Gigantes tecnológicos: como a Xiaomi, Foxconn, Sony ou Huawei estão revolucionando o setor automotivo
Fabricantes tradicionais de automóveis estão atordoados e oscilam entre o novo paradigma e o seu modelo de negócio tradicional, implementado com sucesso há mais um século mas que agora vive numa espécie de beco sem saída.
por Marcos Cesar Silva

O setor automotivo está sofrendo atualmente a sua maior transformação desde a disseminação do uso de veículos movidos a combustão que ocorreu no século passado. A chegada da mobilidade elétrica e a crescente importância da tecnologia, da conectividade e do software nos veículos, em comparação com potência dos motores ou desempenho, trouxe uma mudança de foco.
Os fabricantes tradicionais de automóveis oscilam entre este novo presente e futuro e o seu velho modelo de negócio, tradicional, implementado com sucesso há mais um século. Era baseado na produção de modelos movidos a motores de combustão, nos quais o desempenho mecânico, o consumo de combustível e a experiência de condução eram os aspectos mais valorizados.
No entanto, hoje as coisas mudaram, e desempenho ou características do motor são cada vez menos importantes na tomada de decisão dos clientes, enquanto outros novos fatores fazem a diferença no processo de vendas, como a compatibilidade com o sistema operacional do smartphone, os sistemas avançados de assistência ao motorista ou a capacidade de atualizar o software remotamente. Esta nova realidade despertou o interesse no setor pelos gigantes tecnológicos como a Apple, Huawei, Xiaomi e Sony, que identificaram uma lacuna para entrar na competitiva indústria automotiva. E se tem algo com que eles não se preocupam, é com dinheiro para gastar.
Esta mudança de prioridades reduziu as barreiras de entrada no mercado para novos concorrentes, que anteriormente tinham muita dificuldade em entrar no mercado devido aos longos e dispendiosos processos de desenvolvimento e fabricação de veículos.
O exemplo mais notável de uma empresa tecnológica que entrou no setor automotivo até agora é o da chinesa Xiaomi, especializada no desenvolvimento e fabricação de todos os tipos de dispositivos eletrônicos, incluindo celulares, smartwatches, patinetes e air fryers, entre outros. E tudo de alta qualidade. A empresa chinesa lançou-se no fabricação de veículos elétricos e está obtendo um sucesso notável com os seus primeiros modelos.
A gigante chinesa Xiaomi, que em 2024 atingiu um recorde de vendas de quase US$ 59 bilhões, lançou no ano passado o seu primeiro veículo elétrico na China: o SU7. Para entrar no setor automotivo, a empresa tecnológica está e, colaboração com vários parceiros, como a Infineon, para microchips; a BYD, para fornecimento de baterias, e a BAIC, cuja licença foi utilizada inicialmente para fabricar seus veículos na China até finalmente obter a sua própria autorização.
A Xiaomi está preparando uma ambiciosa investida em veículos elétricos, tanto na China como em outros mercados, com o objetivo de competir com a Tesla, uma referência do setor em tecnologia e eletrificação. Os seus veículos chegarão à Europa em 2027. O modelo pioneiro, o SU7, tem autonomia de até 800 km e tem tido forte procura desde o seu lançamento.
Recentemente, a empresa reforçou a sua oferta com a chegada do SUV YU7, que conta com mais de 800 km de autonomia e é comercializado na China por cerca de US$ 35 mil. Este muito aguardado segundo modelo da Xiaomi registou 240.000 encomendas nas primeiras 18 horas após o seu lançamento.
Sony, Huawei, Amazon…
Outro exemplo do interesse atual das empresas tecnológicas no setor automotivo é a tentativa da japonesa Sony. Longe de se aventurar sozinha, optou por formar uma aliança com a também japonesa Honda, que partilhará a sua experiência na fabricação de veículos, enquanto a Sony vai ocupar-se dos aspectos tecnológicos dos carros.

Esta cooperação não se limitou a palavras, e a aliança entre as duas empresas japonesas já revelou e iniciou a produção do seu primeiro automóvel. As duas criaram uma joint-venture 50/50 com a Sony Honda Mobility, que será responsável pelo desenvolvimento e produção de um modelo elétrico sob a marca Afeela. O primeiro automóvel resultante desta colaboração é o Afeela 1 (acima), que já está disponível para encomenda, estando as entregas iniciais previstas para o próximo ano.
A Huawei é outro dos grandes grupos tecnológicos que tem explorado o setor automotivo, embora não numa perspectiva de fabricação, mas sim como fornecedor, com acordos com fabricantes como a Seres, a Aito e a Toyota, entre outros, para compartilhar a sua tecnologia em sistemas de assistência ao motorista ou em sistemas operacionais de automóveis.
Situação semelhante está sendo vivida pela Foxconn, a maior fabricante de iPhones da Apple, que assinou vários acordos com fabricantes automóveis como a Fisker e a Mitsubishi para contribuir com a sua tecnologia para veículos. A empresa anunciou interesse no setor de automóveis em 2020 e até cogitou a possibilidade de adquirir uma participação na Nissan como parte da sua estratégia de crescimento.
Já a Amazon adotou uma abordagem diferente: a empresa de comércio eletrônico assinou um contrato exclusivo com a Rivian para o fornecimento de 100.000 furgões. A empresa fundada por Jeff Bezos adquiriu ações da Rivian, passando a deter uma participação de 20%.
A Google , por sua vez, chegou a criar o Google Auto, que nasceu com o objetivo de desenvolver e fabricar carros autônomos. No entanto, a empresa abandonou posteriormente a sua função de fabricante e criou uma unidade independente, denominada Waymo, que se concentrou no negócio do taxi autônomo , que já opera em algumas cidades dos Estados Unidos.
Tentativas frustradas
Huawei, Xiaomi, Foxconn e Amazon não são os únicos gigantes tecnológicos que tentaram entrar no mundo automotivo. A Apple, após 10 anos e quase US$ 10 bilhões de dólares investidos, decidiu cancelar o seu projeto de lançamento de um modelo elétrico. No início de 2024, a empresa sediada em Cupertino, Estados Unidos, encerrou o Projeto Titan, no qual concentrou investimentos significativos e mais de 2.000 pessoas envolvidas para realizar o desenvolvimento e produção de um novo automóvel elétrico com tecnologia de condução autônoma sob a marca Apple. Seria o iCar?
Outra iniciativa que nunca viu a luz do dia foi o carro elétrico da Dyson, empresa britânica líder em sistemas de aspiradores de pó e secadores de cabelo. O sonho do fundador da empresa, James Dyson, de lançar um carro elétrico, foi interrompido em 2019, quando fechou a divisão Dyson Automotive depois de gastar US$ 500 milhões do seu próprio capital e investir um total de US$ 3 bilhões no projeto.

A Dyson conseguiu desenvolver e fabricar um automóvel elétrico (imagem acima) com autonomia de 950 km e sete lugares, mas não conseguiu torná-lo num empreendimento rentável. James Dyson procurou, sem sucesso, parceiros que o apoiassem neste sonho e decidiu finalmente desistir.

