Há 50 anos, o Fiat 126 Vettura Urbana imaginava o futuro elétrico
Apresentado no Salão de Los Angeles de 2016, o 500e foi exibido como o primeiro destaque da então nova linha de elétricos da FIAT. Um modelo atraente e fácil de dirigir, com o qual a marca italiana iniciou sua ofensiva em direção à mobilidade urbana elétrica. Era baseado no Fiat 500 redesenhado de 2007 (que chegou ao Brasil dois anos depois) — bem-sucedido graças ao seu apelo retrô — mas o pequeno FIAT elétrico não era tão inovador quanto parecia. Em 1992, em Turim, andamos num Cinquecento elétrico (um carro quadradinho, menor que o Uno) e, na década de 1970, os engenheiros de Turim, liderados pelo desenhista Giovanni Michelotti, já haviam concebido dois pequenos carros urbanos (um a combustão em 1972 e sua versão elétrica em 1976) para a marca, o X1/23. Ou seja, a FIAT via o carro elétrico em seu horizonte há muito tempo.

Como vimos, com um nome futurista que parece extraído de algum episódio de “Star Wars”, o interessante conceito FIAT X1/23 foi mostrado em 1972 e ganhou uma variação elétrica em 1976. Com dois lugares, o carrinho ainda é lembrado 54 anos após sua exibição como um dos experimentos mais interessantes e estranhos da família Agnelli. Seu formato era meio indefinido, porém prático, graças à grande área envidraçada, concebido como a solução para as complexidades da mobilidade urbana nas ruas estreitas e históricas da Itália.
O X1/23 elétrico de 1976 era equipado com um motor elétrico de 13,5 cv, que acionava as rodas dianteiras e possuía frenagem regenerativa. As baterias eram localizadas na traseira. O X1/23 tinha velocidade máxima de 72 km/h e autonomia declarada de cerca de 80 km (50 milhas). Apesar de seu tamanho reduzido, o carro pesava 820 kg, 166 kg eram referentes à bateria.

Mas aqueles tempos ainda não eram exatamente propícios para a eletrificação dos carros, diferente do que presenciamos hoje em dia. Assim, o pequeno FIAT elétrico foi parar em um galpão, guardado junto com outros protótipos da empresa que nunca entraram em produção. Um quase fracasso que, na verdade, não foi totalmente em vão, já que naquele mesmo ano de 1976, Michelotti retornou com outro conceito, o 126 Vettura Urbana, que já estava desenhado desde 1973. Uma interessante versão elétrica do popular FIAT 126 com carroceria futurista e portas deslizantes. Um verdadeiro laboratório de ideias que agora, 50 anos depois, não é lembrado com tanto carinho quanto o X1/23, mas tem seu espaço na história da FIAT.

No início da década de 1970, apenas meia dúzia de ecologistas ferrenhos previu o possível colapso iminente do mundo como o conhecíamos. Vistos como “apologistas do caos”, foram gradualmente excluídos do debate público, especialmente quando questionaram seguidas vezes o uso de recursos fósseis, que são finitos por definição.
Mas a crise do petróleo de 1973 expôs a fragilidade energética de nossas sociedades. Impulsionados por petróleo importado de zonas de conflito, os países ocidentais repentinamente enfrentaram escassez. Imagens de longas filas em postos de gasolina e o fim dos muscle cars e seus motores V8, bem como a disparada dos preços do petróleo, desencadearam um debate sério na indústria automotiva.
A primeira consequência foi o desenvolvimento de motores mais eficientes em termos de consumo de combustível. A cilindrada dos motores foi reduzida e a parte mecânica tornou-se mais eficiente. A segunda foi o surgimento de protótipos e conceitos interessantes, que exploraram novas formas de mobilidade, especialmente em ambientes urbanos. Dominado por trajetos curtos, esse ambiente reduziu a importância da autonomia. Esse foi um fator significativo, já que protótipos como o FIAT X1/23 elétrico tinham uma autonomia de apenas cerca de 80 ou 90 km sem necessidade de recarga. Essa era uma desvantagem para os primeiros veículos elétricos, agravada pelo seu peso excessivo.


O X1/23 era equipado com baterias ainda primitivas montadas no eixo traseiro, e o peso deste FIAT elétrico chegava a 820 quilos como vimos, apesar de ser praticamente um carro em miniatura se comparado aos grandes sedãs da época. Isso representava um peso considerável, agravado pelos 160 quilos das baterias. Muito pesado para transportar, no máximo, duas pessoas. Portanto, tornou-se necessário o desenvolvimento de um novo protótipo elétrico, com maior espaço interno e potencial para produção em massa. Para isso, Giovanni Michelotti e sua equipe no Centro de Estilo da FIAT apresentaram o Vettura Urbana em 1976, baseado no pequeno e popular 126 (abaixo).

Frequentemente descartados dos planos futuros de todas as marcas e rotulados como fantasiosos e ineficientes, os veículos elétricos tiveram um caminho bastante árduo para se tornarem realidade. Até 1920, os carros elétricos dominavam o mundo do automóvel, com mais de 300 marcas espalhadas pelo mundo. Aí os americanos descobriram petróleo no Texas, acharam um uso para eles e isso impôs quase um século de atraso no desenvolvimento dos carros elétricos. Conta que está sendo paga hoje…

Mesmo na década de 1930, empresas como a Detroit Electric tentaram resistir e já haviam desenvolvido modelos a bateria que eram considerados de uso perfeitamente normal. No entanto, ao analisarmos depois disso a história, encontramos mais experimentos estranhos do que tentativas sérias de produção em massa desses carros. É por isso que o 126 Vettura Urbana é tão importante, pois foi concebido com base em um carro urbano popular e já existente. Em outras palavras, foi projetado com a intenção clara de entrar em produção, assim como as incontáveis versões elétricas do Mini ou do FIAT 500 são oferecidas hoje.

Ao contrário do X1/23, este FIAT elétrico já contava com espaço para quatro passageiros. Além disso, o acesso ao veículo era facilitado pelas portas deslizantes. Essa característica só foi aplicada a um carro urbano de produção em série com o lançamento do Peugeot 1007 em 2005, mas o 126 Vettura Urbana já a utilizava 45 anos antes. Era uma solução interessante para melhorar a praticidade, mas não chegou a garantir um lugar na linha de produção. De fato, o próximo FIAT elétrico só chegou em 1992 -aquele 500 que andamos- e o Dowttown de 1993, ambos protótipos.

Curiosamente, o brasileiro João Gurgel apresentou em 1974 o Itaipu E150 (acima), claramente inspirado no Vettura Urbana, cujo desenho havia sido mostrado um ano antes por Michelotti. Mas o brasileiro não tinha cabedal e nem acesso à tecnologia que permitisse viabilizar um produto com essas características.

Na imagem acima, na busca pelo carro elétrico urbano, em 1993 a FIAT trouxe o Downtown, carro com um formato mais incomum que o do Multipla, mas com um desenho extremamente inteligente e três lugares, com autonomia de quase 190 km em ciclo urbano. Foi mais uma tentativa da marca italiana de eletrificar sua frota, que já havia mostrado o Panda Elettra (abaixo) em 1990.

Esse modelo, desenvolvido em colaboração com o Ministério do Meio Ambiente italiano, nasceu com um visual já ultrapassado. Mas foi outra ideia derivada do elétrico FIAT 126 Vettura Urbana. Um carro à frente de seu tempo, que comemora 50 anos em 2026. A hoje eletrificada Fiat agradece a esses conceitos que mostraram qual era o caminho do futuro.
O 126 Vettura Urbana apresentava diversos elementos de desenho inteligentes, adaptados às restrições do ambiente urbano, em especial na Itália. Uma das características mais notáveis do carrinho era a redução dos balanços dianteiro e traseiro, que o tornava mais manobrável em ruas estreitas e estacionamentos. Ao encurtar os balanços dianteiro e traseiro, o carro conseguia fazer curvas mais fechadas e navegar com facilidade em espaços urbanos congestionados.
Esse detalhe no projeto era essencial para um carro construído especificamente para a vida na cidade, onde o espaço é frequentemente limitado. Outra característica fundamental era a inclusão de portas deslizantes, uma inovação para um carro compacto na época. Essas portas permitiam entrar e sair com mais facilidade em vagas de estacionamento apertadas, algo especialmente útil em áreas urbanas movimentadas. Ao eliminar a necessidade de portas convencionais com dobradiças, o 126 Vettura Urbana oferecia uma funcionalidade prática que facilitava bastante o estacionamento em espaços estreitos.
No entanto, embora o desenho e design (que são coisas diferentes) tivesse seus méritos, o protótipo do Fiat 126 Vettura Urbana apresentava algumas desvantagens. A mais notável era o seu peso maior em comparação com o 126 padrão. O peso adicional afetava o desempenho, a eficiência e a dirigibilidade, o que poderia ter sido um problema caso o carro tivesse entrado em produção em massa. Essa desvantagem foi reconhecida como algo que poderia ter sido resolvida em um modelo de produção com o uso de materiais mais leves para reduzir o peso total. Apesar de não ter chegado à produção, o Fiat 126 Vettura Urbana permanece um exemplo fascinante de inovação no desenho de carros compactos, demonstrando uma abordagem criativa para solucionar os desafios da mobilidade urbana, que praticamente continuam os mesmos.

