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Afinal, o que aconteceu com o Porsche 550 de James Dean?

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Em maio de 2021, a manchete do site TMZ era bizarra o suficiente para inspirar uma dupla surpresa do tipo “tá de brincadeira?”: “Caixa de câmbio ‘amaldiçoada’ de James Dean foi vendido por US$ 387 mil”. Mas a história por trás da venda durante um leilão online da “Bring a Trailer” foi ainda mais estranha, como a lenda de que o carro do ator/piloto era amaldiçoado. Confira.

por Ricardo Caruso, com Motorsport

Quase 70 anos após sua morte em setembro de 1955, aos 24 anos, James Dean continua sendo um assunto de fascínio inesgotável. Os fãs de cinema sabem que ele já era um astro único, embora tivesse feito apenas três filmes –”Rebel Without a Cause”  (“Juventude Transviada”, no Brasil), “East of Eden”  (“Amargo Pesadelo”) e “Giant”  (“Assim Caminha a Humanidade”)– antes de morrer em um acidente de carro na California. Os fãs de carros se concentram no fato de que Dean era um piloto entusiasmado, que faleceu enquanto dirigia um Porsche 550 Spyder 1955 novinho a caminho de competir em uma corrida.

A verdade é que George Barris, ávido por dinheiro, promoveu incansavelmente a noção de que o 550 de James Dean era amaldiçoado.

Mas a principal razão pela qual o incidente criou uma legião de seguidores —e por que o câmbio com os dois semi-eixos, alavanca da embreagem hidráulica, conjuntos de freio a tambor de alumínio e motor de partida. foi vendido por uma quantia tão absurda— é que o falecido George Barris, autointitulado “Rei dos Customizadores”, promoveu incansavelmente a noção fantasiosa de que o Porsche 550 de Dean era amaldiçoado. “Havia algo estranho naquele carro em particular… uma sensação, vibrações ruins, uma aura”, escreveu Barris em suas memórias. “Tudo que aquele carro tocou se transformou em tragédia.” Uma cantilena assustadora e sem sentido.

Dean venceu sua primeira corrida, para novatos, em Palm Springs, com um Porsche 356 Super Speedster, que ele dirigiu até a pista em março de 1955, e terminou em segundo no dia seguinte na prova principal. Cinco semanas depois, ele foi o terceiro no geral e o primeiro na classe em Bakersfield. Mais tarde naquele mês, ele abandonou em Santa Barbara com o motor estourado. Ainda assim, parecia um começo de carreira promissora para um aspirante a piloto.

James Dean Palm Springs
Dean se prepara para a largada em Palm Springs, 1955.

Não é bem assim, diz Lee Raskin, o autor do livro “James Dean On the Road to Salinas”. Segundo ele, “James Dean cresceu como um garoto que não tinha medo de nada. Ele era um ótimo piloto? Não. Primeiro, ele era seriamente míope, o que pode ajudar a explicar porque tinha muitos contatos e batidas leves em todas as corridas em que esteve. Segundo, acho que ele era todo acelerado, sem freios”.

Como quase todos os pilotos do planeta, Dean estava convencido de que precisava de um carro mais rápido. Então, ele trocou o Speedster e mais US$ 3.800 em dinheiro por um 550 Spyder novinho em folha. Era o “foguete” de quatro comandos de válvulas que impulsionaria sua carreira, e contratou Dean Jeffries para decorar o carro e pintar o apelido “Little Bastard” na tampa traseira.

Os 550/550 A eram movidos por um motor boxer de quatro cilindros arrefecido  a ar, de 1.498 cm3, com 85 x 66 mm de diâmetro x curso, todo em alumínio, conhecido como “Motor Fuhrmann” (Type 547), basicamente um motor de Fusca 1500 evoluído.  Seu trem de válvulas usava eixos de comando de válvulas duplos em cada bancada de cilindros, acionados por eixos verticais, com duas válvulas por cilindro. O motor era alimentado por carburadores dois Solex 40 PII duplos e tinha ignição dupla. Em sua primeira versão, entregava 108 cv a 6200 rpm de potência máxima e tinha torque máximo de 12 mkgf a 5000 rpm.

O certificado de propriedade do 550 de James dean.

Quando terminou de filmar “Giant”, Dean se inscreveu para participar de uma corrida de rua em Salinas, evento de ligas menores, a cerca de 500 km ao norte de Los Angeles. Embora Dean tivesse “estreado” o 550 na Mulholland Boulevard, amassando a carroceria de alumínio ao raspar uma lata de lixo, o mecânico Rolf Wütherich sugeriu que, ao invés de levar o carro num reboque, eles dirigissem até Salinas para amaciar o motor Type 547. O amigo de Dean, Bill Hickman, que mais tarde alcançaria o posto de sub-celebridade como dublê em “Bullitt” e “The French Connection“, seguiu atrás deles em uma wagon rebocando uma plataforma, onde o carro deveria estar.

Na viagem para o norte, Dean recebeu uma multa por excesso de velocidade de um policial rodoviário. Mais tarde, em um café ao longo da rota, ele encontrou o companheiro de corrida do sul da Califórnia, Lance Reventlow , que mais tarde construiria os carros de corrida Scarab. Antes de sair, Dean disse ao companheiro de Reventlow, Bruce Kessler, outro piloto do sul da Califórnia, que ele havia levado o Porsche aos 193 km/h. Menos de uma hora depois, perto da cidade de Cholame, o Spyder bateu de frente em um sedã Ford dirigido calmamente por seu motorista, enquanto ele virava para a esquerda para cruzar a pista, o que é permitido por lá e que foi a causa do acidente do influencer brasileiro Jesse Koz e seu inseparável cãozinho Shurastey.

Dean certamente morreu com o impacto, por conta de fratura no pescoço. Wütherich, que foi ejetado da cabine, sofreu ferimentos graves. Fotos feitas no local mostram que o Porsche estava destruído e quase irreconhecível. No entanto, em pouco tempo, Barris já estava exibindo os restos do Spyder em exposições de carros com uma placa identificando-o como “Último carro esportivo de James Dean”. E cobrando para isso.

Raskin afirma que o carro “foi remendado com chapas de alumínio”. Barris alegou que comprou o carro da família de Dean e aí começam as histórias. Quando estava sendo descarregado em sua loja, disse que ele caiu sobre um mecânico e quebrou as duas pernas do infeliz. Barris posteriormente vendeu o motor para o Dr. Troy McHenry, que morreu ao bater em uma árvore enquanto corria com um carro supostamente equipado com o motor assassino. Barris disse ainda que outro médico usando o câmbio recuperado do Spyder ficou paralisado em um acidente de corrida. Depois que Barris reformou o carro para exibir em demonstrações de segurança, ele alegou que ele caiu de um suporte e quebrou o quadril de um adolescente azarado. Algumas semanas depois, enquanto estava sendo transportado, o carro supostamente caiu do reboque e matou o motorista do caminhão. Também houve histórias sobre um ladrão que quebrou o braço ao tentar roubar o volante e outro mecânico que quebrou outra perna quando uma porta caiu do carro… Muita história e nenhum fato comprovado, culminando com o “desaparecimento” misterioso do carro.

Barris era um showman consagrado e sem muitos escrúpulos, e um promotor descarado. Raskin está convencido de que a maioria de suas histórias eram invenções, e várias são demonstravelmente falsas. Raskin diz que a carroceria destruída do 550 foi comprada não por Barris, mas pelo médico (e piloto) William Eschrich, que recuperou o que pôde e destruiu o imprestável chassi; Raskin acredita que o filho de Eschrich ainda é dono do motor original.

Embora o porta-malas dianteiro e a tampa traseira do porta-malas parecessem originais do carro, Raskin afirma que o carro de Barris era o que restou e não foi aproveitado pelo comprador, “remendado com folhas de alumínio” e depois golpeado com tábuas para fazer parecer que havia sofrido um acidente.

O câmbio original passou por várias mãos antes de ser comprado há mais de 30 anos por Jack Styles, antigo gerente de peças da renomada loja de restauração de Paul Russell. Em 2020, Styles vendeu a unidade para o corretor/colecionador de Porsche Don Ahearn, que a ofereceu no leilão em 2021. O anúncio gerou uma avalanche de 1.345 comentários e lances que chegaram a decepcionantes US$ 387 mil. Mas a identidade do comprador acabou sendo uma surpresa ainda maior.

O vencedor foi Zak Bagans, que se descreve como “um pioneiro no campo paranormal”. Ele é dono do “Haunted Museum” em Las Vegas, onde uma de suas atrações é a chamada “van da morte”, do Dr. Jack Kervorkian, médico já falecido que admitiu ter ajudado 130 pessoas a morrer e gerou muito debate sobre a eutanásia. A van era seu local de trabalho… Com isso, o câmbio “amaldiçoado” se encaixa perfeitamente no tema macabro do museu. “Está indo para um show de horrores”, disse Raskin “e George Barris deve estar dançando de alegria em seu túmulo”.


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