Recalls sem fim na Europa: as marcas que mais chamaram carros de volta em 2025
Consulta da base de dados europeia ‘”Rapex” revela a existência de 317 campanhas de recall em 2025, o que corresponde a quase uma por dia e representa aumento de 17 operações se comparado com 2024. No Brasil, foram registrados 165 recalls no ano passado, praticamente um a cada dois dias.
por Marcos Cesar Silva

O ano de 2025 ficou marcado por um número elevado de campanhas de recall no setor automotivo em todos os mercados, em especial o europeu, alguns de grande dimensão, outras mais discretos, e muitos deles ainda relacionadas com o interminável caso dos airbags da Takata. Mas nem todos os fabricantes foram afetados da mesma forma. Uma análise dos dados oficiais da União Europeia permite identificar quais as marcas que mais vezes chamaram veículos de volta às oficinas ao longo do último ano.
A consulta à base de dados europeia “Rapex” revela que aconteceram 317 campanhas de recall em 2025, o que corresponde a quase uma por dia e representa aumento de 17 comparado com 2024. Ainda assim, os números devem ser lidos com cautela, já que vários fabricantes optam por realizar correções técnicas fora do enquadramento formal de um recall, evitando a sua comunicação às autoridades, à imprensa e ao público. É o chamado “recall branco”, também praticado no Brasil.
Nem todas as intervenções chegam a ser oficialmente classificadas como campanhas de recolha de veículos. Algumas marcas não lançaram qualquer recall formal em 2025 na Europa, como MG, Abarth ou Cupra, mas isso não impediu a realização de correções técnicas em determinados modelos, feitas nas concessionárias, sem alarde. Um dos exemplos citados é o da Renault, que resolveu um problema na caixa de câmbio de mais de 150 mil veículos híbridos por meio de uma “operação técnica especial”, não comunicada às autoridades por não envolver diretamente riscos de segurança ou ambientais.
Este tipo de atuação, menos visível, é frequente na indústria automotiva. Trata-se de intervenções menos dispendiosas e que evitam a exposição midiática associada aos recalls tradicionais, que é sempre negativo para a imagem das marcas. Muitas destas correções são realizadas durante revisões periódicas e acabam passando despercebidas pelos proprietários.
Entre os fabricantes daquele continente que recorreram mais vezes a campanhas oficiais de recall, a Mercedes lidera a lista de 2025, com 26 operações, número explicado em parte pela vasta gama de modelos comercializados. Logo atrás vem a Peugeot, com 25 campanhas, seguida da Kia, com 24. Opel e Citroën, ambas do Grupo Stellantis, integram também o topo da lista, sendo que a Citroën compartilha a quinta posição com a Volkswagen. Já a BMW, Ford e Audi aparecem igualmente entre os construtores com maior número de regressos às oficinas ao longo do ano.
O peso do caso Takata voltou a ser sentido de forma significativa em 2025. De acordo com a imprensa local, o regresso ao primeiro plano do escândalo dos airbags defeituosos levou marcas como Citroën, Toyota, Mercedes e o Grupo Volkswagen a imobilizarem temporariamente centenas de milhares de veículos. Em vários casos, estas campanhas assumiram a forma de recalls do tipo “Stop Drive”, que implicam a parada imediata do veículo até à substituição do componente defeituoso. Este tipo de procedimento, ainda relativamente recente na Europa, passou mesmo a poder ser sinalizado em inspeções no controle técnico na França. Bom lembrar que esse tipo de operação custa muito dinheiro aos fabricantes.
A situação foi particularmente relevante no Grupo Stellantis, responsável por várias campanhas de retorno de grande escala. Entre elas destaca-se o recall de cerca de 900 mil veículos das marcas Citroën, DS, Opel e Peugeot equipados com o motor 1.5 BlueHDi. Apesar de poder ter optado por uma intervenção mais discreta, o Grupo decidiu comunicar oficialmente a operação, numa momento em que o descontentamento dos clientes começava a ganhar destaque. A isto somaram-se mais de 200 mil veículos na França com o motor a gasolina de três cilindros que sucedeu ao 1.2 PureTech, e mais de 240 mil Peugeot 308 de geração anterior, chamados às oficinas por um defeito no cinto de segurança.
Quando se analisam os dados por grupos automotivos, a Stellantis surge destacada, com 95 campanhas de retorno em 2025. Segue-se o Grupo Volkswagen, com 47, e o consórcio Hyundai-Kia, com 38. Uma parte significativa destas operações incidiu, no entanto, sobre veículos comerciais e derivados, segmento em que a Stellantis dispõe de uma oferta particularmente enorme. Excluindo esses modelos, a diferença entre os grandes Grupos torna-se menos acentuada.
Mesmo marcas tradicionalmente associadas a elevados níveis de confiabilidade não ficaram isentas. A Toyota e a Lexus chamaram de volta mais de 90 mil veículos produzidos internamente, numa abordagem que reflete a estratégia de intervenção rápida, antes que os problemas se generalizem. Neste contexto, um elevado número de recalls não é necessariamente um sinal negativo, podendo se traduzir em uma resposta mais rápida a potenciais falhas, ainda que para os proprietários nunca seja agradável regressar inesperadamente à oficina.
