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Depois de 100 anos: a gasolina deixou de ser o principal combustível mundial

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Durante alguns meses, circularam comentários de que a transição para veículos elétricos havia arrefecido. Hoje, os dados mais recentes de vendas de veículos em nível global revelam uma virada histórica: os carros movidos exclusivamente a gasolina representam agora menos de 50% das vendas no mercado mundial,e isso pela primeira vez em um século.

da Redação

Há diversos meses somos bombardeados por publicações anunciando o fim definitivo do carro elétrico, sempre em tom apocalíptico. Análises rápidas e quase sempre suferficiais repetem a mesma cantilena de “que as pessoas se cansaram dos carros elétricos”, “que as vendas estão despencando” ou “que o motor a combustão tradicional veio mesmo para ficar”.

Mas quando você deixa de lado esse tipo de informação e analisa de maneira mais cuidadosa os números de vendas de veículos ao redor do mundo, descobre que a realidade muitas vezes apresenta uma história diferente. Os números frios e diretos revelam uma outra história: o trono até então indiscutível do tradicional motor de combustão interna está ruindo mais rápido do que muitos estão dispostos a admitir ou acreditar.

Segundo estudos da Mobility Global traduzidos recentemente pela Nikkei Asia (publicação sobre diversos assuntos, inclusive tecnologia, envolvendo Japão, China, Índia e Sudeste Asiático), os veículos movidos a gasolina representaram 49% das vendas globais no primeiro semestre do ano. Embora possa parecer um número pequeno, representa a primeira vez desde a década de 1920 que os carros com motor de combustão interna tradicional perderam a maioria absoluta. Os modelos flex, predominantes no Brasil, entram na conta dos “motores a gasolina”.

Há apenas quatro anos, em 2021, a gasolina tinha participação dominante de 73% do mercado global. No primeiro semestre deste ano, os fabricantes entregaram 20,25 milhões de unidades de veículos desse tipo de combustível, representando queda de 10% em comparação com o mesmo período do ano passado. Essa perda de participação de mercado não é uma situação temporária de dois ou três meses; trata-se de um declínio sustentado, resultado de mudanças estruturais fundamentais.

Para situar esses dados, é preciso voltar um pouco no tempo. A última vez que os veículos movidos a gasolina tiveram participação minoritária no mercado global, foi há quase um século, antes que o uso generalizado de chumbo na gasolina para aditivar o petróleo texano impulsionasse o desempenho e a eficiência dos motores de combustão, em comparação com qualquer outra alternativa da época.

Se os preços do petróleo, e por consequência, da gasolina, passarem para a casa de dois digitos, a pergunta lógica é: para onde irão esses compradores? A resposta não é uniforme em todo o mundo, mas os dados mostram claramente a tendência: correrão para os veículos híbridos e, sobretudo, os veículos puramente elétricos, que estão começando a preencher esse espaço.

Globalmente, as vendas de veículos elétricos atingiram 6,87 milhões de unidades no primeiro semestre do ano, representando um aumento de 12% em relação ao mesmo período do ano anterior. Enquanto isso, as vendas de veículos híbridos cresceram 10%, chegando a 7,27 milhões de unidades. Combinando ambas tecnologias, a eletrificação em suas diversas fases deixou de ser uma participação de mercado insignificante e se tornou o verdadeiro motor -sem trocadilho- de crescimento do setor.

É verdade que as velocidades de crescimento de interesse variam muito dependendo da região, e aqui é importante ser claro para não pintar um quadro poético sem maiores nuances:

  • Europa: As vendas de veículos puramente elétricos cresceram 32% no primeiro semestre do ano, atingindo 1,81 milhão de unidades, impulsionadas em parte pela chegada de opções mais acessíveis.

  • Sudeste Asiático: a decolagem de vendas foi ainda mais acentuada, com um aumento de 81% , chegando a quase 350.000 unidades.

  • Oceania : o volume praticamente dobrou, com aumento de 110% e cerca de 110.000 unidades vendidas.

  • China : o maior mercado do mundo responde por metade de todos os veículos elétricos vendidos no planeta. Embora tenha apresentado uma ligeira queda de 3%, indo para 3,44 milhões de unidades, após a remoção dos incentivos diretos em janeiro, seu volume permanece enorme.

  • América do Norte: aqui se observa uma queda visível de 15% , condicionada pela retirada dos auxílios e por uma aposta temporária dos fabricantes locais em modelos híbridos.
  • Brasil: no primeiro semestre de 2025, o Brasil comercializou 86.849 veículos eletrificados; no primeiro semestre deste ano de 2026, as vendas dispararam para 215.023 unidades, salto de 125%. Separando os elétricos dos eletrificados, o primeiro semestre de 2025 vendeu 30.483 unidades de elétricos, e no primeiro semestre deste ano, o número disparou para 90.470, crescimento de 196%.

Analisar apenas os Estados Unidos ou um mercado local específico para concluir que os carros elétricos fracassaram em todo o mundo foi uma visão bastante limitada de quem se arriscou a entrar nesse tema sem maiores pesquisas. O mercado global, como vimos, está evoluindo em um ritmo diferente.

Durante muitos anos, argumentou-se que o interesse por carros elétricos dependia exclusivamente de subsídios governamentais. Se os auxílios fossem removidos, as vendas cessariam. No entanto, analistas da Mobility Global apontam para um fenômeno muito mais interessante, que se alinha perfeitamente com o que vemos diariamente: o impulso atual vem do bolso do consumidor.

Com os preços do petróleo pressionados para o alto pelas guerras e instabilidade internacional, e a manutenção de motores de combustão interna cada vez mais cara, o menor custo por quilômetro rodado dos carros elétricos volta a ser um fator decisivo. Quem carrega o carro regularmente em casa ou aproveita as tarifas de eletricidade fora do horário de pico percebe um alívio real em comparação com o custo de encher um tanque de gasolina ao preço médio no Brasil de R$ 6,35 o litro.

Além disso, existe uma estatística recorrente que nenhum executivo do setor ignora e é observado em todos os mercados: a taxa de retorno aos carros com motores a gasolina é mínima. Aqueles que optam pela condução elétrica ou eletrificada, adaptam-se facilmente à sua rotina e experimentam a suavidade da direção, desempenho e a economia no bolso, raramente voltam a comprar um carro com motor a combustão. O interesse ou não pode oscilar dependendo das taxas de juros ou dos programas de incentivo de cada região, mas a tendência geral permanece a mesma.

Atualmente, os veículos puramente elétricos representam aproximadamente 17% de todas as vendas de carros novos no mundo, enquanto os veículos movidos a gasolina detêm 49%. A diferença ainda é significativa, mas as projeções do setor indicam que isso mudará em breve. No Brasil, 22,9% do mercado de veículos leves em setembro de 2026 é de modelos eletrificados.

Analistas estimam que a participação de mercado global dos veículos elétricos ultrapassará 30% até 2030 , superando tanto os híbridos quanto todos os motores de combustão interna, incluindo os a diesel. À medida que as economias de escala reduzem os custos das baterias, novas tecnologias surgem e mais modelos chegam ao mercado internacional na faixa de US$ 20 mil a US$ 25 mil (R$ 100 mil a $ 125 mil), ou até menos, o argumento econômico acabará por substituir a gasolina de vez no mercado convencional.

A manchete mais simplista dirá que a mudança é lenta ou que as expectativas iniciais foram infladas, e até pode haver alguma verdade nisso em relação aos prazos projetados. Mas uma coisa é o caminho ter obstáculos e outra bem diferente é ignorar o fato fundamental: o reinado da gasolina acabou de cair para menos de 50% em nível global, e é muito improvável que volte a subir.


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