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A história de Patrick Depailler

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Primeiro de agosto de 1980, pouco mais de 45 anos atrás, Curva Leste de Hockenheim. Uma sessão de testes particulares da equipe Alfa Romeo de Fórmula 1 no antigo circuito alemão terminou de forma brutal. O guard rail da curva despedaçou o Alfa 179. O carro capotou e o piloto francês Patrick Depailler ficou preso nos destroços. A causa do acidente nunca foi determinada, pode ter sido uma quebra de suspensão ou mesmo uma pedra que travou a cortina aplicada nos carros-asa da época. O jornal L’Équipe trouxe a manchete “Morte de um homem”.

por Ricardo Caruso

Patrick Depailler nasceu em Clermont-Ferrand, na região de Auvergne, na França, perto do circuito de Charade. Quando adolescente, adorava pilotar seu ciclomotor em alta velocidade nas ruas da cidade. E pelas calçadas também…

Ele nunca pensou, quando criança, em ser piloto de Fórmula 1. Nasceu em uma família da classe média alta, em que o pai era arquiteto, tinha duas irmãs mais velhas e foi por simples acaso que a velocidade entrou na sua vida. Num dia em que não tinha nada para fazer, saiu de casa e passou por uma banca de jornais, onde uma revista de motociclismo chamou sua atenção. Nunca havia lido nenhuma antes, mas essa ele devorou da primeira à última página. Estava, desta forma, traçando seu destino. “A partir aquele momento, fui apanhado”, confessou anos mais tarde. Começou com uma Solex, depois uma Mobylette e passou para uma 125, todas devidamente preparadas por ele mesmo. Depois, vieram as grandes cilindradas, 350 e 500 cm³. O dinheiro? Conseguia pedindo à sua mãe.

Estreou nas competições com uma Norton Manx 500. Foi sua facilidade em lidar com as altas velocidades que chamou a atenção de outro piloto francês, igualmente lendário, Jean -Pierre Beltoise, em 1963. Em 1964, Depailler estreou no automobilismo. Beltoise, que estava se recuperando de um acidente, permitiu que ele pilotasse sua Lotus Seven e participasse da “Operação Ford-Jeunesse”.

Patrick André Eugene Joseph Depailler nasceu em 9 de agosto de 1944 e morreu naquele fatídico 1o. de agosto de 1980. A batida na hoje desaparecida — mas então rapidíssima — Curva Oeste da pista alemã foi a 280 km/h, tão violenta que o carro “encolheu” a ponto dos pedais ficaram encostados ao volante! A uma semana de fazer 36 anos, Patrick faleceu no local.

Em 1966, participou da corrida “Volant Shell” em Magny-Cours, terminando em segundo lugar, atrás de François Cevert. Em 1967 , juntou-se à equipe Alpine Racing, em Dieppe. Ao lado de Mauro Bianchi e Jean-Pierre Jabouille, atuou como mecânico e piloto. Com seus amigos, transformou o Alpine F3 de 1.600 cm³ em uma máquina de corrida invencível.

Nas provas de resistência, abandonou a “24 Horas de Le Mans” onde fez dupla com Gérard Larousse e o “1.000 km de Paris” com Jean Vinatier, ambas com um Alpine 1005/A210. Na temporada de 1968 , conquistou o terceiro lugar na “1.000 km de Monza” (com André De Cortanze) e o sexto lugar na “1.000 km de Paris” (com Larousse), pilotando um Alpine 3000/A220. Novamente foi para Le Mans, sem sucesso. Em 1969 , ainda na equipe Alpine, novamente abandonou a “24 Horas de Le Mans”, mas terminou em 6º lugar em Monza. Após três anos, seu contrato terminou, e então ele começou a correr na Fórmula 2 em 1970, com um Pygmee MDB15. Pela equipe Matra, pilotando o MS 650 número 30 em Le Mans, teve sua corrida encerrada na sétima hora, por conta de problemas mecânicos .

1967-24h-le-mans-depailler
1969-24h-le-mans-depailler


Em 1971, Patrick Depailler foi novamente convocado pela Alpine, que decidiu retornar à Fórmula 3 e precisava de um piloto para acompanhar Jean-Pierre Jabouille. Ao final da temporada, com seis vitórias, Depailler sagrou-se campeão francês de F3. Ele também pilotou um Tecno na Fórmula 2 Europeia e fez parte da equipe Ligier Racing na “24 Horas de Le Mans”. Juntamente com o chefe da equipe, completou a corrida (não classificado por distância insuficiente) com o famoso JS3 amarelo patrocinado pela BP.

Em 1972, foi contratado em tempo integral por John Coombs para pilotar o Elf2 e o March 722, vencendo a etapa de Enna. Patrick também dominou a corrida de F3 em Mônaco, sob forte chuva. Pilotou o Alpine-Renault A364 (no. 80) e resistiu à pressão do JPS73-Nova de Tony Trimmer. Isso chamou a atenção de François Gutier, da Elf, que ofereceu a Patrick uma vaga na Fórmula 1, em um terceiro carro da Tyrrell, o que era permitido na época. Assim, em Clermond Ferrand, ele fez sua estreia na F1 com um Tyrrell 004. Terminou a corrida em último lugar, devido a algumas paradas extras nos boxes por problemas com pneus furados. Sua segunda corrida na F1, em Watkins Glen, terminou em sétimo lugar. 

Alpine Depailler F3 de 1971
24h Le Mans 1971 Ligier Depailler
1972 Depailler F3 Mônaco
1972 Tyrrell Depailler
1972 Tyrrell Depailler

Em 1973, Depailler voltou a abandonar a “24 Horas de Le Mans” com a Matra. Entre uma corrida e outra com seu Elf 2, com o terceiro lugar geral no Campeonato Europeu de Fórmula 2 em 1973, fraturou a perna em um acidente de moto e precisou ficar dois meses de cama. Uma catástrofe, claro! Ken Tyrrell e Gutier ficaram furiosos, pois a Tyrrell precisava de um piloto para as últimas corridas de Fórmula 1 do ano. Mas, com o acidente fatal de François Cevert em Watkins Glenn e a aposentadoria de Jackie Stewart, ele se tornou o piloto francês oficial da equipe Tyrrell, ao lado do sul-africano Jody Scheckter, em 1974. 

Sendo praticamente um estreante na Fórmula 1, ainda precisava aprender a pilotar o carro no limite e conhecer as pistas, e, somado à falta de experiência e à dificuldade com o idioma, a confiança da equipe para com ele não era das melhores no início.

No entanto, ele conquistou sua primeira pole position, sua primeira volta mais rápida e um segundo lugar no GP da Suécia, com o Tyrrell 005. Nada mal para um carro que ele achava difícil de pilotar. No total, ele marcou 14 pontos. Durante o ano, Depailler também se tornou campeão europeu de F2 com o March 742-BMW, ​​superando seu companheiro de equipe Hans Stuck. Ele venceu quatro corridas e terminou em segundo lugar em outras duas.

Em 1975 , Depailler tornou-se oficialmente membro integral da Tyrrell. Seu companheiro de equipe, Scheckter, estava tendo um desempenho melhor. Patrick fez algumas corridas excelentes, como em Mônaco, Nürburgring (disputando a pole position com Niki Lauda) e o GP da Europa, mas marcou apenas 12 pontos. Ele também correu (sem marcar pontos), novamente com um March na F2.


Em 1976, Depailler compreendeu rapidamente o potencial do novo Tyrrell Project 34 de seis rodas. O ano começou com o convencional Tyrrell 007 em três corridas e, a partir das etapas europeias, com o P34. Ken Tyrrell lhe deu total confiança e ele se mostrou melhor que Scheckter. Quase venceu o GP do Japão, quando um pneu furou. No geral, foi segundo colocado em cinco ocasiões e terminou em quarto no campeonato, com 47 pontos. Jody Scheckter venceu o GP da Suécia, com Patrick em segundo.

A temporada seguinte foi novamente difícil, também para seu companheiro de equipe, o rápido sueco Ronnie Peterson. O carro de seis rodas não era mais tão competitivo e estava muito pesado. Um segundo lugar no Canadá e terceiro na África do Sul e em Fuji lhe renderam mais pontos que seu companheiro de equipe.

desempacotador Tyrrell
desempacotador Tyrrell
desempacotador Tyrrell
desempacotador Tyrrell
desempacotador Tyrrell
desempacotador Tyrrell
Depailler - Peterson -Zolder - F1

A primeira vitória

Depailler poderia ter ido para outra equipe (havia contatos com a Brabham, após a morte de José Carlos Pace), mas decidiu permanecer com a Elf e a Tyrrell em 1978. O Tyrrell 008 voltou a ter quatro rodas e seu novo companheiro de equipe era a revelação francesa, Didier Pironi. A maioria das corridas foi dominada pelo Lotus 79, carro-asa, criado por Colin Chapman. Mas em Mônaco, o dia era de Patrick Depailler. Ele fez uma largada perfeita da quinta posição no grid e subiu para segundo já na curva Saint-Dévote, logo após a largada, atrás de John Watson, da Brabham, e à frente de Niki Lauda. Durante 38 voltas, ele procurou uma oportunidade para ultrapassar a Brabham. Mas então, Watson foi para a área de escape, com os freios de seu carro falhando. Assim, Depailler e Lauda desapareceram na frente. Ele manteve a liderança e não cometeu erros. Grande vitória! No geral, ele terminou em quinto no campeonato.

Além da Fórmula 1, Patrick Depailler foi piloto oficial da Alpine-Renault nas corridas de resistência em 1977 e 1978, tendo abandonado duas vezes a encantada “24 Horas de Le Mans”. Em 1978, repetiu a dose, com o Alpine A443 e o companheiro de equipe Jabouille. Teve uma primeira hora de corrida difícil, mas conseguiu a volta mais rápida e assumiu a liderança na manhã de domingo. Porém, pouco antes do final, teve que abandonar na curva Mulsanne.

F1 Mônaco - Depailler
Fórmula 1 Mônaco - 1978

Para a temporada de Fórmula 1 de 1979, Depailler juntou-se a Jacques Lafitte na Ligier. O JS 11 era um carro muito bom e, desde a primeira corrida na Argentina, a categoria viu o domínio do carro azul francês. Lafitte venceu as duas primeiras corridas, com Patrick em segundo no Brasil. Depois de um quinto lugar em Long Beach, Depailler venceu a etapa seguinte no circuito de Jarama. Ambos os Ligier estiveram na frente o tempo todo, com Lafitte tentando vencer. Mas quando Lafitte errou uma troca de marcha e o motor saiu de giro, Depailler fez a ultrapassagem e cruzou a linha de chegada em primeiro. Segunda vitória e terceiro lugar no campeonato.

Ligier Depailler F1
Ligier Depailler F1
Ligier Depailler F1

Então, tudo deu errado. Divertindo-se perto do vulcão francês Puy-de-Dôme, Patrick sofreu um acidente com uma asa delta. Ele estava voando muito perto das rochas e a turbulência o jogou contra elas a cerca de 50 km/h. Ele quebrou as duas pernas e ficou afastado das pistas por seis meses. Segundo a equipe médica, ele não conseguiria correr pelo resto da temporada. Após várias cirurgias, ele recebeu alta quatro meses depois, para se preparar para o início da temporada seguinte.


Guy Ligier ofereceu a ele um contrato para a temporada, sem participação em outras modalidades além da F1, e com a função de ser segundo piloto. Patrick recusou. Entrou em contato com diferentes equipes, mas apostou na Alfa Romeo. Ele gostou da abordagem da equipe ao automobilismo. O 179, com motor V12, parecia a melhor opção para 1980. Nas duas primeiras corridas na América do Sul (Argentina e Brasil), Patrick achou o carro muito pesado e não conseguiu terminar as provas.

Ele elaborou uma lista de possíveis melhorias e, para o GP da África do Sul, o 179 era um carro completamente diferente, largando na sétima posição. Em Long Beach, totalmente recuperado, chegou a ocupar a sexta posição por um bom tempo antes de bater no muro. O carro, no entanto, o decepcionou nas outras corridas. Nos treinos livres para o GP da França, ele saiu da pista na curva Signes a 250 km/h. O motivo nunca foi descoberto.

Alguns dias depois, em Brands Hatch, aconteceu a mesma coisa. Ele saiu da pista e não encontraram nenhuma explicação, e a maior suspeita era de quebra de suspensão. E aí veio o teste no dia primeiro de agosto…

Alfa Romeo F1 Despailler
Ligier Depailler F1

O seu currículo na F1 foi de 95 GP disputados, 141 pontos conquistados, duas vitórias (GP de Mônaco de 1978, com Tyrrell, e GP da Espanha de 1979, com Ligier) e uma pole position (GP Suécia de 1974, com um Tyrrell) tudo isso entre 1972 e 1980. Depailler, eterno aventureiro, foi um raro piloto que fez sucesso em duas, quatro e seis rodas. Quieto e discreto, era educadíssimo, e no meio da agitação do automobilismo, quase não se dava nada por ele, exceto quando estava por trás de um volante. Aí, era muito rápido. A sua alegria de viver e buscar sempre novas emoções, causou dificuldades fora das pistas, acidentes desnecessários e impediu que tivesse uma carreira mais bem-sucedida. Ficou a lembrança de seu talento nas pistas.


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