Ford: a história do Orion, igual mas diferente do Verona…
O Ford Orion europeu faz parte da história do automóvel no Brasil. Não foi fabricado aqui em sua primeira geração, mas inspirou o Ford Verona e VW Apollo.
No início da década de 1980, a Ford ostentava na Europa modelos como o bem-sucedido Fiesta, o Escort e o Sierra, cada um com suas próprias versões esportivas, como o nosso conhecido Ford Escort XR3. Mas precisava de outro modelo para preencher a lacuna entre o Escort e o Sierra, então o maior sedã da marca até a chegada do Scorpio. Esse espaço foi ocupado pelo Orion, que era essencialmente um modelo sedã do Escort. Esta é história do Ford Orion, que por aqui inspirou e deu vida ao Ford Verona e VW Apollo.
por Ricardo Caruso

Antes de mais nada, o Ford Orion foi desenvolvido sob o codinome “Projeto Apollo” (nada a ver com o homônimo da NASA…), e isso teve algum reflexo no Brasil, como veremos mais adiante. Lançado no mercado europeu em setembro de 1983, o Orion foi projetado para atender à demanda do mercado por um sedã tradicional de quatro portas, que não estava disponível na linha Escort desde o fim da produção do MK2 em 1980, e também de carros maiores, com o fim da produção do extremamente popular Cortina em 1982.

O Orion era semelhante a um Escort da época na dianteira, exceto pelo desenho diferente da grade, mas a traseira tinha porta-malas longo e plano (tornando o carro um sedã de três volumes) em vez de uma carroceria hatch ou wagon como o Escort. Embora o comprimento do Orion fosse semelhante ao do
Ford Sierra da época (disponível apenas como hatch ou wagon), ele tinha mais espaço para as pernas no banco traseiro e porta-malas maior. Esse conceito era semelhante ao do Volkswagen Jetta, o modelo sedã do Golf hatch, que estava à venda desde 1979.

O Ford Orion era um carro familiar do “segmento C” europeu, sem pretensões esportivas, projetado para oferecer o bom conforto aos seus ocupantes. Houve duas gerações desde seu lançamento em 1983 até o fim de sua produção em 1998, quando foi rebatizado simplesmente de Escort em 1993.

Como vimos, a primeira geração do Orion foi lançada em 1983, posicionando-se entre o Escort, do qual derivava, e o Sierra. Seu visual era muito semelhante ao do Escort: discreto, sóbrio e sem a intenção de chamar a atenção, porém com uma traseira mais longa. Isso lhe conferia a aparência de sedã e aumentava o espaço do porta-malas . Em 1986, passou por uma reestilização, adotando elementos de estilo do novo Scorpio : dianteira redesenhada, novos para-choques, detalhes cromados e um novo console central.

Inicialmente, a Ford ofereceu o Orion apenas nas versões GL e Ghia, deixando de fora as versões de entrada disponíveis no Escort, bem como o motor básico de 1.100 cm3. Somente as opções de motor CVH de 1.300 cm3 e 1.600 cm3 estavam disponíveis desde o lançamento (embora com opções de carburador e
injeção eletrônica no 1.6 Ghia). Uma versão L de especificação inferior foi introduzido em 1984, assim como a opção de um motor diesel 1.6 nos modelos L e GL.

Por ser direcionado a um segmento superior, o Orion possuía um “pacote” de equipamentos mais completo. O Ghia incluía vidros elétricos, travamento central, retrovisores elétricos, teto solar e limpadores de para-brisa com velocidade variável (detalhe raro na época), entre outros itens. Os opcionais incluíam freios ABS (com sistema mecânico), airbag para o motorista, ar-condicionado e rodas de liga leve.

Em 1990, chegou a segunda geração, um modelo completamente novo — o MK2 — com outra plataforma e suspensão traseira com eixo de torção, substituindo a anterior suspensão independente. Estreou um novo desenho frontal, com faróis maiores e nova grade. O carro incorporou barras de proteção nas portas contra impactos laterais, novas zonas de absorção de impacto e até airbags, melhorando significativamente a segurança.

O Ford Orion Mk II incluía novos recursos, como direção hidráulica, ABS eletrônico e ar-condicionado de série na versão topo de linha, que era opcional nas demais. Três anos após seu lançamento, em 1993, a Ford decidiu mudar o nome na Europa, passando de Orion para simplesmente Escort, compartilhando o nome com as versões de duas portas, quatro portas e wagon.

Ao longo de sua produção, o Ford Orion/Escort sedã apresentou motores transversais de quatro cilindros a gasolina e a diesel, tanto aspirados quanto turbo (no caso dos motores a diesel). A primeira geração começou com motor de 1,3 litros produzindo 60 cv, motor a gasolina CVH de 1,6 litros com carburador produzindo 90 cv e outro motor de 1,6 litros com injeção de combustível de 105 cv. Este bloco de motor era proveniente do Escort XR3. Em 1984, foi introduzido um motor a diesel de 1,6 litros aspirado com 54 cv .
Com a atualização recebida em 1986, novos motores também foram introduzidos: o motor 1.6 alimentado por um carburador Weber duplo, que aumentava a potência para 98 cv. Uma versão intermediária também surgiu na linha, com motor 1.4 e carburador, de 75 cv. Em 1989, foi a vez do motor a diesel 1.8, com 65 cv. O modelo topo de linha continuou sendo a gasolina de 105 cv.
A segunda geração, lançada em 1990, continuou usando os mesmos motores, fato que gerou críticas na época. No entanto, em 1992, foi introduzida uma nova geração de motores a gasolina Zetec com injeção de combustível, junto com os motores a diesel Endura, tanto aspirados quanto turbo. A gama era composta pelo 1.4 CLX com 71 cv , 1.6 16v CLX com 90 cv , 1.6 16v Ghia com 90 cv , 1.8i 16v CLX com 105 cv , 1.8i 16v Ghia com 105 cv e o 1.8i SI Ghia com 130 cv. Em 1993, a linha de motores foi completada com a versão a diesel 1.8D com 60 cv e a versão a diesel 1.8TD com 90 cv .
Em termos de desempenho e comportamento dinâmico, a primeira geração do Orion destacou-se como um carro espaçoso e confortável, ideal para viagens em família, que era o seu propósito original, bem distante de qualquer apelo esportivo. As versões a gasolina ofereciam bom desempenho, enquanto as versões a diesel apresentavam consumo de combustível muito baixo. No entanto, o carro demonstrava subesterço (saída de frente) excessivo, e a suspensão tinha uma configuração rígida e curso curto, tornando-o pouco agradável para condução em superfícies irregulares. A segunda geração corrigiu esse problema com a adição de uma suspensão traseira de dupla torção. O veículo ganhou estabilidade e melhorou o conforto de condução .

De todas as versões do Orion, a Ghia era sem dúvida a melhor. Na Ford, o nome Ghia sempre foi sinônimo de distinção, até ser substituído por Titanium. Esteticamente, destacava-se do resto da linha com suas rodas de liga leve exclusivas, para-choques na cor da carroceria e o emblema Ghia nos para-lamas dianteiros e na tampa traseira.
O Ford Orion (posteriormente chamado de Escort sedã) teve sua produção descontinuada em 1998, ano em que a Ford lançou o novo Focus, um carro compacto moderno, que se tornaria um enorme sucesso. O sedã do Escort não foi um carro que entrou para a história por seu desenho ou desempenho, nem deixou uma marca indelével como o Ford Sierra. Mas permitiu que muitos motoristas tivessem acesso a um veículo de nível superior, bem acabado e bem equipado sem precisar recorrer aos grandes sedãs da época .
VERONA NO BRASIL? POR QUE NÂO?
O Orion teve reflexos no Brasil. Inspirou o Ford Verona, sedã que foi fabricado aqui pela Ford. A primeira geração foi produzida de 1989 a 1992, diferente do carro europeu, e a segunda geração foi feita de1993 a 1996, já idêntica visualmente ao carro original.
O nome inicial do projeto era Nevada (curiosamente usado pela Renault). Era a época da Autolatina, parceria entre a Ford e a Volkswagen no Brasil e Argentina, que durou de 1987 a 1996, para reduzir custos compartilhando fábricas, projetos, tecnologias e plataformas. A Ford estava indecisa quanto ao nome final do projeto do Escort sedã brasileiro, e diz a lenda que resolveu escolher o nome aleatoriamente em um computador. O nome selecionado apareceu: Verona, a cidade italiana. Chegou ao mercado em 1989 como o primeiro produto da Autolatina e duas opções de motor, o Ford CHT 1.6 e o VW AP 1.8. Na segunda geração recebeu o motor AP 2.0, além do AP 1.8, ambos VW, todos carburados. Mais adiante, recebeu injeção eletrônica.
A fabricação do Verona no Brasil começou em 1989. O desenho externo e interno e a parte mecânica da 1ª geração do Verona eram do Escort MK4, com a adição do terceiro volume, do porta malas, maior. Era um “Escort com porta-malas”. A motorização, câmbio, bancos dianteiros, painel e volante eram os mesmos do Escort.


Esta primeira geração do Verona tinha basicamente o mesmo acabamento interno e detalhes externos do Escort MK4, na dianteira apenas a grade e o para-choque eram diferentes. Foi produzido só com carroceria duas portas, conforme impunham as preferências de mercado da época. Em relação ao Ford Orion produzido na Europa, o Verona trazia desenho mais equilibrado e harmônico, em especial na traseira. Justamente por serem carros diferentes, o nome Orion não foi usado aqui.

Lá no início desta matéria falamos do nome do projeto do Orion na Inglaterra, Apollo. É aqui que ele reaparece, pois em 1990 chegou ao mercado o seu par, o Volkswagen Apollo. Os dois modelos tinham diferenças mecânicas e estéticas, mantendo a mesma carroceria. O Verona tinha uma pegada mais clássica, enquanto seu “irmão” tendia mais para a esportividade. O Verona dos anos 1990 era um dos carros mais silenciosos e confortáveis do mercado.
Em 1992, o Verona de primeira geração saía de fábrica equipado com catalisador, para atender as normas do PROCONVE. No mesmo ano, ganhou sistema de direção hidráulica progressiva, opcional nas versões 1.8 LX e 1.8 GLX.
No segundo semestre de 1992, o Escort chegou à sua quinta geração (a terceira no Brasil), com o MK5. O Verona seguiu essa completa remodelação e ganhou o visual do Orion europeu, incluindo a carroceria de quatro portas. Nesta sua segunda geração, os motores eram todos Volkswagen, AP; 1.8 e 2.0. A oferta de versões aumentou, com a LX, GL, GLX, Ghia e S. Sabe-se lá porque, foi apelidado aqui de “europeu” ou “sapão”.

Na terceira geração no Brasil, o Escort ganhou linhas arredondadas, como novos faróis, lanternas traseiras que invadiam a tampa do porta-malas, para-choque dianteiro e traseiro, novos retrovisores, grade, capô, rodas e o inédito pisca lateral, localizado no para-lama. A estrutura se manteve a mesma, tanto que é possível observar que o Escort e Verona de 1992/1993 possuem as mesmas portas do modelo de 1996. O interior também remetia a detalhes “ovais”, padrão visual da Ford na época; vide o Ford Taurus, americano que chegou a ser importado entre 1994 e 1997.
Em 1996, último ano de produção do Escort MK5, a linha ganhou o capô do Escort com grade ovalada, mas continuou com todo o restante igual. O Verona seguiu o padrão. O capô tinha a grade embutida, em forma oval, e assim o carro foi disponível com dois modelos de capô e grade no mesmo ano. Em 1997, surgiu a última geração do Escort (MK7 na Europa), com motor Zetec 1.8 16V e Zetec Rocam 1.6 8V. Diferentemente do Escort, o nome Verona saiu de linha, dando lugar então ao Escort Sedan. No Brasil, o chamado “Escort Zetec” foi uma evolução do anterior, com a frente bem arredondada, novas lanternas traseiras e outro interior e painel.

O rebatizado Escort Sedan foi produzido apenas em 1997 e 1998, nas versões GL e GLX, ambas equipadas com o novo motor Zetec 1.8 16V à gasolina, de 115 cv. A linha 97/97 GLX recebeu teto-solar elétrico de fábrica. Em 1998 o Escort Sedan se despediu do mercado, deixando seus irmãos (hatch) e SW (Station Wagon) no mercado até 2003, encerrando a linha Escort aqui.

