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Luigi Colani, o maluco beleza do desenho

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Luigi Colani, desenhista industrial e filósofo do design, nasceu em 1928 em Berlim e faleceu em Karlsruhe, Alemanha. Na verdade se chamava Lutz Colani, filho de um cenógrafo suíço-italiano de ascendência curda e mãe de ascendência polonesa. Ficou conhecido principalmente pelas formas aerodinâmicas e biomorfas de automóveis, aviões, caminhões e até eletrodomésticos. Ele via o mundo de forma arredondada.

por Ricardo Caruso

Teve uma carreira se estendeu por mais de seis décadas e incluiu trabalhos para Fiat, Ford, BMW, Alfa Romeo, Lada, Abarth, Lamborghini, Mercedes-Benz, Canon, Yamaha e muitas outras. Seu estilo era controverso, e a maneira de trabalhar e sua personalidade o tornavam um desafio para qualquer trabalho em colaboração. Suas obras em si demonstravam uma paixão única pelo desenho a serviço da vida, talvez uma vida excêntrica, mas ainda assim vida.

Na Alemanha em 1928, Luigi Colani era Lutz Colani. O “Luigi” surgiu no final da década de 1950, quando ele trabalhava com alguns fabricantes italianos. Seu interesse por desenho começou aos três anos de idade, quando avistou o Mercedes-Benz roadster de um vizinho rico, estacionado perto de casa. Ficou fascinado pelas linhas e pela massa curvilínea da carroceria do carro. Mais tarde, ele recordaria: “Lembro-me de ficar parado atrás deste carro por mais de uma hora, admirando o porta-malas e o quão bem-feito ele era”.

Um carro esportivo como este Mercedes SS inspirou o jovem Colani
Este foi o Mercedes que SS inspirou o jovem Colani.

Ainda assim, o desenho automotivo não foi sua primeira paixão. A família morava a apenas 200 metros de uma ferrovia, e o jovem Colani adorava observar os trens de alta velocidade partindo de Berlim para Dresden. Além disso, sua família residia perto do antigo aeroporto de Templehof, e o jovem Colani via de perto os aviões mais avançados da Alemanha, tanto de produção quanto protótipos, voando sobre sua cabeça, uma fonte de fascínio constante.

Trem Henschel-Wegman
O trem Henschel-Wegmann que fazia o trajeto expresso de Berlim a Dresden na década de 1930 era um dos favoritos de Colani.

A família de Colani conseguiu sobreviver à guerra em Berlim, testemunhando alguns dos piores ataques, mas também sendo poupada do pior dos bombardeios britânicos e americanos, pois conseguiu encontrar moradia fora da cidade. Após a guerra, Colani matriculou-se na Academia de Artes de Berlim, onde estudou escultura e belas artes, antes de partir para Paris para estudar na École Polytechnique, onde se interessou particularmente por aerodinâmica. De lá, estudou na Sorbonne e, em seguida, teve uma série de empregos: na McDonnell Douglas, da Califórnia; na Fiat, Volkswagen, Alfa Romeo e em outras empresas.

Bebedouro criado por Colani.

Em 1953, ele estava morando na Califórnia, onde era chefe do grupo de projetos de Novos Materiais na McDonnell Douglas. Passando para o desenho automotivo, em 1954 recebeu o prêmio internacional “Rosa de Ouro de Criação e Desenho”, em Genebra, Suíça, por uma carroceria especial para a Fiat; ele seria o criador de muitos projetos para a marca italiana nos anos seguintes. Inovador constante, em 1958 também se interesou por veleiros; seu projeto de catamarã foi um sucesso nas regatas do Havaí.

Voltando aos carros, em 1963 ele apresentou o primeiro carro esportivo monobloco de plástico do mundo, baseado no BMW 700, e em 1960 o primeiro kit car de série do mundo, o Colani GT (imagem abaixo), que vendeu 1.700 unidades. Em 1966, ele apresentou seu projeto de cupê esportivo no Salão de Frankfurt.

Na década de 1960, sua gama de desenhos também se expandiu para incluir objetos domésticos e móveis, começando em 1963 com seu “cofrinho de elefante”, e em 1965 ele obteve sucesso mundial com desenhos de móveis para as empresas Asko, Fritz-Hansen (cadeiras Körperform) e Cor e Kusch+Co. Ele também reformulou um desenho do Abarth Alfa Romeo, baseado em dois Abarth 1000 GT Coupé destruídos no início da década de 1960.

Em 1968, para a Thai Airlines, desenvolveu um conjunto de talheres de plástico de duas peças. que o “Museu do Design” de Zurique adicionou à sua coleção. Em 1970, ele já havia criado seu próprio estúdio com uma grande equipe de desenhistas, instalados no Castelo de Harkotten, perto de Sassenberg, na Alemanha. O estúdio foi um enorme sucesso, com trabalhos e exposições em todo o mundo para muitas grandes empresas. Enquanto isso, ele continuou com suas inovações em desenhos de automóveis, incluindo o projeto do carro de Fórmula 1, o Eifelland  em 1972 (abaixo).

Foi nesse período que ele fez suas primeiras incursões no mercado japonês, obtendo contratos com empresas asiáticas. Em 1973, realizou sua primeira viagem de estudos àquela região, durante a qual compradores japoneses reconheceram o potencial da Colani. Recebeu convites de cinco empresas para estabelecer um “Centro de Design Colani” no Japão.

Nessa época, um bule batizado de “Drop” que ele projetou para a Rosenthal, líder mundial em porcelana, foi adquirido para inclusão no “Museu Cooper-Hewitt” em Nova York. Em 1999, a Rosenthal promoveu uma edição especial de seu famoso produto. Em 1974, Colani projetou o serviço de chá “Zen” para a Melitta.

Mas nem todos os seus projetos foram sucessos. Por exemplo, ele criou um projeto mal-sucedido para um barco a remo olímpico. Por volta dessa época, início da década de 1970, desenvolveu seu primeiro projeto de caminhão aerodinâmico, que, segundo ele, “foi uma resposta direta à crise mundial do petróleo, mas ninguém notou meu projeto. Eles não entenderam a mensagem”. Ele revisitaria os caminhões aerodinâmicos mais tarde na mesma década, com mais alarde.

A primeira profissão de Colani como projetista aeronáutico foi revivida em 1976, quando lhe foi atribuída a tarefa de projetar o RFB Fanliner, o primeiro avião esportivo de plástico do mundo com motor rotativo Wankel. Mais tarde, em 1985, ele mostrou o avião Pontresina  movido a hélice, com duas hélices coaxiais contra-rotativas com pás em forma de cimitarra montadas na cauda. As hélices, também conhecidas como “hélices supersônicas centrípetas”, eram uma nova ideia, mas o avião era um estudo e não estava em condições de voar.

Em 1978, seus estudos revolucionários sobre veículos (caminhões, aeronaves, carros e navios) começaram a ser vistos com frequência em exposições pelo mundo todo. Seu interesse por economia de combustível continuou na década de 1980. Em 1981, ele estabeleceu um recorde mundial de economia de combustível com o Colani 2CV de quatro lugares (baseado no Citroën 2CV francês), que consumia apenas 1,7 litro de gasolina para percorrer 100 km, usando um motor e chassi 2CV originais.

Em 1982, Colani se mudou para o Japão, onde um ano depois aceitou o cargo de professor em Tóquio. Para a Canon, ele desenvolveu os protótipos de câmera “5 Systems” e, em 1984, foi eleito o desenhista industrial nº 1 no Japão na exposição de Otaru. Em 1986, ele recebeu o “Golden Camera Award” pela criação da câmera Canon T90. Em 1985, seu “Robot Theater” foi o estande mais frequentado na “Expo ’85” e, no ano seguinte, uma de suas motocicletas bateu um recorde mundial na Itália. Naquele ano, fundou a Colani Design Bern, na Suíça.

Ele continuou a expor seus projetos em eventos internacionais, incluindo uma exposição em 1987 no Centro Georges Pompidou, em Paris. Os projetos de carros continuaram no Japão para a Mazda e ele criou um projeto de caneta para a Pelikan, na Alemanha. O projeto da aeronave Colani Cormoran foi exibido em maquete no Salão Aeronáutico de Paris.

Em 1988, abriu escritórios em Toulouse e Bremen. Foi também nomeado professor da Universidade das Artes de Bremen, enquanto se preparava em larga escala para estabelecer novos recordes de velocidade em terra, água e ar, além de recordes mundiais de economia de combustível em Utah. Estabeleceu marcas importantes com uma Ferrari especialmente projetada para isso no deserto de Bonneville em 1991.

Em 1989, ele fundou a Colani Trading, em Zurique, Suíça, mesmo ano em que organizou o “AUTOMORROW ’89”, onde 12 veículos futuristas percorreram os Estados Unidos de costa a costa em dois caminhões. Palestras e demonstrações incluíram a Ford em Detroit, test drives nas salinas de Bonneville e no “Art Center of Design” em Pasadena, California.

Computador pessoal para a Vobis.

A década de 1990 trouxe mais exposições e mais criações. Ele montou uma exposição no museu “Centre International de l’Automobile”, em Paris e, em 1993, realizou exposições em diversos shopping centers pela Suíça. Projetou ainda novos uniformes para a tripulação da Swissair, os últimos desenhos usados ​​pela companhia aérea antes de mudar a marca para Swiss em 2002. Em 1991, ele projetou uma armação de óculos e uma coleção de jóias. Também na década de 1990, outros projetos incluíram binóculos (1993); móveis de escritório para a Grahl, de Michigan (1996); garrafa de água para a empresa alemã Carolinen-Brunnen e um novo microscópio e câmera fotográfica (ambos de 1998); mais uma nova geração de chuveiros (combinação de peças para banheiro) para a empresa alemã Dusar e um projeto de móveis para a Kusch & Co., da Alemanha (1999).

Piano Schimmel Pegasus.

Em 1997, projetou o piano de cauda “Pegasus” em cooperação com o fabricante alemão de pianos Schimmel, revolucionando a forma e o visual tradicionais desse instrumento. A Schimmel constrói no máximo dois desses pianos por ano, e somente sob encomenda. Proprietários famosos de um piano de cauda Pegasus incluem nomes como Prince, Lenny Kravitz e Eddie Murphy.

As décadas de 1990 e 2000 também trouxeram sua cota de novidades na área de computação. Os seus projetos incluíam um desenho de mouse de computador para a Sicos (1992); o computador Colani Vobis Highscreen, premiado como “Computador do Ano” em 1994, e um projeto de terminal bancário com um dos principais fabricantes de computadores do mundo (1998). Em 1995, ele começou a ramificar seu trabalho em estruturas inteiras. Naquele ano, concluiu projetos para grandes empresas na indústria de construção e construção. O embaixador da China convidou Colani para projetos futuros em Xangai, e lá ele foi premiado com uma cátedra honorária no Departamento de Arquitetura, da Faculdade de Arquitetura e Planejamento Urbano da Universidade Tongji. No ano seguinte, revelou seu projeto de arquitetura para Xangai, chamado Bio-City.

Seus projetos arquitetônicos continuaram, com o modelo de arquitetura “Cidade Humana” para a MW Energie, de Mannheim, Alemanha (2000) e posteriormente com um projeto de casa pré-fabricada experimental para a Hanse-Haus alemã. Ele projetou mais armações de óculos, apresentadas em feiras em Milão, Paris e Las Vegas e, em 2001, criou novos microscópios e câmeras fotográficas (para a Seagull) no seu escritório em Xangai e realizou mais de 30 exposições em shopping centers por toda a Alemanha. Também inaugurou um museu de design de renome mundial, a “Pinakothek der Moderne”, em Munique, que expôs diversos projetos da Colani em 2002.

No campo do desenho de embalagens, ele criou um novo visual de garrafa para a Valser, empresa suíça em água mineral (adquirida pela Coca-Cola em 2002) e criou artigos para presente em porcelana (canecas para cappuccino e espresso).

Ele trabalhou em um projeto chamado “Vida a Bordo” para carros Volvo e criou um desenho futurista chamado “Speedster Shark”. Ele continuou seus projetos de caminhões de grande porte com extrema racionalização, desta vez para a Spitzer-Silo; o resultado foi apresentado em Hanover em 2004. Uma outra encomenda de uniformes aconteceu em 2003, desenhando os uniformes para o departamento de polícia de Hamburgo , mais tarde adotado em toda a Alemanha.

Nos anos de 2004 a 2007, uma exposição retrospectiva da obra de Colani, chamada “COLANI – Das Lebenswerk”, ocorreu no “Nancy Hall” do centro de congressos de Karlsruh. A exposição não foi continuada porque o financiamento para a renovação do evento não foi alcançado.  Em 2007, o “Design Museum” de Londres expôs seu trabalho na exposição “Translating Natur”.

Na área da aviação, ele projetou o avião tt-62 para a HP Aircraft. Ele também concluiu um estudo de projeto para uma aeronave de passageiros com capacidade para 1.000 passageiros (2005).

Série de computadores de luxo AGOS, Opus Magnum, de 2014.

Ele completou uma série de 140 esculturas de atletas para os Jogos Olímpicos de Pequim. Também participou do evento “Alemanha no Japão 2005/6”, na exposição “Colani de Volta ao Japão”, no Museu de Arte e Design do Instituto de Tecnologia de Kyoto. Também realizou o estudo para um robô em forma de bebê.

Em 2013, o primeiro modelo (AC22) da série de computadores de luxo AGOS, o Opus Magnum, foi apresentado na “Nowa Zukunftsmesse” em Marburg, Alemanha. 

Um projeto de 1958 para Alfa Romeo e Abarth, feito a partir de dois cupês Abarth 100 experimentais que foram destruídos em testes
Um projeto de 1958 para Alfa Romeo e Abarth, feito a partir de dois cupês Abarth 100 experimentais que foram destruídos em testes.

Um motorhome projetado por Colani
Um motorhome projetado por Colani.

Canon T90 – ergonômica e praticamente indestrutível. Um clássico trinta anos após seu lançamento, ainda é considerada uma das melhores câmeras de todos os tempos.
Canon T90, ergonômica e praticamente indestrutível. Um clássico mais de 30 anos após seu lançamento, ainda é considerada uma das melhores câmeras de todos os tempos.

Colani trabalhou em projetos grandes e pequenos. Seu trabalho o levou ao redor do mundo, embora a maioria se concentrasse na Europa e na China. Os Estados Unidos foi um lugar onde ele teve dificuldade de entrar com seu trabalho. Colani tentou diversas vezes trabalhar para a General Motors e outros fabricantes americanos, mas a filosofia de criação e sua personalidade complicada eram considerados fora da curva demais para os conservadores executivos de Detroit.

Em 2007, em uma entrevista ele disse: “Não é fácil para mim ter contato com a indústria, porque ela está muito ultrapassada. Veja a General Motors, a Mercedes, a Chrysler, a Porsche, a BMW… Todos eles estão construindo carros de ontem! Ninguém tem ideia de como o carro do amanhã deveria ser. Eu já os projetei”.

Proposta Mercedes C-112 de Colani
Proposta Mercedes C-112 de Colani.

Colani nunca se considerou um desenhista ou designer (são coisas diferentes) no sentido tradicional do termo. Ele não se interessava por procedimentos ou processos padrão; sua forma de trabalhar era mais intuitiva. Ele se autodenominava um “filósofo 3D” e abordava cada desafio de desenho como um problema filosófico e de design, buscando responder a algumas questões mais amplas em cada projeto.

Ele disse: “Eu me considero um filósofo 3D. Não sou designer. Estudei aerodinâmica, estudei filosofia, estudei escultura… Alta tecnologia de um lado e arte do outro”.

Ele chamou sua abordagem e estilo de design e desenho de “biodinâmicos”, refletindo seu amor apaixonado pela natureza e pelos processos naturais. Sua experiência de mergulhos nos oceanos o impactou profundamente, pois viu criaturas naturais se movendo perfeitamente pelo ambiente, com corpos corretamente moldados para o mar.

Ele acreditava que o estudo da vida, seus processos e formas resultantes poderiam fazer seu desenho perfeito funcionar. E sim, esses processos naturais também incluíam a reprodução humana, e seu trabalho reflete um fascínio pelo erótico. “O erotismo é a força motriz por trás de tudo no mundo”, declarou. “É absolutamente o tema central. A vida é erótica, e ponto final”.

A forma aplicada em seu trabalho era altamente orgânica e biomórfica, refletindo seu fascínio por formas e criaturas naturais, como pássaros e peixes, cuja forma se relaciona intimamente com seus movimentos. Ele não hesitou em se inspirar também no corpo humano, especialmente no corpo feminino. “O corpo feminino é um dos desenhos mais extraordinários já feitos neste universo”, disse.

Colani não se esquivou de sua principal fonte de inspiração. Não é de se admirar que este projeto não tenha sido construído
Colani não se esquivou de sua principal fonte de inspiração, as mulheres.

Ao contrário do estilo considerado “na moda” atual (abusando do preto ou cinza), Colani se vestia de branco na maior parte do tempo, com pulovers e calças largas, todos de sua própria criação (até mesmo a sua roupa íntima, segundo ele). Quando perguntado sobre o branco, ele respondeu: “Trabalho com gesso e isopor, tudo branco e empoeirado. Estou sujo o dia todo e quero poder sair do estúdio sem me trocar, então simplesmente me apalpo, uma nuvem de pó se dissipa e eu fico limpo”.

Colani trabalhando em seu branco característico – combina com o pó de gesso
Colani trabalhando com suas roupas brancas características; “combina com o pó de gesso”, afirmou.

Quanto àquela nuvem de pó que ele falou, não era apenas pó de gesso. Colani era famoso por fumar charutos. “Eu fumo muito”, disse ele certa vez. “De 20 a 30 charutos por dia nos últimos 40 anos. Copiei Winston Churchill. As nuvens de fumaça ao meu redor me inspiram”.

Visão típica de Luigi Colani: envolto em fumaça de charuto
Imagem típica de Luigi Colani: envolto em fumaça de charuto.

Quando a fumaça ocasionalmente se dissipava, os visitantes eram presenteados com sua longa e desgrenhada cabeleira de “cientista louco” e seu “bigode de morsa”. “Não me importo nem um pouco com o meu cabelo. Todas as manhãs, eu apenas passo os dedos por ele. Nunca tive um pente na minha vida”. Quanto ao bigode, ele até ganhou um prêmio de “Bigode do Ano” de uma sociedade internacional de cultivadores de bigodes.

O bigode premiado de morsa diminuiu um pouco à medida que ele envelhecia, mas permaneceu uma constante, assim como a juba rebelde acima

Quando saía, frequentemente usava seus ternos brancos feitos sob medida, às vezes com uma capa branca. Um lenço de seda chinês, um dos dezenas que possuía, talvez fosse a única cor diferente em sua roupa. Ele dava os lenços como presentes assinados, geralmente para moças que lhe davam um beijo em troca. Muitas dessas moças formavam sua comitiva, pelo menos para sessões de fotos.

Questionado por um repórter sobre a morte por ocasião de seu 90º aniversário, Colani refletiu: “Venho de uma família de pessoas que vivem até os 100 anos. Por que eu deveria pensar em morrer quando ainda há tantas perguntas na vida que permanecem sem resposta”?

Bule de chá
Bule de chá Drop – um clássico do desenho.

Agora, resta apenas perseguir algumas dessas perguntas sem resposta e refletir sobre a influência e o legado de Colani. Irascível, extravagante, desdenhoso da profissão de desenhista e da maioria dos designers e arquitetos, ele não tinha absolutamente nenhum respeito pela forma como a maioria das coisas é projetada e pela proliferação de produtos de baixa qualidade de todos os tipos no mercado.

Luigi Colani foi um gênio excêntrico que rejeitou qualquer tipo de forma, função e modelo de negócios corporativos tradicionais em busca de verdades maiores no desenho. Ele certamente teve momentos de grandeza que se traduziram em produtos comercializáveis ​​e desenhos influentes. Também não há como negar que seu trabalho, por mais escandaloso que fosse, foi uma crítica ao pensamento moderno do desenho industrial em todas as escalas, de motocicletas a mega-aviões.

Uma proposta de carro compacto aerodinâmico, batizado de “Yellow Egg”.

Por outro lado, ele teve e sempre terá seus críticos, e muitos. Os mais estridentes acreditam que ele era um charlatão, uma espécie de Barão von Münchhausen do desenho, com seu estúdio repleto de atos ultrajantes de maldade impingidos a clientes desavisados. Outros criticaram sua compreensão da dinâmica de fluidos e da engenharia em geral, rotulando-o de fornecedor de teorias pseudo-científicas, concebidas e embaladas em um estilo quase pornográfico e colorido.

A publicação “Car Design News” conversou com Colani em 2007, quando uma grande exposição de seu trabalho foi exibida no “Museu do Design” de Londres, e ele disse: “Entre a gestão da indústria automobilística de hoje, não há ninguém que entenda os problemas reais”. Colani acreditava que toda a ênfase no desenvolvimento de novos veículos estava errada: “Temos centenas de motores elétricos para fazer trabalhos normalmente feitos por mãos humanas. O desenho de carros não deve ser sobre os pequenos detalhes. Deve ser sobre o panorama geral… Os carros devem ser “mais simples, com menos recursos, aerodinâmicos, de construção leve”.

Ele usava um slogan (em alemão): “langsam, leise, lustig, liecht” – que significa “lento, silencioso, espirituoso, leve”. Colani acreditava que os fabricantes tradicionais estavam perdendo o objetivo de “construir carros para ir de A a B com um sorriso… para dar respostas aos problemas do nosso tempo”.

Talvez nunca se chegue a uma conclusão definitiva sobre Luigi Colani. Gênio ou louco? Provavelmente os dois. Uma espécie de Salvador Dali. Mas todos podem concordar que o mundo do desenho hoje, sem ele, é um pouco menos colorido, um pouco menos biomórfico e muito menos extravagante.

Colani e Três Belezas

 


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