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Criticando o incriticável. Ou, o dia em que passei da conta…

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Por Ricardo Caruso

Estávamos em 2004, Salão de Detroit, no frio absurdo de janeiro. Dentre tantos eventos um da General Motors chamava atenção e era aguardado pela imprensa especializada brasileira: comparecer ao Detroit Opera House para a apresentação do Corvette C6, que chegaria às ruas no ano seguinte.

E assim foi. Na época eu era um daqueles jornalistas chatos e exigentes, qualidades nem sempre apreciadas e que me custaram alguns poucos “inimigos”. Ainda continuo jornalista, chato e exigente… Por causa dessa sinceridade exagerada quase criei, ali, um constrangimento em nível internacional.

A certa altura aproximou-se do grupo de brasileiros o chefe global de desenho da General Motors, Ed Welburn. Uma entidade: antes dele apenas cinco outros ocuparam este cargo. Mais orgulhoso do que pai de piloto de Fórmula 1 ele se aproximou do grupo, olhou para mim, abriu um sorriso incontido e perguntou: “E aí, gostou do carro?”. Sem pensar respondi: “Não”. O sorriso dele desapareceu, as sobrancelhas se ergueram, e ele perguntou: “Por que?”. Foi aí que entrou em cena Pedro Luiz Dias, diretor de comunicação da GM no Brasil, também responsável por manter o bom comportamento, pelo menos em nível aceitável, dos jornalistas brasileiros. De longe ele mudou de cor, também arregalou os olhos, olhou para mim e, então, percebi que tinha exagerado.

Para não perder a pose argumentei que o carro tinha os faróis expostos – os Corvette mais recentes tinham tradicionalmente os faróis escondidos – e que lembrava mais um Ferrari do que o passado glorioso do esportivo. Não sei se ele concordou, claro que não, mas deu um sorriso amarelo e se afastou.

A imprensa conhece, em 2004, o Corvette C6: A&T estava lá!

Pedro Luiz riu do meu atrevimento e perguntou, brincando: “Você está louco?”. A outra opção talvez fosse me socar, mas na verdade caímos na risada. Como brinde a GM ofereceu aos presentes uma miniatura do Corvette, que eu prontamente levei para Ed Welburn autografar para mim. Ou seja: além de atrevido fui cara de pau ao extremo. Meses depois, em São Paulo, pude me explicar melhor para o pai do carro, que riu meio sem jeito e me esticou a mão, espero que desconsiderando o que eu havia falado em Detroit.

No alto, o autógrafo de Ed Welburn na caixa da miniatura, meio apagado após duas décadas.

Este é um dos incontáveis casos memoráveis que tive durante minha carreira de 43 anos – até agora – com a GM. Não a GM de hoje em dia, que mais parece uma empresa chinesa sem rumo. Saudades daquela GM de antigamente na qual você tinha acesso a executivos, estabelecia relações de amizade que duram até hoje e que atendiam aos jornalistas com a máxima atenção. A GM se perdeu pelo caminho, os seus carros perderam o carisma e ficam na lembrança tempos que não voltarão mais. Parece que pegaram uma das maiores empresas do mundo e a entregaram para os estagiários administrarem.

Não esqueço os palpites que dava a Carlos Barba nos desenhos dos carros, em geral correspondidos com xingamentos em tom de brincadeira, nem dos ensinamentos mecânicos que recebia de Pedro Manuchakian, dos incontáveis encontros com José Carlos da Silveira Pinheiro Neto, das trocas de ideia e muita amizade com Pedro Luiz Dias, Luiz César Fanfa e Nélson Silveira, e dos eventos na pista de Cruz Alta. Nem da revista SUPER CHEVY que editei, a primeira e única revista monomarca que existiu no Brasil e que foi um sucesso editorial, premiada, até ser desprezada pela ‘nova GM’. Mas o que realmente importa é que amigos de verdade eu colecionei na ‘antiga GM’, e isto levarei para a vida toda”.

Essa crônica, original abaixo, está publicada no imperdível “Futuros 100 Anos da General Motors do Brasil”, de Pedro Luiz Dias, disponível na Amazon, em formato digital (Kindle). O fato ocorreu no NAIAS 2004 (Salão de Detroit), na apresentação do novo Corvette C6 à imprensa, em 4 de janeiro de 2004; a miniatura autografada está no acervo de AUTO&TÉCNICA até hoje.

Criador e criatura: o lendário Ed Welburn e o C6, belíssimo como qualquer Corvette! Será que ele já nos perdoou?


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