FAW Dongfeng CA71 1958: o primeiro carro chinês
A indústria automotiva da China é hoje uma das maiores e mais influentes do mundo. Em poucos anos, o país passou de um importador dependente de tecnologia estrangeira para um polo inovador e autossuficiente, com marcas globalmente reconhecidas, como BYD, Geely, GWM e NIO. No entanto, essa jornada teve um ponto de partida modesto e muitas vezes esquecido: o primeiro carro chinês. Entender essa origem é essencial para compreender o incrível salto tecnológico e industrial que a China realizou nas últimas décadas.
por Ricardo Caruso

Durante a primeira metade do século XX, a China era majoritariamente agrária e enfrentava graves instabilidades políticas, conflitos internos e invasões estrangeiras. Isso limitava seriamente o seu desenvolvimento tecnológico e industrial. Após a fundação da República Popular da China em 1949, sob o comando do Partido Comunista, o país começou um processo de industrialização acelerada. Uma das metas era tornar-se autossuficiente em setores estratégicos, incluindo o automotivo.

O título de “primeiro carro chinês” é atribuído ao Dongfeng CA71, também conhecido como “Jiangnan”. Foi desenvolvido e produzido em 1958 pela First Automobile Works (FAW), empresa estatal criada em 1953 na cidade de Changchun, província de Jilin.
O Dongfeng CA71 foi inspirado em dois veículos estrangeiros. O chassi e suspensões eram semelhante aos usados nos Mercedes-Benz W120, assim como seu motor de quatro cilindros em linha de 1,9 litros. A carroceria foi baseada no francês Simca Vedette francês de 1955, o pai do nosso Simca Chambord, embora seu formato final seja mais próximo do Ford Zephyr Mk2, de tamanho semelhante e da mesma época. Isto possivelmente se deveu ao relacionamento da Ford com a Simca na época.

O primeiro protótipo do Dongfeng CA71 foi concluído em 12 de maio de 1958. Vários testes aconteceram na sequência e diversas unidades foram construídas em 1958. O carro foi feito com chapa de aço moldada à mão. Apenas dois exemplares ainda existem: um é mantido no museu da fábrica Hongqi em Changchun e uma réplica baseada no GAZ-21 soviético está localizada no Museu de Carros Clássicos de Pequim.
Ficha Técnica
Tipo: Sedã de 4 portas
| Comprimento: 4.560 mm | |
|---|---|
| Entre-eixos: 2.700 mm | |
| Largura: 1.755 mm | |
| Altura: 1.530 mm |
Motor: 4 cilindros em linha, 1900 cm3
Potência máxima: aproximadamente 70 cv
Transmissão: manual de 3 marchas, tração traseira
Velocidade máxima: cerca de 120 km/h
Embora rudimentar comparado aos padrões ocidentais da época, o CA71 foi um marco para a indústria daquele país, sendo o primeiro carro de passeio desenvolvido e montado inteiramente na China.

A produção do CA71 foi bastante limitada. Estima-se que apenas cerca de 200 unidades tenham sido fabricadas, principalmente para uso do governo chinês, líderes do Partido e em eventos oficiais. A ideia não era criar um carro de massa, mas sim exibir a capacidade industrial do país e o nascimento da engenharia automotiva chinesa. Durante aquele período, a China priorizava veículos de carga e transporte militar, o que explica a baixa produção de automóveis civis.
O lançamento do CA71 foi um evento altamente simbólico. Em plena era do “Grande Salto Adiante” (1958-1962), a China buscava mostrar ao mundo sua independência tecnológica. O primeiro carro chinês foi um ícone de progresso e modernidade, desfilando em paradas militares e sendo exibido em feiras industriais como um símbolo do “novo poder industrial” do país.
Apesar do orgulho nacional, o CA71 enfrentou vários desafios: falta de experiência técnica, pois a engenharia automotiva chinesa ainda era muito nova; baixa qualidade de materiais, já que muitos componentes eram improvisados ou de padrão inferior; problemas de confiabilidade, com o carro apresentando falhas e quebras frequentes, e a manutenção complexa.
Esses problemas fizeram com que o projeto fosse descontinuado em poucos anos, mas a semente já havia sido plantada. Após o CA71, a China continuou a desenvolver veículos com o apoio da União Soviética. A FAW começou a fabricar caminhões e, mais tarde, o famoso Hongqi CA72, um carro de luxo usado pelas autoridades, baseado em modelos soviéticos e americanos.
A verdadeira revolução automotiva chinesa, no entanto, viria décadas depois, com a abertura econômica nos anos 1980 e as parcerias com empresas estrangeiras (como Volkswagen, Mercedes, Audi e GM, entre outras), o que permitiu um salto de qualidade e volume de produção.

O CA71 pode ter sido tecnicamente simples e produzido em pequena escala, mas seu legado, valor simbólico e histórico é imensurável. Ele representou o início da indústria automotiva nacional, a afirmação da capacidade tecnológica da China e um marco de identidade industrial em meio à reconstrução do país pós-Segunda Guerra.
Hoje, a China produz mais de 25 milhões de veículos por ano e lidera a transição global para os carros elétricos. Marcas chinesas estão ganhando espaço a cada dia e influenciando tendências. Mas nenhum desses feitos teria sido possível sem os passos iniciais dados com o humilde, mas revolucionário, CA71.
O primeiro carro chinês não foi apenas uma máquina com rodas; foi um símbolo de ambição nacional, um projeto de engenharia em meio a limitações extremas, e o início de uma trajetória que levaria a China ao topo da indústria automotiva mundial. O CA71 permanece até hoje como uma rara peça de museu e, mais importante, como uma lembrança viva de que grandes jornadas começam com o primeiro passo.

