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Simplesmente Brian Wilson e Beach Boys…

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Brian Wilson, o gênio por trás da icônica banda The Beach Boys, morreu em 11 de junho de 2025, deixando um legado musical sem comparação na história da música popular e milhões de fãs por todo o planeta — o Ricardo Caruso e eu, inclusive.

AUTO&TÉCNICA, como modesta homenagem ao grande e genial músico (e à banda, claro), resgata uma matéria especial, publicada originalmente no já distante ano de 2002, na edição 67 ainda na fase impressa da Revista. As referências de datas e épocas citadas são, evidente, de mais de duas décadas atrás. Nesse meio tempo, tivemos a honra e o prazer de assistir um show dos Beach Boys ao vivo — e sermos recebidos no camarim por eles —, o que dispensa elencar as toneladas emoções a que fomos submetidos.
Aqui, tomamos a liberdade de atualizar as imagens, cuja disponibilidade é muito maior hoje em dia.
Aprecie sem moderação!


NADA FOI MAIS BRILHANTE E GENIAL DO QUE OS BEACH BOYS NA HISTÓRIA DA MÚSICA MODERNA. E COM MUITOS AUTOMÓVEIS NO MEIO…


Você já deve ter lido ou ouvido mais de uma dezena de vezes “chavões” do tipo “andando de conversível pela California ouvindo Beach Boys”, muito provavelmente dito ou escrito por alguém que nunca esteve na California ou pior, não conhece a extensa obra dos Beach Boys.

Nesta reportagem especial de AUTO&TÉCNICA, que consumiu dezenas de horas em pesquisas — muito divertidas, por sinal, pois aqui somos todos fãs de Beach Boys — chegamos a uma coletânea que, muito mais que esgotar o assunto, procurou homenagear o trabalho da banda dentro de “nossa praia”, o automóvel. Pena que a Revista não tenha som…

A mais popular banda de “surf music” de todos os tempos — e que depois evoluiria para a música popular norte-americana, com rocks e baladas, estourou em 1966, chegando a bater, ainda que brevemente, o estrondoso sucesso que os Beatles vinham obtendo nos Estados Unidos. Mas o início da banda data de 1961, com o lançamento da música “Surfin” e hoje, mais de 40 anos depois, a obra está aí, viva, para quem quiser ouvir.

O grupo tem sua formação original com três irmãos Wilson (Brian, Dennis e Carl), um primo dos três (Mike Love) e um amigo (Al Jardine), mais um ou outro amigo que participou no início e Bruce Johnston, praticamente um sexto membro do grupo. Com a qualidade do trabalho de Brian em estúdio, os Beach Boys também apresentam, já em meados da década de 1960, alguns dos mais bem produzidos arranjos da história do rock, com destaque para o disco (LP, de Long Play, discos de vinil praticamente desaparecidos hoje em dia, substituídos pelos CD’s) “Pet Sounds” e a música “Good Vibrations,” de excepcional harmonia. Este disco é considerado tão importante quanto “Sgt. Peppers”, dos Beatles e “Good Vibrations” é uma das mais belas e impressionantes obras da história da música moderna.

A formação original: Al, Carl, Dennis, Mike e Brian.

A história toda começa em Hawthorne, um subúrbio de Los Angeles, California, próximo a costa do Pacífico. Crescendo a apenas algumas milhas da praia, na verdade apenas Dennis era um surfista dedicado, mas também acabou cedendo à paixão demonstrada por Brian pela música. Às sessões na garagem logo se juntam o primo e o colega de time de futebol, Al.

Com o apoio dos pais, que alugaram os primeiros instrumentos, Brian tocava baixo, Carl guitarra e Dennis bateria. Já em 1961 surgia o primeiro “single” e que renderia um contrato com a Capitol Records. Foi o começo de uma carreira de absurdo sucesso, com a produção de mais de 30 discos, além de 10 álbuns solo.

Tudo isso para chegar ao assunto que realmente nos interessa. A receita é simples, e conta com jovens californianos, garotas bonitas, praias, surf e…carros. São muitas as músicas que tratam ou envolvem o tema automóvel, nas vozes dos mais diversos cantores e bandas. Mas a presença do tema ao longo da carreira dos Beach Boys é notável.

Já em 1962, a música tema do álbum “Surfin’ Safari”, um claro convite ao aprendizado do surf e sua prática, pregava “vamos carregar nossa Woody e colocar nossas pranchas dentro“, uma alusão às Ford Woody dos anos 1940, uma wagon com laterais externas de madeira — daí o “woody” — uma imagem celebrizada em dezenas de pôsteres e miniaturas.

Uma típica “Woody” de surfista.

Do mesmo disco vem “Summertime Blues”, que narra os problemas do jovem com muita vontade mas pouco dinheiro, e que tem que trabalhar nas férias para juntar algum. Quando pede o carro emprestado ao pai para uma voltinha no domingo, ouve o sermão “bem, você não pode usar o carro pois não ganhou nem um centavo, já que matou o trabalho“. Apanhado “no flagra”, passou o fim-de- semana a pé. Ainda deste mesmo álbum temos “409”, homenagem direta aos Chevrolet Impala com motor de 409 pol³. A música conta o caso do rapaz que “economizou as moedas para comprar um 409”. Um detalhe interessante desta música é chamar o carro por um pronome feminino —her, ela em inglês- e alardear que “nada ou ninguém pode superá-la, quando eu a levo para a pista ela realmente brilha, ela sempre faz os melhores tempos”, já que os 409 fizeram muito sucesso nas provas de arrancada de então, como precursores das corridas de dragsters. Para completar, “minha 409 tem dois quadrijets e positraction“, dois opcionais bastante desejados para a época — dupla carburação quadrijet e diferencial autoblocante.

Em 1963, com o disco “Surfin’ USA”, a música “Shut Down” traz uma verdadeira descrição de um “racha”: “isto aconteceu numa pista onde a estrada é larga, dois carros ‘legais’ lado a lado, meu Stingray com injeção de gasolina contra um 413, acelerando para valer seus motores, os conta-giros subindo, subindo…”. “Contando de cinco até um, nós dois aceleramos, meu Stingray é leve e os pneus começam a patinar, mas o 413 é realmente rápido…”, demonstrando o terror que assombra todo “piloto” quando vê o rival se distanciando. De repente, o Superstock Dodge que estava ficando longe começa a ser alcançado, já que “meu Stingray começa a chegar, pois começo a ‘queimar’ a embreagem e ganhar tração; acelerador ‘na tábua’ e ainda posso ouvir os carburadores do 413 ‘bebendo’ a gasolina; o 413 ainda lidera, mas apertado; mesmo tendo um belo ‘ram induction’, ele não entende que debaixo do meu capô está ‘sentado’ um motor com injeção de gasolina”. Complicado? Nem tanto. Trata-se de uma arrancada entre um Corvette Stingray e um Dodge 413 com ram air, sistema de captação de ar que “pressuriza” a entrada de ar nos carburadores. Mas, diz a letra, “o meu Corvette tem injeção, e agora, meu amigo, eu vou te deixar para trás”.

Ainda no mesmo disco, “Noble Surfer” aborda novamente a importância da wagon Woody na vida dos Beach Boys, destacando a trajetória de um personagem que “vive o mar noite e dia, é um verdadeiro conquistador, tem uma prancha personalizada, um encardido jeans e uma Woody”.

Ford Thunderbird de Dennis Wilson, exposto no  Hollywood Star Cars Museum, tem o capô autografado pelos Beach Boys.

Em 1963 chega o disco Surfer Girl, com uma baladinha romântica que conta a paixão do jovem casal de namorados, que vai a qualquer lugar que o coração mandar, a bordo, claro, da Woody. Também neste disco veio a música Little Deuce Coupe, e que acabou virando tema de um disco, como veremos depois.

Our Car Club profetizava a importância dos clubes de automóveis, uma mania norte-americana: “mas somente para carros com classe e estilo; eu e meus amigos temos um Deuce Coupe, um Stingray e um Jaguar XKE. Nós vamos realizar encontros, conseguir um patrocinador e você pode apostar, aonde formos estaremos com nossas jaquetas. Este clube é o melhor!”

O MAIS COMPLETO
Um novo álbum lançado em 1963, denominado “Little Deuce Coupe”, talvez seja o mais carregado de músicas nas quais o tema automóvel é evidente, a começar pela música que serve de título, que diz “eu não sou de me gabar, mas tenho as rodas mais rápidas da cidade; se ela (o coupe) tivesse asas poderia voar, você não faz idéia do que ela é capaz; ela é apenas um coupe com motor flat head’ de fábrica, mas anda como um T-Bird, a 140″. Depois o carro recebe uns detalhes, como “uma embreagem de competição e câmbio de quatro marchas no assoalho, e vai ronronando como uma gatinha até que os escapes comecem a rugir e, quando a luz fica verde, ela dispara, com a direção pesada, mas ‘borrachando’ em todas as marchas”. Muita
emoção para o distante1963…

Capa do álbum Little Deuce Coupe e o carro, exposto no “Henry Ford Museum”, em 2007.

Na sequência vem a faixa “Ballad of Ole Betsy”, bastante metafórica, mas que deixa claro a paixão por Betsy, “nascida em 32, mas ainda muito bonita; vinda de Detroit, conheceu mais lugares do que eu imagino um dia conhecer. Betsy é mais leal do que qualquer amigo pode ser. Ela deve ter conhecido muitos outros antes de finalmente eu conhecê-la, mas agora ela é toda minha e eu acho melhor eles a esquecerem; ela tem uma beleza clássica, qualquer um nota e, apesar de eu ser o último, ela deu sua vida para mim. Mesmo tendo alguns pontos de ferrugem, ela é ouro puro para mim”.

Mas a paixão não era só pelos carros. Podia ser também pelas garotas com carros, como em “Car Crazy Cutie”, do mesmo disco, que trata de uma “gatinha de grandes olhos azuis e lábios cor de torta-de-maçã que, apesar da beleza, guia melhor que a maioria dos rapazes um carro com embreagem e, surpresa, tem restinhos de graxa debaixo das unhas”.

Logo em seguida, outro hit sobre um coupe, desta vez, o “Cherry, Cherry Coupe“, de visual realmente bom, “com a frente rebaixada e entradas de ar no capó, rodas cromadas ‘invertidas’ e pneus faixa branca; as maçanetas foram retiradas mas, você sabe, elas abrem por um sistema de solenóides. Tapetes, bancos e painéis estão em bom estado e, quando procuro algo para fazer; tenho espaço suficiente para dois”.

A música “409” reaparece neste disco, bem como “Shut Down”. Mas uma que quase passa despercebida é a balada “Spirit of America”, melodia patriótica que destaca o lendário feito do meio-carro-meio-foguete “The Spirit of America”, que bateu o recorde de velocidade no deserto de Boneville em 1963.

Spirit of America”, recordista de velocidade.

A música diz que “Boneville tem visto coisas estranhas, mas a mais estranha de todas era um jato sem asas; uma vez um jato brincou com as estrelas, mas agora, no chão, ele é o Rei dos Carros, um ‘carro-avião’ famoso no mundo todo, com o nome pintado na lateral e pilotado por Craig Breedlove, um jovem corajoso jogando um jogo perigoso. Com a média de 407 (milhas por hora!), carro e máquina bateram o recorde numa quente manhã”.

Nem mesmo o acidente fatal de James Dean com seu Porsche Spider 550 foi esquecido neste disco, na música “A Young Man Is Gone”: “o jovem se foi, mas a lenda continua, muito mais do que ele nos deu. Ele morreu como viveu, uma jovem estrela que encontrou a morte em seu carro, por razões que ninguém entende. Pneus ‘cantando, faíscas, e o jovem se foi. Como pôde? Ele morreu sem uma causa, e agora todos dizem que ele era um rebelde sem causa“.

Por fim, neste álbum, verdadeiro “clássico automotivo da indústria fonográfica”, vem a música “Custom Machine”, que narra: “vejam meu carro, ela é puro metal”, azul com um motor Corvette. Dizem que ela é mais bonita parada, mas quando eu piso no ‘gás’, ela faz uá-áá-áá; eu vou deixar você olhar, mas não toque no meu carro. Tudo é cromado, até o macaco; o som é estereofônico, as rodas de magnésio e está tão rebaixado que parece estar a uma polegada do chão”.

Corvette, destaque em muitas canções da banda.

O disco “Shut Down Volume 2”, de 1964, nos presenteou com a tocadíssima e antológica “Fun, Fun, Fun”. De novo trata de garotas e carros, e desta vez é uma jovem que “pega o carro do pai e vai para a lanchonete, com o rádio no máximo e ‘cruzando’ o mais rápido que pode, divertindo-se até que papai pegue o T-Bird de volta. Ela anda, se parece e pilota como um ás, fazendo a ‘500 Milhas de Indianapolis’ parecer uma corrida de bigas romanas; muitos rapazes tentam alcançá-la, mas ela é imbatível“.

“This Car of Mine” poderia ser a declaração de amor que muitos de nós fazem aos seus carros (sabemos até de casos de bolos de aniversário para o carro, o que consideramos um certo exagero). Diz que “quando a comprei, ela não era nova, na verdade era velha e meio quebrada, mas este carro significa muito para mim. Eu lembro do dia em que a escolhi, em meio aquele monte de ferros- velhos; eu poderia até dizer que pensei que sob aquela camada de ferrugem havia ouro. Mal pude esperar para levá-la para casa e devolvê-la à condição que merecia. E hoje ela é tão linda…”. O disco All Summer Long, também de 64, trouxe a música Drive-in, na verdade antigos cinemas ao ar livre onde os jovens iam namorar de carro. “Toda vez que eu tenho um encontro só vou a um lugar, o drive-in”.

O ano de 1964 marca ainda a chegada do disco “Concert”, que reapresenta “Fun, Fun, Fun”, “Little Deuce Coupe” e muitas novidades. Na área dos automóveis, destaque para a canção “The Little Old Lady From Pasadena”, que narra as peripécias de uma “velhinha que tem em casa um belo jardim de gardênias brancas, mas em sua garagem ‘vive’ um Super-Stock Dodge. Ela dirige muito rápido e muito mal, e é o terror da Colorado Boulevard. Vai, vovó, vai, vovó. Você pode vê-la e ouvi-la chegando com seu 426 de quatro marchas, mas ela ainda vai receber uma multa pois não tira o pé do acelerador: Se você encontrá-la, pode até tentar alcançá-la, mas ela nunca perde. Muitos rapazes já tentaram…”

Apresentação no “The Ed Sullivan Show”. Na direita, o carro que aparece no fundo do estúdio, sobrevivente.

NOVOS TEMPOS
Os anos (e muitos lançamentos) passam, e novas fases na carreira da banda praticamente esquecem do automóvel, que aparecem uma ou outra vez em regravações. As composições vão se tornando cada vez mais maduras e profundas, e lemas como amor e vida passam a ter mais destaque.


A viagem —no bom sentido— é longa e pulamos até 1977, quando surge o álbum “Beach Boys Love You”, incluindo a música “Honkin Down the Highway”, e que dá uma idéia do trânsito em Los Angeles, mas que nem por isso deixa de ser um passaporte para o romance. “Buzinando, buzinando pela estrada, tentando ultrapassar os outros carros, já que tenho um encontro com um anjo; ela é aquela que disse que queria estar comigo e assistir um filminho à noite”.

“California Calling”, música do disco “Beach Boys”, de 1985, é uma verdadeira volta ao passado, relembrando os tempos em que “tínhamos nossas Woodies e custom cars e quando saíamos para dar umas voltas tínhamos certeza de que éramos maus; nossos passeios permanentes nos levavam à San Francisco ou Malibu.”

Atravessamos mais um período e chagamos ao disco Still Cruisin, de 1989, que trouxe uma verdadeira jóia para os apaixonados por carros e música, “In My Car”: “estou atrás do volante, aço e cavalos de potência, a estrada é minha casa, fiberglass e cromados na minha fantasia chamada Corvette. No meu carro sou o comandante do meu destino, quando acelero, meu Corvette é meu trono, e me sinto ainda com 16 anos, fazendo parte do cenário Americano. O vento soprando meus cabelos, a música à toda, sinto-me como um milionário. Então, paro o meu carro junto a uma estrela, e concluo que a vida é cheia de possibilidades”.

Não basta ser fã, tem que participar: Ricardo Caruso ao lado de Mike Love e eu junto a Bruce Johnston, em 2009. Ótimas e inesquecíveis recordações.

Assim encerramos nossa viagem ao som maravilhoso dos Beach Boys. Embora dois de seus integrantes ja tenham ido tocar para as estrelas (os irmãos Dennis, que morreu afogado nos anos 1980, e Carl, vítima de câncer há dois anos), a banda teve a felicidade de sobreviver aos Beatles —que nos perdoem os fãs da banda inglesa— e evoluir até chegar a um nível de som e composições elevadíssimo, mais de 400 músicas depois. Se existe algo maior que os Beatles, estamos falando de Beach Boys. Eles estão na estrada até hoje, com Bruce Johnston fazendo parte do grupo, e já chegaram a tocar para mais de 400 mil pessoas ao vivo, num show de “4 de julho”.

Não sem motivo o genial Brian Wilson recebeu, recentemente, o titulo de “Mais Importante Compositor Americano Vivo”. Foi para o “Hall of Fame” e recebeu um show em sua homenagem no ano passado, quando foi reverenciado por Elton John, Rick Martin e Billy Joel, entre outros. Quase todas as músicas do Beach Boys são de sua autoria. Na fase “indiana” dos Beatles, os Beach Boys os acompanharam naquelas loucas viagens, e em muitos vídeos caseiros é possível encontrar Paul McCartney cantando “Parabéns a Você” para os filhos de alguns deles…
E nós vamos continuar “Fun, Fun, Fun”… Afinal, Beach Boys é adrenalina pura.

Experimente, ouça de “California Girls” a “Kokomo” e fique viciado.

Brian Wilson em uma de suas últimas apresentações.

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