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Fim de uma era: Volkswagen fechou — pela primeira vez em 90 anos — uma fábrica na Alemanha

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A Volkswagen fechou ontem (16/12), pela primeira vez em quase 90 anos (88 anos para ser exato), uma unidade de produção em território alemão, num movimento de forte impacto simbólico para a maior economia europeia e para um dos seus setores industriais mais emblemáticos.

da Redação

A Volkswagen fez algo chocante: pela primeira vez em 88 anos, uma de suas unidades de produção em território alemão encerrou as atividades, num passo de forte impacto — econômico e simbólico — para a maior economia europeia e para um dos seus setores industriais mais emblemáticos, o automotivo. A decisão afetou a fábrica de Dresden, no leste daquele país, onde ainda trabalhavam cerca de 250 pessoas, e marca um momento histórico triste para o Grupo alemão.

A produção na unidade foi suspensa ontem, embora a imprensa alemã admita que alguns trabalhos de finalização se prolonguem até ao final de dezembro. Apesar de se tratar da menor fábrica da Volkswagen na Alemanha, o significado do encerramento ultrapassa largamente a dimensão daquela unidade, conhecida como “Fábrica Transparente” ou “Fábrica de Vidro”. O espaço deixará de ter funções produtivas e será convertido num campus de inovação, projeto que envolve a Volkswagen, a Universidade Técnica de Dresden e o governo regional da Saxônia, com um acordo já assinado entre as partes.

Durante viagem a Dresden, o chefão da Volkswagen, Thomas Schäfer, acompanhado pela representante dos trabalhadores, Daniela Cavallo, procurou explicar o impacto da decisão. Segundo foi divulgado, após os cortes de emprego anunciados, 155 trabalhadores irão permanecer ligados à “Fábrica Transparente”, quando anteriormente esse número era de 235.

Além disso, a administração do grupo decidiu atribuir um bónus de 35 mil euros aos trabalhadores de Dresden que aceitem ser transferidos para a fábrica principal de Wolfsburg, numa tentativa de minimizar aos efeitos sociais do encerramento.

A unidade de Dresden teve uma carreira industrial singular dentro do Grupo Volkswagen. Entre 2001 e 2016, produziu o modelo de luxo Phaeton. Mais tarde, entre 2017 e 2020, passou a fabricar o e-Golf, e, a partir de 2021, assumiu a produção do ID.3, um dos modelos elétricos estratégicos da marca.

Agora, a fábrica será transformada num centro de pesquisa e desenvolvimento nas áreas da inteligência artificial, microprocessadores, robótica e inovação tecnológica. O projeto prevê um investimento total de US$ 58 milhões ao longo dos próximos sete anos, repartido entre a Volkswagen e o governo da Saxônia.

O responsável regional da Volkswagen chegou mesmo a afirmar que o futuro campus “pode vir a ser a Stanford do Oriente”, numa referência à universidade norte-americana associada ao desenvolvimento tecnológico e à criação de empresas de ponta. Por enquanto, existe apenas uma carta de intenções, estando o contrato ainda por ser assinado, com o objetivo de garantir pesquisas de ponta e transferência de tecnologia.

A produção do modelo ID.3 será suspensa em definitivo já em janeiro próximo. Cerca de 60 trabalhadores da unidade de Dresden continuam sem saber qual será o seu destino profissional. Caso não encontrem colocação em outras unidades do Grupo, poderão permanecer em casa recebendo salário, uma vez que a Volkswagen garantiu emprego a todos os seus trabalhadores até 2030.

O encerramento da fábrica de Dresden insere-se num programa de cortes profundos decidido pela administração da Volkswagen, num momento de profunda crise, em que o grupo enfrenta queda significativa nos lucros e crescente incerteza quanto à capacidade comercial dos seus modelos elétricos.

As vendas estão em queda, em especials em mercados estratégicos como a China, enquanto a guerra aduaneira com os Estados Unidos deverá custar mais de US$ 6 bilhões ao Grupo. Ao mesmo tempo, a procura por veículos elétricos não tem acompanhado o ritmo dos investimentos exigidos pela transição climática e digital no setor automotivo.

O plano global da Volkswagen prevê a eliminação de 35 mil postos de trabalho. Na Alemanha, algumas fábricas já recorrem ao layoff (suspensão temporária de contratos de trabalho) devido à falta de encomendas, enquanto outras estão em risco de desativação. Dresden torna-se, assim, a primeira unidade da VW a fechar as portas na Alemanha.

Em contraste com o cenário alemão, a fábrica da Volkswagen Autoeuropa, em Palmela, Portugal, encontra-se num caminho contrário. A unidade se beneficia de investimentos de centenas de milhões de dólares, que incluem a construção de um novo prédio para a ala de pintura.

O plano industrial por lá prevê a transição do atual modelo T-Roc, de combustão interna, para uma versão híbrida em 2026, seguida da produção do ID.1, modelo 100% elétrico de baixo custo com o qual a Volkswagen pretende conquistar o mercado dos veículos elétricos.


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