OLD SCHOOL: Dodge Charger R/T X Ford Maverick GT
Em 1996 surpreendemos nossos leitores —e o mercado editorial automotivo— com um teste comparativo sem precedentes: nada menos que dois veteranos ícones da indústria brasileira foram levados à pista de testes para um “tira-teima”.

A edição 14 de AUTO&TÉCNICA foi campeã de vendas, deixando claro que nossos leitores queriam sim conhecer as novidades das montadoras mas não abriam mão de cultuar os carros históricos. Quase 30 anos depois o resultado está aí: os carros antigos nacionais caíram de vez no gosto popular, com muitos modelos rivalizando em preços com grandes clássicos mundiais. É o caso dos “cinquentões” Charger R/T e Maverick GT, como os mostrados nesse teste memorável, que agora resgatamos.
O texto foi escrito pelo Ricardo Caruso e as fotos são do Mario Villaescusa. Lembrando que a avaliação era de carros já antigos (o Dodge era de 1976 e o Maverick de 1974, avaliados em 1996). Divirtam-se!
EXCLUSIVO: AUTO&TÉCNICA leva para a pista de teste os
dois esportivos brasileiros que marcaram os anos 70.

AUTO&TÉCNICA recebeu incontáveis pedidos de seus leitores para realizar este super comparativo, pois havia muito interesse em saber como se comportariam estes carros, avaliados dentro dos parâmetros atuais de testes. O primeiro passo foi encontrar um Charger R/T e um Maverick GT em perfeitas condições de conservação, pelo menos na parte mecânica. Encontramos os dois carros, originais, fabricados em 1976, sem nenhum tipo de preparação e os submetemos a uma rigorosa revisão, para que fossem regulados dentro do padrão indicado pelas fábricas na época; isso incluiu a troca de velas, limpeza do carburador, ajuste do ponto de ignição, troca de óleo e de filtros de ar, óleo e gasolina, entre outros.
Além disso, foram checadas as suspensões (buchas, pivôs e borrachas), freios (troca de lonas, pastilhas e fluído), sistema de arrefecimento (mangueiras, bomba d’água e radiador), direção (terminais), pneus e outros detalhes, para que não acontecessem surpresas —desagradáveis— na pista de testes. Com os carros em perfeita ordem e praticamente nas mesmas condições mecânicas em que saíram da fábrica há 20 anos, lá fomos nós, curiosos e felizes, fazer as medições. Era a hora do “comparativo do século”, pelo menos para os fanáticos por Dodge e Maverick (como nossos milhares leitores). Um único porém: os carros não estavam perfeitos em termos estéticos, e por isso foram usados outros dois modelos nas sessões de fotografias, um Dodge 1976, e o Maverick 1974.


ESTILO — Os dois carros têm estilo típico dos carros norte-americanos: o Dodge é da metade dos anos 60 e o Maverick do início dos anos 70 (veja box). Carrocerias grandes, com quase cinco metros de comprimento, capô enorme e muitos cromados. O Charger R/T diferenciava-se das demais versões pelas colunas traseiras (coluna C) alongadas, capô com falsas tomadas de ar, grade dianteira estreita e que escondia os quatro faróis, teto de vinil, rodas Magnum ou com decoração cromada (em 79 vieram as de liga-leve) e faixas decorativas. O Maverick tinha por fora apenas rodas com sobrearos e calotas, faixas decorativas e faróis auxiliares.
O Maverick abusava do estilo fast-back, consagrado nos Mustang, enquanto o Dodge era mais comportado, com seus três volumes de carroceria bem definidos. Em termos de agressividade, o Dodge Charger R/T impressiona mais, enquanto o Maverick tem linhas bem harmoniosas. Um detalhe interessante: o Dodge era do tipo “duas portas sem coluna”, enquanto o Maverick mantinha as colunas.


ESPAÇO INTERNO — Grandes por fora, não tão grandes por dentro. O espaço para os ocupantes da frente é muito bom nos dois carros, enquanto atrás só os passageiros do Dodge se sentem à vontade; no Maverick o espaço traseiro é reduzido e meio claustrofóbico, por causa do formato do teto. Em todo caso, quatro pessoas se acomodam com relativo conforto nos dois carros. O assento do banco traseiro do Maverick tem 1,30 metro de comprimento, contra 1,41 metro do Dodge.
PORTA-MALAS — O espaço do porta-malas é bom nos dois carros. O Dodge tem 436 litros de capacidade, enquanto o Maverick conta com 417 litros. A tampa do porta-malas não abre até a altura do parachoque, como no Dodge (até 78, pois os 79 tiveram a tampa mudada) e isso complica um pouco o manuseio de bagagens; a tampa do Dodge também é maior que a do Maverick.
MOTOR — O que existe de melhor no Charger R/T e no GT são os motores. O Dodge usa um 318 V8 (5.212 cm3), duas válvulas por cilindro e comando de válvulas único no bloco, com 215 cv de potência máxima a 4.400 rpm e 42,9 kgfm de torque a 2.400 rpm, fabricado no Brasil. É alimentado por um abominável carburador duplo simultâneo DFV 446 e tem relação peso/potência de 7,38 kg/cv e potência específica de 41,25 cv/litro. O diâmetro dos cilindros é de 99,3 mm e о curso é de 84,1 mm. Funciona de maneira suave, tem torque e potência disponíveis a qualquer momento e é muito resistente, pois deriva de velhos caminhões Dodge norte-americanos e aqui foi usado também em veículos comerciais; está em uso até hoje nos Estados Unidos.


Já o Maverick usava o 302 V8 (4.950 cm3) importado dos Estados Unidos, México ou Canadá. Também tem duas válvulas por cilindro e comando no bloco. A potência máxima é de 199 cv a 4.600 rpm e o torque máximo é de 38,5 kgfm a 2.400 rpm, ambos inferiores aos do Dodge. Também usa um carburador duplo igualmente ruim, Motorcraft, e a relação peso/potência é de 7,05 kg/cv, um pouco melhor que o Dodge, mas a potência específica também é baixa, de 39,79 cv/litro.
O motor Ford sobe rápido de giro, é suave e gostoso de acelerar, mas é mais frágil que o Dodge —segundo mecânicos e especialistas— e, assim como os motores Chrysler, devido ao tempo em que estão fora de fabricação, podem oferecer dificuldades de manutenção. Nos EUA, derivados destes motores continuam ainda em produção, como por exemplo nos Ford Mustang GT (até 95) e em alguns Chrysler como a Cherokee.
Se estes motores tivessem acompanhado a evolução dos últimos 20 anos poderiam ter, com tranquilidade e sem nenhum comprometimento, ao redor dos 55 cv/litro, o que daria ao Dodge 286 cv e ao Maverick 272 cv de potência máxima.
CÂMBIO — Os dois utilizam caixas de câmbio Clark, de quatro marchas e alavanca no assoalho. Os engates são precisos e firmes e as caixas bastante robustas, contando com sistema de “prise direta”, ou seja, a relação da última marcha é de 1:1. O Dodge utiliza relações mais longas de marcha e relação mais curta no diferencial. As embreagens são “pesadas”, mas a posição das alavancas é boa.
DIREÇÃO — No aspecto direção, o Dodge leva nítida vantagem pois usa caixa com setor e rosca sem fim e acionamento “hidráulico”. É rápida, com três voltas de batente a batente, com boa relação entre conforto e segurança. Já o Maverick usa caixa com esferas recirculantes, sem servoassistência e com mais de cinco voltas de batente a batente. É muito leve e privilegia o conforto, sendo insegura em altas velocidades. O Dodge tem volante esportivo, diferente dos outros modelos da linha.

SUSPENSÃO — Na dianteira, o Dodge usa um interessante sistema com triângulo inferior e barras de torção longitudinais. Já o Maverick usa triângulo superior e braço simples inferior. Atrás, os famigerados eixos rígidos, com molas semi-elípticas. As suspensões se equivalem em conforto, mas em segurança ficam a dever: os carros saem de frente em entradas de curva, ou soltam a traseira quando se abusa do acelerador, principalmente em pisos ondulados ou irregulares.
Originalmente os carros eram equipados com pneus diagonais, o que piorava a estabilidade e tração. O Maverick, aliás, destraciona mais que o Dodge. Nas provas de aceleração lateral, no entanto, houve empate e ambos obtiveram a marca de 0,70G.
FREIO — O sistema de freios é simples nos dois carros, com discos ventilados na dianteira e tambores na traseira, servoassistidos. São apenas suficientes, em nada dimensionados para o “casamento” desempenho/peso dos carros. São sujeitos a travamentos e desvios laterais; a 100 km/h, o Dodge para em 46,5 metros, e o Maverick em 46,1 metros, marcas razoáveis para a época.
DESEMPENHO — Carros esportivos marcam pelo desempenho, e aí Dodge e Maverick não ficam devendo nada para ninguém. Equipados hoje com melhores pneus e avaliados em pista apropriada, foi possível chegar a resultados melhores que os alcançados em testes do passado. O Charger R/T chegou aos 195,972 km/h de velocidade máxima, praticamente empatando com Maverick GT, que chegou aos 193,735 km/h. No zero a 100 km/h, o Dodge gastou 10,53 segundos, contra 11,24 segundos do Maverick.
ACABAMENTO — No item acabamento, o Dodge ganha disparado do Maverick, já que tem bancos revestidos em couro, direção servoassistida, condicionador de ar e carpete de boa qualidade. O Maverick usa bancos em material plástico e não tem condicionador de ar ou direção servoassistida (opcionais raros). O Dodge internamente é mais requintado, e o Maverick, mais esportivo. O carro da Chrysler tem contagiros incorporado ao painel, enquanto o Maverick usa o instrumento posicionado atrás do volante, no coluna de direção. Uma curiosidade: o Dodge não tem “ar quente”.

CONSUMO — Não há como negar, Dodge e Maverick são beberrões inveterados, por causa da péssima carburação, mas nada que chegue a assustar. O Dodge faz 5,75 km/litro de gasolina na cidade e até 10,14 km/litro na estrada, enquanto o Maverick atinge 6,12 km/litro na cidade e 9,98 km/litro no estrada. Outra vez praticamente empatados.
SEGURANÇA — Com são projetos antigos, a preocupação com segurança é inexistente. Os cintos de segurança são de dois pontos, abdominais, a cobertura do painel é acolchoada, e só. As carrocerias não têm zona de deformação e são bem rígidas; cintos retráteis ou de três pontos, por exemplo, nunca foram disponíveis.
CONCLUSÃO — Os dois carros são equivalentes, mas o Dodge leva uma pequena vantagem no desempenho e acabamento enquanto o Maverick tinha desenho um pouco mais atual (na época) e era um pouco menos beberrão. Maverick GT e Dodge Charger R/T marcaram época pelo estilo, motores V8 e o carisma, muito carisma. Os resultados estão aí, simbolizando uma época que, infelizmente, não voltará mais.



