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Mistério: o Cadillac Le Mans Concept 1953 que desapareceu

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Um carro-conceito de um milhão de dólares simplesmente desapareceu em Oklahoma, nos Estados Unidos, e se tornou mais um dos mistérios que fazem parte da história do automóvel. O “crime”, se é que foi de fato um crime, aconteceu há mais de 70 anos.

O carro em questão era um Cadillac Le Mans 1953, conceito de dois lugares, um dos quatro produzidos. Eles foram montados a pedido de Harley Earl, que tinha 1,98 m de altura, importante executivo que foi o primeiro vice-presidente de desenho da General Motors. Earl era uma espécie de showman da marca.

Criado em Los Angeles, Earl vinha de uma tradição na construção de carros personalizados. Na verdade, ele cresceu trabalhando na empresa do pai, que personalizava carros para pessoas do showbiz como o comediante Roscoe “Fatty” Arbuckle. A gerência da GM percebeu seus esforços e o contratou para ir a Detroit em 1927 e melhorar seus carros. Isso prejudicou muito a Ford, pois Henry Ford ainda defendia sua filosofia de “qualquer cor, desde que seja preta”, enquanto Harley se apegava às cores vibrantes e aos cromados (sua área na GM era originalmente chamada de “Seção de Arte e Cor”).

Foi Earl quem deu início aos eventos “Motorama” da GM, apresentações de carros-conceito —então chamados de “dream cars”— no melhor estilo Broadway e acompanhados por belas dançarinas. Esses shows começavam no hotel Waldorf Astoria, em Nova Iorque, e depois seguiam em caravana em turnê pelo país. Nada que lembre a empresa sem rumo em que a GM se transformou hoje, inclusive aqui no Brasil.

Carros especiais eram concebidos para esses shows, com a arrogante e justificada ideia de algo como “vamos exibir este hasteado e ver quem bate continência”. Alguns carros-conceito chegaram a ser produzidos. O Corvette 53, por exemplo, deixou de ser um carro de exposição do “Motorama” para se tornar um veículo de produção naquele mesmo ano, com os primeiros exemplares construídos à mão em Flint, Michigan.

Um dos conceitos do Cadillac Le Mans foi modificado pelos estilistas da General Motors, recebendo faróis quádruplos e aletas elegantes.
Um dos conceitos do Cadillac Le Mans foi modificado pelos estilistas da General Motors, recebendo faróis quádruplos e frisos mais elegantes.

Mas o carro de exibição desaparecido, visto pela última vez em Oklahoma, não era um protótipo do Corvette, embora também tenha sido mostrado em 1953 e usasse carroceria feita de fibra de vidro: era um carro-conceito Cadillac Le Mans, um dos quatro exemplares produzidos.

Earl não estava apenas pegando emprestado o nome de uma famosa pista –Le Mans– e o colocando em uma marca sem qualquer ligação com o automobilismo. O milionário e esportista Briggs Cunningham, de fato, correu com Cadillac em Le Mans em 1950. Portanto, a GM tinha todo o direito de exaltar esse fato no nome de um carro-conceito (ao contrário do nome “Le Mans” que a GM adicionou ao Pontiac Tempest cerca de uma década depois).

O Cadillac Le Mans foi um sucesso como estudo de estilo, com referências aparecendo em toda a linha Cadillac ao longo da década de 1950. Um desses carros até recebeu uma atualização, ressurgindo da divisão de estilo da GM ostentando faróis quádruplos, novos contornos da carroceria e frisos mais elegantes. Mas esses modelos nunca levaram diretamente à produção de modelos Cadillac de dois lugares, então foram de pouca utilidade para a GM quando seu tempo como carros dos sonhos da “Motorama” chegou ao fim e a hora da aposentadoria chegou.

Earl conhecia todas as principais estrelas e astros de cinema da época, e como não havia leis sobre emissões ou equipamentos de segurança obrigatórios naqueles tempos, então ele podia -e de fato o fazia- doar ou vender os carros de exposição da “Motorama” para celebridades depois que seus dias de atrações acabaram. Uma boa estratégia de publicidade residual. Um dos Cadillac Le Mans foi para Harry Karl, magnata da indústria do calçado, que o presenteou à sua esposa, uma loira escultural chamada Marie “The Body” MacDonald. Outro foi vendido para uma grande concessionária Cadillac em Beverly Hills, que deve ter sido cliente de Earl na época em que trabalhava com personalização de carros para artistas de cinema.

O conceito Cadillac Le Mans nunca chegou à produção, mas seus detalhes de estilo inspiraram a linha da Cadillac por anos após sua estreia.
O conceito Cadillac Le Mans nunca chegou à produção, mas seus detalhes de estilo inspiraram a linha da Cadillac por anos após sua estreia.

Sobre aquele caso com Oklahoma, um dos Le Mans de exposição da Cadillac foi uma das estrelas da “Exposição do Progresso do Petróleo” no aeroporto de Oklahoma City em 1953, junto com outros dois carros do “Motorama”: o Wildcat I e o Starfire. Depois, o Cadillac foi exibido na concessionária “Greenhouse-Moore Cadillac Chevrolet” por dois dias na primeira semana de novembro. Depois de 8 de novembro, o carro nunca foi visto. A história ganha contornos ruins, quando sesabe que o dono da concessionária foi sequestrado e só metade do valor do resgate foi pago, e dias depois seu filho foi assassinado.

Alguns dizem que o carro foi para Tulsa, mas a pista era fria, muito fria. Uma matéria de jornal da época dizia que Floyd Akers, revendedor Cadillac na região de Washington, o comprou, aumentando as esperanças dos fãs da história desse carro. Mas essa reportagem foi desmentida quando se descobriu que ele havia comprado um dos outros Le Mans de exposição. Desde então muita gente está em seu encalço. O Le Mans sumido pode valer algo entre US$ 400.000 e US$ 2 milhões, pois não se sabe o estado em que se encontra.

Isso se deve, em parte, ao fato de que os Le Mans são carros impressionantes e também porque os protótipos da época eram muito especiais e carregados de história. Com o fim da era Harley Earl, a GM se tornou consideravelmente mais rigorosa na venda de carros-conceito e protótipos, com o detalhe de que após a aprovação de leis de emissões e regulamentações de segurança se tornou ilegal a venda de carros que não atendessem aos padrões exigidos.

Apesar dessas proibições, no mundo dos carros de coleção, ter na garagem um protótipo é uma honra especial. Todos os anos, cerca de meia dúzia deles parecem de alguma forma escapar das mãos das montadoras e cair em garagens privadas. Em leilões, eles às vezes são vendidos por vários milhões, como o Oldsmobile F-88 1954 (outro ex-carro de exposição do “Motorama”). O fundador de um canal de TV a cabo nos Estados Unidos queria torná-lo a principal estrela de sua coleção e pagou mais de US$ 3 milhões pelo privilégio.

O exemplar customizado por Barris em 1955, depois destruído por um incêndio em 1985.

O Le Mans era um roadster de baixo perfil (1,30 m até a moldura do para-brisa), e o conceito apresentou o primeiro para-brisa envolvente da Cadillac. Ele era movido por uma versão de 250 cv do motor 331V8 (5.420 cm3) da marca, potência inédita nos Cadillac de produção até 1955. O comprimento total do Le Mans era de 4.978 mm. Embora quatro protótipos tenham sido construídos, o modelo nunca entrou em produção.

O destino dos outros très Cadillac Le Mans, é conhecido. Um carro, que foi personalizado por George Barris, foi o que Harry Karl, deu para sua esposa. Outro foi vendido para a concessionária Cadillac de Beverly Hills. O personalizado por Barris foi destruído em um incêndio em 1985, enquanto o terceiro, remodelado por estilistas da GM com faróis quádruplos, está em posse do “GM Heritage Center”.

Mas voltando ao Le Mans desaparecido há 72 anos, em 8 de novembro de 1953. Inúmeras perguntas permanecem: a GM comunicou na época o furto do carro à policia? Será que outra loira com seios enormes ficou com ele? O modelo ainda está no Oklahoma, escondido? Foi destruído pela Máfia? Talvez um dia seja achado em um celeiro qualquer. Ou não.


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