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O futuro da Ford na Europa passa pela Renault

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Num momento em que os carros chineses estão assolando o mercado mundial com produtos de alta qualidade e eficiência, e a eletrificação é a ordem, qualquer vacilo no planejamento de novos carros pode custar muito caro para as marcas tradicionais. A ideia de produzir basicamente SUVs de todos os tamanhos e picapes também não é exatamente uma boa ideia, pois modismos passam e, se todos os ovos estiverem em uma cesta só, o resultado será desastroso. A Ford é um bom exemplo disso. Perdeu os seus modelos mais importantes na Europa — Fiesta e Focus — e viu as vendas despencarem em velocidade assustadora. Agora a marca planeja uma nova fase, para recuperar o espaço perdido, mas isso não será tão fácil assim.

por Ricardo Caruso

“Quem te viu, quem te vê” é uma frase popular que faz todo sentido. A Ford já foi historicamente uma das marcas mais relevantes no mercado da Europa. Em 2015, por exemplo, vendeu mais de um milhão de carros naquele continente, ficando apenas atrás da Volkswagen entre as mais comercializadas. Em 2025, 10 anos depois, o cenário é outro, ao ter vendido pouco mais de 300.000 unidades no ano passado, não indo além de uma humilhante 14.ª posição. Aquele honroso segundo lugar de 10 anos atrás hoje pertence à Tesla, e as marcas chinesas atingiram 5,1% de participação naquele importante mercado, com destaque para a BYD. Não ter previsto isso foi um caríssimo erro de estratégia. No Brasil, a Ford se tornou apenas importadora e não tem um carro de volume sequer para brigar no mercado. O mais próximo que tem de um “automóvel” é o Mustang. De resto, apenas picapes e SUVs.

A pandemia da Covid 19 e a crise da falta de componentes que se seguiu também ajudam a explicar parte do declínio da Ford na Europa, mas há dois nomes por lá que dizem quase tudo: Fiesta e Focus. O Fiesta desapareceu em 2023 e era, tradicionalmente, o modelo mais vendido da marca. O excelente Focus terminou sua jornada no ano passado, sem deixar sucessor.

Durante décadas, essa dupla foi o pilar da marca na Europa. Com o fim de ambos, foi embora grande parte do volume de vendas da Ford por lá. Sem Fiesta e sem Focus, a Ford ficou dependente dos SUVs Puma (pequeno) e do Kuga (médio) para fazer volumes na Europa. São modelos importantes e interessantes, sobretudo o Puma, mas insuficientes para sustentar a presença que a marca já teve no mercado europeu. É lógico: nem todos gostam de SUVs…

Ao mesmo tempo, a aposta na eletrificação, primeiro com o Mustang Mach-E — um SUV maior e elétrico — e depois a parceria com a Volkswagen, ficaram muito abaixo do que era esperado. O Explorer e o Capri -mais dois SUVs- chegaram ao mercado cheio de ambições, mas ficaram longe do impacto comercial que a Ford precisava na Europa. Os números de vendas não mentem.

Mas nem tudo é desgraça. Há um segmento onde a Ford não perdeu relevância do outro lado do Atlântico, pelo contrário: a divisão Ford Pro. Nos veículos comerciais, que inclui a picape Ranger, a marca é líder de mercado na Europa há mais de 10 anos consecutivos.

Em 2025 a Ford Pro atingiu recordes de vendas e de participação naquele mercado: mais de 400 mil unidades e 17%, respectivamente. Ou seja, hoje é mais provável em Berlim ou Roma você cruzar com as Transit e Ranger no do que com os Puma e Kuga. É onde a Ford hoje mostra a sua força e que tem garantido a viabilidade do construtor estadunidense no mercado europeu.

Nos segmento de carros de passageiros, porém, os desafios são maiores. Além de não estar presente em áreas essenciais, a Ford tem que lidar hoje com muito mais concorrência, especialmente a vinda da China. E no mundo do automóvel, tempo e espaço perdidos não voltam mais. Ou demoram muito para voltar. Em 2025, as marcas chinesas conseguiram uma fatia de 6,1% do mercado europeu, quase duas vezes mais que em 2024. Em 2026, analistas antecipam uma quota que poderá superar os 10%. Entre as 10 marcas mais vendidas do mundo, três já são de chinesas.

Mas a Ford prometeu dar resposta a esses desafios. Jim Farley, chefão da marca, já deixou claro o objetivo: voltar a apostar em carros menos genéricos e recuperar a identidade da empresa, que fez do Fiesta e do Focus referências no mercado num passado pouco distante.

A ideia passa por voltar a fazer carros mais acessíveis, mas com personalidade e posicionados entre os mais interessantes de se dirigir. Em resumo, voltar a ser a Ford dos bons tempos. Essa nova fase já está em preparação, mas a forma como o pretendem recuperar espaço leva a algumas questões. Tudo indica que será mais do mesmo.

O primeiro a chegar será outro SUV, em 2027. Será produzido em Valência, Espanha, na mesma fábrica de onde sai o Kuga. Não vai substituir, mas vai usar a mesma plataforma C2 e ser multi-energias (híbrido e elétrico). Dizem até que vai adotar o nome Bronco, mas terá pouco do Bronco que conhecemos. Ou seja, será mais um concorrente para o saturado mercado onde o Jeep Compass dá as cartas.

E o que a Ford pensa para depois, em 2028, levanta muitas dúvidas. Isto porque a marca anunciou o lançamento de dois novos modelos elétricos, o primeiro deles com a missão de preencher o vazio mercadológico deixado pelo Fiesta. Só que a base deste carro não será Ford, e sim Renault: o futuro “Fiesta” vai compartilhar a plataforma do Renault 5. E o segundo modelo, outro SUV, poderá ocupar o lugar do atual Puma elétrico. Mais SUVs e elétricos, mercado onde os chineses já são referência hoje e estarão mais à frente ainda daqui dois anos.

Estes dois novos veículos elétricos da Ford serão baseados na plataforma Ampère da marca francesa e produzidos pelo Grupo Renault no norte da França, na fábrica ElectriCity da empresa. Será complicado para estes modelos apresentarem a linguagem de desenho e a dinâmica de condução que sempre caracterizaram os Ford genuínos.

Não há nada de errado com a plataforma francesa, mas não será um Ford autêntico. Os desenhistas e os engenheiros da marca não terão vida fácil para conseguir colocar nas ruas produtos diferenciados. Jim Farley tem defendido que não quer mais veículos genéricos: “as pessoas gostavam do Focus e do Fiesta porque eram acessíveis, com excelente condução e dinâmica. Não eram veículos chatos”. Conseguirá voltar a isso com os novos modelos? Provavelmente não.

O mercado e especialistas terão que aguardar por esta nova fase da Ford para ter uma resposta. Uma Ford que, na Europa, será tudo bastante previsível do ponto de vista tecnológico, recorrendo à Volkswagen, Renault e às suas próprias soluções caseiras recentes, que não resgatam a emoção e paixão que sempre acompanhou os Ford autênticos. Curioso imaginar que o futuro da Ford na Europa passa pela Renault, repetindo a história de quando o avanço da Ford no Brasil também passou pela Renault, no final dos anos 1960, quando o Renault 12 foi a base para o lançamento do Ford Corcel em 1968.


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