Touareg: fim da linha para o Volkswagen que salvou a Porsche
O SUV Volkswagen Touareg -que não é vendido no Brasil desde 2019- vai se despedir desta vida no próximo ano. Conheça a história do carro que reposicionou a VW e salvou a Porsche.
O fim da vida do Volkswagen Touareg —vai ser sair de produção em 2026— encerra um importante capítulo na história da marca alemã. Capítulo este mais ambicioso do que realista, que no fim das contas não só reposicionou a fabricante, como também foi o responsável por salvar a Porsche, marca das mais desejadas e celebradas do mundo do automóvel.
por Ricardo Caruso, com RA

O SUV Touareg traz, por conta disso, um legado que poucos Volkswagen podem ostentar. Lançado em 2002, marcou a entrada da Volkswagen no segmento dos carros premium e se tornou o “cartão de visitas” da empresa durante 24 anos e três gerações.

AUTO&TÉCNICA conta a história do Volkswagen Touareg, a luz no fim do túnel que tirou a Porsche das dificuldades financeiras em que estava mergulhada há muitos anos. Se fosse possível resumir a liderança de Ferdinand Piëch do Grupo Volkswagen, iniciada em 1993, a um simples conjunto de palavras, talvez “ambição sem fim” resumisse isso. Só isso para justificar o esforço e dedicação na sua decisão de elevar a marca do antigo “carro do povo” a concorrente da Mercedes-Benz.

O Phaeton foi o símbolo máximo, quase irresponsável, dessa ambição, pois era um rival para o Mercedes Classe S, modelo que era uma referância no segmento. O Touareg, que foi lançado cerca de um ano depois, acabou ganhando mais relevância, ainda que tenha tido vida mais discreta e longe das luzes, afastada do midiático Phaeton.
O Touareg não só marcou a necessária entrada da Volkswagen no segmento dos SUVs, como foi o projeto que salvou da falência a Porsche. Apesar da fama, a marca dos esportivos esteve bem perto de fechar as porta no final dos anos 1980 e começo dos anos 1990, mas depois de um primeiro modelo de sucesso em anos, o Boxster, a empresa conseguiu reunir alguma verba no caixa para bancar a aposta mais arriscada da sua trajetória.
Wendelin Wiedeking, o chefão da Porsche na época, precisava estabilizar a situação financeira da marca, e encontrou nos SUVs a solução para todos os seus problemas. Muitos torceram o nariz para essa heresia, mas a arriscada decisão provou ser correta. Os SUVs já eram populares na América do Norte há tempos e se espalhavam pelo mundo, subindo nas tabelas de vendas de diversas marcas. Assim, não era mais possível simplesmente ignorar esse segmento.
O resultado disso foi o surgimento do Porsche Cayenne. Mas antes dele se tornar realidade, foi preciso encontrar um parceiro experiente que ajudasse a Porsche a dar esse passo vital. Tentaram inicialmente uma parceria com a Mercedes-Benz, mas as duas marcas não chegaram a um acordo, apesar de terem feito isso no passado com o 500 E. Era uma alternativa, e o Porsche Cayenne poderia ter sido baseado no primeiro SUV ML da marca da estrela. O Mercedes-Benz 500 E (ou E 500, a partir de 1993) foi um sedã esportivo de alto desempenho, da geração W124, produzido em colaboração com a Porsche, que desenvolveu e montou o carro, instalando o motor 5.0V8 de 32 válvulas (M119), criado em parceria entre ambas, resultando em um “lobo em pele de cordeiro” discreto e potente, produzido entre 1990 e 1995.

Piëch viu na necessidade da Porsche uma imperdível oportunidade de negócio, com bom potencial, e após as negociações com a Mercedes-Benz terem fracassado, chegou a um acordo com Wiedeking em junho de 1998 para o desenvolvimento conjunto do que acabariam gerando o VW Touareg e o Porsche Cayenne.
Para Piëch, foi uma jogada de mestre. Por um lado, adicionava um segundo modelo nas ambições premium da Volkswagen, e por outro, talvez algo em nível pessoal, ajudaria a salvar a empresa fundada pelo seu avô, Ferdinand Porsche, da qual era um dos principais acionistas.
Assim surgiu a joint venture entre Volkswagen e Porsche, que definia muito bem os papéis a serem desempenhados por cada parte no projeto. O desenvolvimento e a engenharia dos veículos (incluindo a plataforma PL71) ficaram para os cuidados da Porsche. Para a Volkswagen, ficou a industrialização e montagem das carrocerias, áreas onde tinha mais experiência.
Mas quando o Cayenne chegou às ruas, um choque: o carro era qualquer coisa, menos bonito, apesar de que beleza é sempre algo subjetivo. O SUV continua hoje na lista dos lançamentos mais controversos de todos os tempos. Os admiradores do 911 ficaram horrorizados com a ideia de um SUV, feio (segundo eles) e pesado, e muitos anteciparam seu fracasso, sem entenderem os motivos que levaram a Porsche a lançar no mercado algo que era totalmente contrário ao que marca simbolizava. Não levaram em consideração que, antes de tudo, era preciso salvar a Porsche.

Para piorar a receptividade, em nada ajudava o fato de que o Cayenne não era um carro atraente aos olhos do que se espera de um Porsche. A ideia de mesclar as linhas clássicas do 911 com a carroceria volumosa de um SUV até hoje encontra resistência, apesar de ter sido uma boa sacada. Mas não era possível culpar só os desenhistas.
Pesava o fato de que, para manter os custos deste projeto sob controle, foram assumidos certos compromissos, como compartilhar painéis da carroceria entre os dois SUVs -como as portas- e ainda o para-brisas. Detalhes que acabaram prejudicando mais o visual do Cayenne do que do Touareg.
Apesar disso, foi questão de pouco tempo para que a aposta arriscada da Porsche fosse reconhecida pelo mercado. O Cayenne logo disparou em vendas e se tornou o modelo mais vendido da marca, colocando-a em um novo patamar, comercial e financeiro, impensáveis pouco tempo antes. Sem exagero algum, se a Porsche chegou firme e forte aos dias atuais, tem que agradecer ao Cayenne. E ao Touareg, resultado da ambição e visão de de Ferdinand Piëch em ajudar a Porsche, algo que foi de encontro direto aos seus interesses.
Para o Touareg, tudo sugeria que o VW teria apenas um papel secundário nesta relação. Tal como o desprezado sedã Phaeton diante da concorrência, as atenções estavam todas direcionadas para o Cayenne. Mas o SUV da Volkswagen não foi, nem de longe, um fracasso. Muito pelo contrário.

Aos poucos o VW conquistou o seu espaço no mercado, enquanto o Phaeton se tornava um caso estrondoso de sucesso. Por conta disso, o Touareg recebeu uma segunda geração (2010) e uma terceira (a atual, de 2018) e se posicionou, com méritos, como o topo de linha da Volkswagen. O resultado é que o VW SUV conquistou quase 1,2 milhões de clientes em todo o mundo -inclusive no Brasil- nestas três gerações, o que não deixa de ser interessante para uma marca sem tradição neste segmento e neste posicionamento de mercado.

O símbolo “VW” na grade pode até ser o mesmo do Fusca, Brasília ou Golf, mas este SUV olhava de igual para igual a concorrência premium que encontrou pelo caminho, seja pela confiabilidade, pela tecnologia ou pela funcionalidade em ambiente luxuoso, mas também pelas motores refinados que passaram por baixo de seu capô, como o W12 ou o V10 turbodiesel.

É correto afirmar que o Touareg nunca conseguiu ter mais destaque e sair verdadeiramente da sombra dos concorrentes caseiros, fosse o Porsche Cayenne ou, mais adiante, o Audi Q7, que usava a mesma base técnica dos demais. Afinal, entre comprar um SUV premium da Volkswagen ou outro quase idêntico -em termos técnicos- da Porsche ou da Audi, o status das duas últimas pesava e muito na decisão.
A diferença de preço nem sempre era significativa entre o VW, Porsche e Audi, mas no segmento premium não basta ser bom: o emblema ostentado importa e muito para o comprador. E o “VW” não tinha e não tem o mesmo peso ou status da hélice da BMW, da estrela da Mercedes ou dos quatro anéis da Audi. O SUV da VW tem muitos méritos, e apesar do Touareg ser quase o mesmo carro que o Porsche Cayenne, Audi Q7 e até mesmo o Bentley Bentayga, no bolso do proprietário continua a chave de um Volkswagen, um carro cujo nome significa, literalmente, “carro do povo”, apesar de ter deixado isso no passado.

