ideia surgiu de uma regra simples da escola onde a filha de Leslie estudava: só era permitido levar para a escola brinquedos que coubessem dentro de uma caixinha de fósforos. Inspirados por isso, Leslie e Rodney criaram uma versão em miniatura da carruagem da coroação da rainha. Foi um sucesso instantâneo entre as crianças e assim nasceu a marca Matchbox (caixa de fósforo, em inglês). O primeiro modelo comercial da marca foi o “Matchbox No. 1 Road Roller”, um rolo de compressor (acima).

Os primeiros anos da Matchbox foram marcados pelo foco em veículos britânicos. Do clássico ônibus de dois andares Routemaster ao charmoso táxi londrino Austin FX3, esses modelos refletiam a paisagem urbana da Grã-Bretanha. No entanto, à medida que a popularidade da marca crescia internacionalmente de maneira rápida, também crescia a diversidade de seus modelos. Muscle cars americanos, carros esportivos europeus e até mesmo fantásticos carros-conceito, caminhões e tratores logo se juntaram à linha. A mainline era de 75 modelos, que depois aumentou com o passar do tempo.

Os carrinhos Matchbox não atraiam apenas pela variedade; eram os detalhes que faziam a diferença. Cada modelo era uma recriação bastante fiel de sua contraparte em tamanho real, até nos mínimos detalhes. As portas abriam, os capôs levantavam, as rodas giravam e tinham “suspensão”, tudo para a alegria de crianças (e adultos que nunca perderam espírito infantil) do mundo todo, inclusive do Brasil. Essa atenção aos detalhes diferenciava a Matchbox de seus concorrentes e consolidava seu lugar entre os entusiastas de carros. Na verdade, a Matchbox é uma celebração à história do automóvel.

Na década de 1970, a Matchbox enfrentou forte concorrência de outras marcas, como a também britânica Corgi, a francesa Majorette, a Mira espanhola, a japonesa Tomica, as alemãs Siku e Schuco e da Hot Wheels, uma marca americana conhecida por seus desenhos chamativos e exagerados e pistas de alta velocidade.

Em resposta, a Matchbox diversificou sua linha de produtos, introduzindo os carrinhos da linha “Superfast”, com rodas projetadas para maior velocidade, e ainda conjuntos de brinquedos, para aumentar a possibilidade de diversão. Apesar desses esforços, a marca enfrentou dificuldades financeiras, o que levou à sua venda para a Universal Toys em 1982. Foi quando alguns moldes vieram para o Brasil, trazidos pela Trol e sendo produzidos pela Inbrima em Manaus durante algum tempo, com cores diferentes do catálogo original, o que atraiu a atenção dos colecionadores e fez nascer uma série de falsificadores. Com isso, a produção foi transferida para a Ásia. Apenas 10 anos depois, a Matchbox foi vendida novamente, desta vez para a Tyco Toys.

Sob nova direção, a Matchbox passou por um necessário renascimento. O foco voltou-se para o realismo e os detalhes, com ênfase renovada em veículos de emergência e utilitários. Essa estratégia provou ser bem-sucedida e a Matchbox recuperou seu lugar no mercado. Fez séries especiais e numeradas, modelos nas escalas maiores (1/43, 1/24 e 1/18), kits de plastmodelismo e toda série de itens de colecionadores.
A Matchbox pertence à Mattel desde 1997, quando ela comprou a Tyco Toys, a mesma empresa que detém sua principal concorrente, a Hot Wheels. Apesar disso, as duas marcas mantiveram suas identidades distintas. A Matchbox continua sendo a marca de referência para modelos realistas e detalhados nem todos…), enquanto a Hot Wheels atende aqueles que buscam velocidade nas pistas plásticas e desenhos de carros-fantasia com pinturas arrojadas.
Em 2023, a Matchbox comemorou seu 70º aniversário e, com um carrinho Matchbox vendido a cada segundo no planeta, ainda é uma das maiores fabricantes de carros, rodas e pneus do mundo! Apenas em escala reduzida…

O legado dos carrinhos Matchbox vai muito além do universo dos brinquedos infantis. Eles se tornaram itens de colecionador, ferozmente disputados, com modelos raros alcançando preços altíssimos em leilões. Um guindaste Magirus-Deutz de 1961 detém o título de Matchbox mais valioso já produzido, tendo sido vendido por impressionantes US$ 13.000 em 2017! O Pontiac GP Coupe número 22 (acima) lançado em 1970 é disputado na faixa dos US$ 2 mil (mas precisa ser a variação em vermelho, com rodas Superfast, na caixa e impecáveis condições). Em cada unidade dos milhões e milhões produzidos, as cores da carroceria, vidros, chassi e interior, mais rodas e decoração e até caixinhas, fazem variar o preço.

Os Matchbox inspiraram inúmeras carreiras no desenho e na engenharia automotiva. Mas o mais importante mesmo é que os Matchbox alimentam os sonhos de gerações. Olhando para o futuro, fica claro que os Matchbox Cars continuaram cativando os mais jovens e a despertar a mesma paixão pelos automóveis que existe em nós, de AUTO&TÉCNICA. Com planos para produção de modelos mais ecológicos em termos de materiais e embalagens e um compromisso com a diversidade e a representatividade, a marca está preparada para inspirar novas gerações de entusiastas por carros.
Há reclamações de que a Mattel boicota a linha Matchbox, em detrimento dos Hot Wheels. A distribuição não é bem cuidada e a produção menor. E existe ainda a rixa: quem gosta dos Hot Wheels é rotulado de “acumulador”, e os fãs de Matchbox, esses sim, são “colecionadores”. Não foge muito da realidade.

Então, seja você um colecionador experiente, um entusiasta casual ou simplesmente alguém com boas memórias da infância, os “carrinhos de ferro” nos lembram que a alegria de dirigir não se resume apenas à velocidade ou potência. Essas pequenas maravilhas são um testemunho de nossa paixão duradoura por carros. No caso da Matchbox, é a beleza do desenho e o simples prazer de ter um mundo de maravilhas sobre rodas na palma da mão que fazem dessas miniaturas verdadeiros arquivos palpáveis da história do automóvel.

O fim da Lesney não significou o fim da fabricação de brinquedos para Odell. Há muito tempo, ele havia criado sua própria linha dentro da empresa, focada em modelos do início do século XX, como vans e ônibus. Depois que a Lesney foi vendida, Odell fundou sua própria empresa, a Lledo (Odell ao contrário), usando algumas das antigas ferramentas de produção, e trabalhou lá até 1999. Ele faleceu em 2007, aos 87 anos. Seu obituário publicado nos jornais terminou como ele pediu: “Quero apenas que digam que eu era um engenheiro muito bom”.

