Classic Cars

Lotus 49: de Hethel a Curitiba!

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Na história da Fórmula 1, poucos carros podem reivindicar o status de “revolucionário” com tanta propriedade quanto o Lotus 49. Lançado em 1967, ele não foi apenas mais um carro de corrida, mas uma máquina que reescreveu as regras do desenho, da engenharia e até mesmo do marketing no automobilismo. Sua influência ecoa até hoje, com os carros modernos ainda utilizando conceitos que foram introduzidos pelo genial e legendário Colin Chapman, o visionário por trás da equipe Lotus, sediada na pequena Hethel, cerca de 170 km de Londres.

por Rubens Caruso Junior


IDEIA REVOLUCIONÁRIA

Antes do Lotus 49, os carros de Fórmula 1 seguiam uma receita relativamente simples: um chassi tubular robusto no qual o motor era montado. Eram os “charutinhos”. No entanto, Colin Chapman, engenheiro brilhante e incansável em sua busca por velocidade e leveza (“To add speed, add lightness” — “Para ganhar velocidade, coloque leveza”, confira aqui), via essa abordagem como ineficiente. Ele acreditava que o motor poderia ser mais do que apenas um componente de propulsão, fazendo parte da própria estrutura do carro, eliminando peso e aumentando a rigidez.

A oportunidade perfeita surgiu com o desenvolvimento do motor Cosworth DFV (Double Four Valve). Financiado pela Ford, este motor 3.0V8 foi projetado especificamente para a Fórmula 1.

Chapman, com seu olhar aguçado para a inovação, percebeu que o bloco do DFV era forte o suficiente para suportar as tensões da suspensão e da caixa de câmbio. A ideia era radical: o motor seria o “estresse”, a espinha dorsal da parte traseira do carro, com a suspensão fixada diretamente no motor.

Colin Chapman “testando” o Lotus 49, bastante descontraído

Essa abordagem resultou em um carro significativamente mais leve e rígido do que seus concorrentes. A suspensão, por sua vez, podia trabalhar de forma mais eficiente, traduzindo-se em melhor aderência e manobrabilidade nas curvas. A parceria entre a Lotus e a Cosworth se tornaria uma das mais lendárias da história do automobilismo, com o motor DFV sendo o propulsor dominante na F1 por mais de uma década.

ESTREIA MAGISTRAL

Jim Clark e o novo motor Cosworth: receita de sucesso

A estreia do Lotus 49 no GP da Holanda de 1967 foi marcante. A equipe chegou a Zandvoort com o carro praticamente sem testes. Havia uma expectativa considerável, mas a incerteza pairava no ar. A genialidade do projeto, no entanto, foi confirmada em poucas voltas: Jim Clark, um dos maiores talentos da história da Fórmula 1, sentiu imediatamente a diferença.

Clark conquistou a pole position e, apesar de um pequeno contratempo no início da corrida, dominou os demais pilotos e garantiu a vitória. Foi um triunfo impressionante em sua primeira corrida, provando que o conceito de Chapman e a parceria com a Cosworth (fundada em 1958 por Mike Costin, o “COS” e Keith Duckworth, o “WORTH”) funcionava perfeitamente. O carro, com sua carroceria elegante e seu ronco característico, tornou-se a nova referência em performance.

Vitória do 49 logo na primeira corrida: Chapman, Duckworth e Clark no pódio.

O ano de 1967 foi de aprendizado e desenvolvimento para o 49, mas em 1968, o carro estava no auge de sua forma. Jim Clark, a bordo do modelo, venceu o GP da África do Sul, a primeira corrida da temporada, mas a alegria foi breve: pouco tempo depois, Clark faleceu em uma corrida de Fórmula 2 em Hockenhein, um trágico evento que abalou o mundo do automobilismo.

Apesar da perda, a equipe Lotus, agora liderada por Graham Hill, honrou a memória de seu companheiro. Naquele ano, com o Lotus 49, Hill pilotou de forma magistral, conquistando vitórias e o campeonato mundial de 1968, um tributo perfeito ao legado de Clark e à genialidade do carro.

Além dos lendários Clark e Hill, outros grande nomes pilotaram o Lotus 49: foi nesse modelo que Emerson Fittipaldi mostrou quem era ao mundo da Fórmula 1. Outros campões mundiais como Jochen Rindt ou Mario Andretti também conduziram o modelo, além de lendas da F1 como Jo Siffert, Richard Attwood, Brian Redman e Jackie Oliver. E não podemos esquecer de Wilson Fittipaldi Jr., que pilotou o carro numa prova extracampeonato na Argentina, em 1971.

NOVA ERA NOS PATROCÍNIOS

Além de sua inovação técnica, o Lotus 49 também foi um marco em outro aspecto crucial para a Fórmula 1: o marketing. A temporada de 1968 trouxe uma mudança radical no visual da equipe, que pela primeira vez abandonou as cores nacionais britânicas (o “British Racing Green”, verde escuro tradicional) e adotou as cores da Imperial Tobacco, a fabricante dos cigarros Gold Leaf.

Emerson Fittipaldi estreou na F1 pilotando um Lotus 49

Os chamativos vermelho, branco e dourado do Lotus 49 Gold Leaf tornaram-se dos mais reconhecíveis e fotografados na história das corridas. O patrocínio da Gold Leaf não era apenas uma questão de estética, mas uma injeção de capital vital que permitiu à equipe competir em nível mais alto, inovando a maneira como as equipes se financiavam. O Lotus 49 foi um dos primeiros carros a mostrar que a Fórmula 1 era um negócio global, com o potencial de atrair grandes marcas, mudando o cenário comercial do esporte para sempre.

O Lotus 49 competiu até 1970, evoluindo ao longo dos anos com melhorias aerodinâmicas e a adição de asas, que ajudavam a aumentar a pressão aerodinâmica e o desempenho nas curvas. Embora tenha sido sucedido pelo igualmente icônico Lotus 72, sua influência perdurou. A ideia de usar o motor como um componente estrutural tornou-se a norma em praticamente todos os carros de Fórmula 1. A rigidez do chassi, a redução de peso e a integração total dos componentes são conceitos que foram aperfeiçoados, mas a semente foi plantada pelo Lotus 49.

Em retrospectiva, o Lotus 49 é mais do que uma peça de museu: é um lembrete vivo da capacidade humana de inovar e desafiar conceitos. Representou o auge do pensamento de Colin Chapman e a qualidade da parceria com a Ford e a Cosworth. Para os fãs de automobilismo como nós, o 49 continua a ser o símbolo de uma era de ouro, uma época de heróis e máquinas lendárias que, por meio de pura engenharia e coragem, transformaram um esporte para sempre.

Wilsinho Fittipaldi numa prova de 1971, na Argentina

O RENASCIMENTO DE UM CLÁSSICO DAS PISTAS

Impossível dizer que a vida de jornalista especializado em automóveis é morna, sem surpresas. Estávamos em Curitiba por conta da celebração dos 70 anos de uma amiga querida e, como a agenda permitia, combinamos, Angela Caruso e eu, uma visita ao Museu do Automóvel da cidade (reportagem especial em breve aqui em A&T), onde eu tentaria, mais uma vez, ver a McLaren M23 de Emerson Fittipaldi ali exposta, a qual só conhecia de fotos. Decepção: um gentil senhor que trabalha no museu informou que o carro estava fora, sendo restaurado. Ao perceber meu sentimento, ele me disse que “o carro está ali na Universidade Tuiuti, bem pertinho, tenta lá”.

Assim fizemos: chegamos na universidade, perguntamos ao pessoal da portaria se sabiam onde estaria um “carro antigo de Fórmula 1 sendo restaurado”, e veio a informação quase apontando para uma nova decepção: “acho que já foi embora, mas tenta ali com o professor Lolo, na Mecânica”, indicando um grande galpão. E lá fomos.

Logo na entrada deparei com um grupo de três pessoas, claro que falando de carros, e questionei se um deles seria o professor Lolo. “Você veio cobrar ou veio pagar?” perguntou um deles, entregando o sotaque espanhol. “Nem um nem outro, estou apenas procurando um McLaren M23, sou jornalista e há anos tento ver esse carro, sem sucesso”.

Apresentações feitas, nesse clima de humor e camaradagem, fui levado pelo professor, uruguaio de nascimento e paranaense de coração, a uma sala ao lado, onde estava o McLaren sendo trabalhado. E aí descobri que o carro não é exatamente um McLaren, mas um “boneco” bem feito, todavia sem mecânica. “Não desanime, vou te mostrar algo que você vai gostar”, disse o professor. Dito e feito!

Professor Lolo comanda o projeto que está recriando o Lotus 49

No laboratório de engenharia mecânica da Universidade Tuiuti, na capital paranaense, a história da Fórmula 1 está sendo meticulosamente recontada. Não através de livros ou documentários, mas com a recriação, parafuso por parafuso, de uma das máquinas mais lendárias do automobilismo: o Lotus 49. Este projeto, liderado pelo professor Rodolfo “Lolo” Perdomo e uma equipe de estudantes, está criando mais que uma homenagem, numa aula prática de engenharia, história e paixão.

DESAFIO DE ENGENHARIA E HISTÓRIA

A recriação de um carro com quase 60 anos de idade é um desafio monumental. A equipe não está simplesmente construindo uma réplica rica em detalhes. O objetivo é reproduzir a engenharia revolucionária de Colin Chapman, com a maior fidelidade possível ao projeto original, na qual os sortudos alunos — e alunas! — podem estudar e entender os conceitos que tornaram o Lotus 49 tão inovador.

Um foco do projeto, como no original, é o motor. O Cosworth DFV, um 3.0V8, foi um divisor de águas na época também por ser usado como parte estrutural do chassi. Professor Lolo ainda não conseguiu obter um motor desses, seja pela escassez, seja pelo elevado custo (não existe registro de quantos desses motores foram fabricados). Mas isso não desanima o time que, no momento, utiliza um BMW V8 de alumínio, opção bastante viável.

A equipe está trabalhando em cada detalhe, apesar da dificuldade de obtenção de dados ou desenhos, desde o mapeamento das suspensões até a construção da carroceria de alumínio. A busca por peças originais é muito complexa — ainda mais aqui, do outro lado do mundo — e a solução adotada tem sido recriar componentes, como a caixa de câmbio Hewland ou os braços de suspensão, adotando os recursos tecnológicos atuais como impressão prévia em 3D de muitos itens.

Enquanto um Cosworth não vem: motor BMW V8 e recriação da caixa Hewland.

O projeto transcende o aspecto mecânico, tornando-se uma ferramenta pedagógica única, conectando a teoria ensinada na sala de aula com a prática, uma evolução fantástica do que eu e o Ricardo Caruso conhecemos nos tempos de colégio, com aulas práticas em então “modernos” motores Chevrolet 4100 nos anos 1970…

 Os estudantes estão aprendendo sobre aerodinâmica, rigidez estrutural, materiais compostos e a filosofia de Colin Chapman. A cada peça recriada, os alunos compreendem a genialidade por trás do projeto que revolucionou a Fórmula 1 e serviu de base para os carros de corrida nas décadas seguintes.

Professor Lolo planeja que, após a conclusão, o carro seja exibido em eventos e museus, e até mesmo faça algumas voltas em pistas de corrida: um dos planos é que o próprio Emerson Fittipaldi, que estreou na Fórmula 1 com um Lotus 49, dê algumas voltas no carro, o que seria motivo de orgulho para o professor e seu time. Já estamos trabalhando nisso…
O Lotus 49 “Made in Brazil” não será apenas um carro para ser visto, mas uma máquina para ser compreendida.

Presença feminina: alunas da Universidade trabalham no projeto. Construir o carro combina tecnologias do passado e do presente.

A iniciativa do professor Lolo é uma prova de que a paixão pela engenharia pode transcender gerações, e que a história de um dos maiores carros de corrida já construídos ainda tem muito a ensinar.

O mundo pediu, e nós atendemos! AUTO&TÉCNICA tem um novo canal no YouTube: https://www.youtube.com/@AUTOETECNICA1
Confira um vídeo especial que fizemos no “berçário” brasileiro do Lotus 49, clicando
aqui.
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