Smart #5: de atração nas ruas a SUV chinês elétrico
O simpático micro-carro da marca de relógios Swatch, nasceu nos anos 1990 com a ajuda da Mercedes, e hoje é chinês. Seu mais recente modelo é um SUV elétrico altamente tecnológico. E caro
O pequeno Smart Fortwo era o sonho de quem odiava o caos do trânsito dos anos 1990, as dificuldades de estacionamento e, acima de tudo, queria usar um meio de transporte racional. Aquela era a resposta irreverente ao futuro do trânsito das grandes cidades.
por Ricardo Caruso

A smart (estilizada assim mesmo, em letras minúsculas ) é uma marca alemã fundada em 1994. Hoje, a Smart Automobile é uma joint venture criada pela Mercedes-Benz e pelo Geely em 2019, com o objetivo de produzir carros com o logotipo Smart na China para comercialização global. A empresa tem sede em Ningbo.

Tudo começou no final de 1982, quando o chefão da SMH (fabricante suíça da marca de relógios Swatch e que produz para diversas marcas de luxo da relojoaria mundial), Nicolas Hayek, começou a desenvolver a ideia para um novo carro, usando o mesmo tipo de estratégias de fabricação e recursos de personalização usados para popularizar os seus relógios Swatch.
Ele acreditava que a indústria automotiva havia ignorado um setor de clientes em potencial que desejavam um carro urbano compacto, pequeno e elegante. Essa ideia logo ficou conhecida como “Swatchmobile”. A empresa particular de Hayek, a Hayek Engineering, começou a projetar o novo carro para a SMH, com dois lugares e uma transmissão que batizaram de híbrida (algo semelhante aos hibridos leves da Stellantis hoje em dia). O nome Smart foi sugestão de Manfred Gotta, empreendedor alemão conhecido como o “Rei dos Nomes”, que batizou diversos automóveis, entre eles Twingo, Mégane, Cayenne, Actros, Panamera e Vectra. Acertou na mosca!

Logo o fôlego financeiro do projeto acendeu a luz amarela, ao mesmo tempo em que a Mercedes-Benz sonhava em navegar nesse segmento. O acordo foi rápido, e as primeiras negociações entre a Mercedes-Benz e Nicolas Hayek logo resultaram na Micro Compact Car, empresa com sede em Biel, na Suíça. Havia uma lista com pelo menos 70 locais em todo o mundo para escolher, e em1994 a fábrica de Hambach, na França, ganhou o contrato.

Após o início do desenvolvimento do carro em 1994, o Smart City Coupé (mais tarde rebatizado de Smart Fortwo) fez sua estreia mundial em 1997 no Salão de Frankfurt. A produção começou em julho de 1998 em Hambach. As vendas foram abertas ao público em outubro daquele ano em nove países europeus (Bélgica, Alemanha, França, Itália, Luxemburgo, Holanda, Áustria, Suíça e Espanha). Ainda em 1997, a Smart tornou-se100% subsidiária da Daimler.

O sucesso foi estrondos. Quando se fala da marca Smart, todos viajam para a década de 1990, quando o genial Fortwo surgiu como um ícone de engenharia urbana e da mobilidade. Um automóvel pequeno, de dois lugares, que media apenas 2,7 metros, era perfeito para as ruas apertadas das cidades europeias (e de outros países) e que marcou toda uma geração. Era o sonho de quem detestava o caos do trânsito, e à dificuldade de estacionamento, onde a Smart dava uma resposta irreverente aos carros grandes da época, pois podia ser estacionado de maneira transversal às calçadas. E ainda exibia muito estilo; era inconfundível.
Mas tudo que é bom -e nem ruim- não dura para sempre. O mundo mudou, o comportamento mudou e a Smart também teve que mudar seus carros para sobreviver. Deixou de usar motores a gasolina ou diesel, e foi reposicionada como uma marca exclusivamente elétrica. E fruto do declínio de interesse nos carros pequenos… cresceu, e muito! E agora chegamos ao novo SUV batizado de Smarft #5, totalmente chinês, mas com importantes pitacos da Mercedes..

Ao observarmos o novo Smart #5, que chegou no ano passado, percebemos que a guinada foi completa: daquele sensacional veículo compacto, a história evoluiu para um SUV elétrico espaçoso, luxuoso e tecnologicamente avançado, cheio de soluções interessantes, mas mais perto dos carros quase comuns. Foi perdida a exclusividade típica dos Smart originais. Há uma discreta aposta na irreverência, agora direcionada para as novas gerações e suas outras necessidades. Por outro lado, a apresentação desse modelo representa o renascimento da marca no mercado, por meio de uma parceria estratégica que ninguém esperava ser tão transformadora.

A história desta metamorfose é interessante, com nuances que passam longe do óbvio. Outrora uma criação da Daimler focada na mobilidade minimalista, com a entrada da Geely na brincadeira em 2019 —foi a marca chinesa que salvou a Volvo, por exemplo- por meio da uma joint venture 50/50 com a Mercedes-Benz, tudo mudou de direção.

O primeiro reposicionamento foi passar o foco total para veículos elétricos, maiores e que pudessem competir firme no segmento dos SUV médios, onde dominam marcas como o Tesla, Stellantis, Hyundai e Kia, entre tantos outros. E mirar no topo deste segmento foi algo ousado e tem tudo para dar certo. O novo Smart chegou exalando qualidade.

E a mudança de rumo não foi apenas um capricho desta e das outras marcas que seguiram o mesmo caminho, mas uma estratégia muito bem calculada. A Geely trouxe o seu know-how para produção em massa e baterias excelentes e acessíveis, enquanto a Mercedes deu o toque de qualidade premium ao produto. Não é novidade, pois muitas informações sugerem que esta aliança já planeja uma linha de, pelo menos, oito modelos até 2032, incluindo versões híbridas e até uma visão moderna do venerado Fortwo, mas agora com tração elétrica e espaço para mais de dois ocupantes.


Também é bom lembrar que a Geely já investiu perto de US$ 3 biilhões em centros de Pesquisa e Desenvolvimentio na Europa, para assim contornar as barreiras comerciais impostas no Velho Continente e produzir parte dos seus veículos na Hungria.

O Smart #5 foi lançado no final do ano passado, e marca o ponto máximo até agora desta nova era elétrica para a empresa. Com 4,7 metros de comprimento e capacidade para cinco passageiros, este SUV elétrico é claramente uma declaração de ambição muito elevada: adeus aos dois lugares, bem-vindo ao conforto familiar, espaço e ambiente premium. Há a questão do preço, claro, pois tudo começa na Europa em US$ 55 mil na versão Pro, básica passa pela “Summit Edition” (com extras off road como tração nas quatro rodas e proteções inferiores) que sobe para US$ 68 mil, ainda muito competitivo diante dos rivais premium e, óbvio, ao seu posicionamento também premium. E chega até a Brabus, de US$ 73 mil…

A inspiração para este modelo de produção surgiu no concept apresentado no Salão de Munique em 2023, com visual quadradinho e faróis LED matrix, reflexo da assinatura Mercedes no projeto, numa boa mistura do conservadorismo europeu e da inovação asiática. No interior, nota-se o luxo descontrolado, na qualidade dos materiais e na construção, ou mesmo aplicação de materiais sustentáveis como revestimento sintético que imita couro (agora chamado de “couro vegano”) e no bom espaço a bordo. Os bancos são envolventes e garantem o conforto em qualquer tipo de piso. A direção encontra-se ao melhor nível da concorrência, e a estabilidade impecável faz pensar em quanto a marca nvestiu para tornar o Smart #5 um dos melhores “alunos da classe”.
Detalhes da potência por versão:
- Smart #5 Pro e Pro+: 340 cv e 363 cv, respectivamente, com tração traseira.
- Smart #5 Pulse e Summit Edition: 587 cv (432 kW), com dois motores e tração integral.
- Smart #5 Brabus: 646 cv, a versão mais potente, com dois motores e tração integral.

Embora os números de aceleração não sejam tão importantes em um SUV apto ao fora de estrada, o desempenho realmente impressiona: com seus 340 cv na versão de entrada, vai de zero a 100 km/h em seis segundos. Está bom? Pois saiba que há uma versão Brabus de 646 cv, que faz o mesmo em inacreditáveis 3,8 segundos. A suspensão adaptativa chama atenção pelo equilíbrio que oferece entre conforto e atividades off road, e a bateria tem em torno de 465 a 590 km de autonomia conforme a versão. Recarrega em 15 minutos.

Também chama a atenção a qualidade de construção, com ruído interior mínimo graças ao excelente isolamento acústico; o espaço traseiro é otimo e ergonomicamente bem otimizado. Mas são as inovações ocultas que o #5 introduziu que impressionam:
- Arquitetura de 800 volts para permitir carregamentos ultra-rápidos em apenas 15 minutos
- Baterias com células LFP da própria Geely, conhecidas pela sua durabilidade. Segundo os testes internos, são 2.500 ciclos de carga com apenas 8% de perda de capacidade (6,8 anos de uso com um carregamento diário)
- Na Summit Edition, são usadas bateria NMC (níquel-manganês-cobalto) de 100 kWh, onde, em percurso misto, é possível atingir em torno de 550 km.
- Menos conhecida, mas já começando a se apresentar em automóveis, em especial elétricos, a Inteligência Artificial analisa padrões de tráfego para pré-aquecer ou arrefecer as células da bateria, otimizando a eficiência em até 12%.
- Sistema de multimídia da Geely-Mercedes, o “AiGO”, com telas que se baseiam em IA generativa para p permitir personalizações.
- Assistente de voz, o “Hey Smart”, que evolui sempre que é utilizado, aprendendo preferências de rotas, regulagem do ar condicionado com base em padrões biométricos (como batimentos cardíacos, medido pelo volante) e até sugere paradas em postos de carga de modo preventivo.
- O HUD (head-up display) é outra das inovações aplicadas pela marca, com a projeção de imagens holográficas no asfalto, que podem ser alertas para pedestres ou animações personalizadas para crianças e, mais uma vez, com integração da IA para aprendizagem emocional e até detecção de cansaço pelo tom de voz do motorista, ativando massagens nos bancos ou playlists de músicas calmas.
Algumas destas funcionalidades ainda se encontram em fase de testes pela marca, com previsão de ativação à distância, via OTA, em 2026.

Destaques Técnicos
- Alguns boatos indicam que protótipos híbridos já estão em testes, com mais de 1.000 km de autonomia.
- Bancos traseiros elétricos e reclináveis em até 121º com aquecimento e ventilação, e que é possível rebater para formar uma cama king size. Além do ajuste elétrico, os bancos podem ser dobrados na configuração 60/40 para aumentar o espaço do porta-malas de 630 litros para até 1.530 litros.
- Três telas: o chamado “Cockpit digital”, com três telas principais. Um painel de instrumentos de 10,3 polegadas; tela central Oled de 13 polegadas (multimídia e assistente de voz por IA, chamado de “Leo”) e tela do passageiro de 13 polegadas para entretenimento independente; complementado por HUD AR de 25,6 polegadas.
- Teto Panorâmico com opacidade variável.
- Suspensão Inteligente: nas versões AWD (Premium+ e BRABUS) com suspensão a ar e regulagem de altura integrada com o sistema inteligente de tração AWD (com algoritmos eletrônicos para otimizar a estabilidade e altura ao solo, que não é IA, mas sim eletrônica avançada via suspensões G-Pilot)
- Assistente de Voz IA: Avatar “Leo” com comandos de linguagem natural integrados, ligado ao sistema AMD V2000 para respostas rápidas em multimídia, navegação e climatização.
- Bancos Zero-Gravity: bancos dianteiros reclináveis em até 121 graus com massagem, ventilação e aquecimento; materiais em material Dynamic/Alcantara na versão BRABUS
- ADAS de Nível 2+ com Smart Pilot Assist 3.0, LiDAR e 23 assistências (tráfego, mudança de faixa, colisão), oito airbags e monitoramento de ocupantes.

Concluindo, tire aqueles carros de dois lugares bonitinhos da cabeça, porque a Smart não é mais uma fabricante europeia de veículos pequenos. Na verdade, o #5 é o maior carro que a marca -agora chinesa- já construiu, com 4,7 metros de comprimento, 1,9 m de largura e 1,7 m de altura. Em resumo, o Smart #5 destaca-se no mercado pelo equilíbrio entre luxo, tecnologia e versatilidade, e possui argumentos suficientes para competir no exigente segmento dos SUV premium com preços que começam em torno dos US$ 70 mil.

